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De espaços mortos a espaços públicos: Como os becos podem melhorar nossas cidades

  • 12:00 - 24 Janeiro, 2017
  • por Matt Alderton
  • Traduzido por Eduardo Souza
De espaços mortos a espaços públicos: Como os becos podem melhorar nossas cidades
De espaços mortos a espaços públicos: Como os becos podem melhorar nossas cidades

Esse artigo foi publicado originalmente por Redshift, da Autodesk, como "Reincarnated Architecture: Through Green Alleys, Dead Space Can Live Anew."

Para a maioria das pessoas, os becos são, na melhor das hipóteses, zonas liminares. Habitando o espaço entre "aqui" e "lá", eles existem, mas por causa de suas adjacências.

Na pior das hipóteses, eles são escuros, úmidos e até perigosos -vistos pelos habitantes da cidade como espaços mortos. No entanto, para alguns visionários, o espaço negativo que os becos ocupam não estão, absolutamente, mortos; estão apenas dormentes, esperando por um renascimento em algo funcional e novo.

Em cidades onde o setor imobiliário é escasso, caro ou impraticável, as vielas estão sendo recuperadas, revitalizadas e reutilizadas como parques, pequenos negócios, espaços de arte, trânsito de bicicletas e até mesmo agricultura urbana. Todas essas vielas têm o potencial de criar novos enclaves que tornam as comunidades mais seguras, limpas e prósperas.

A transformação de um beco no Miami Design District. Imagem © Daniel Toole
A transformação de um beco no Miami Design District. Imagem © Daniel Toole

Seattle escondida

Entre aqueles que apreciam os becos não só pelo que são, mas também pelo que poderiam se tornar, está o arquiteto e urbanista Daniel Toole. Enquanto vivia em Seattle durante 2008, ele desenvolveu uma obsessão com estas veias e artérias urbanas entre edifícios.

"Todos os dias eu andava pelas vielas de onde morava em First Hill até meu escritório perto do Pike Place Market", diz Toole, que, depois de fotografar os becos em seu trajeto diário, começou a procurar novas maneiras de se envolver com eles. Isso o levou a aulas de serralheria, onde criou brinquedos como cinzeiros e caixas de flores que usou para personalizar seus becos favoritos.

"Tornou-se um grande hobby", diz Toole, autor de Tight Urbanism, um volume dedicado à arquitetura de becos, financiado pela Bolsa de Estudos Emergentes de 2010 da AIA Seattle. "Em Melbourne, especialmente, esses locais costumavam ser muito perigosos. Agora eles são a melhor parte dessa cidade porque foram criados incentivos para a abertura de negócios neles. Eles estão cheios de lojas, restaurantes, bares e galerias de arte - todos os tipos de coisas. De um lado de um prédio você terá uma grande loja de departamentos, e do outro uma pequena cafeteria. Essa dicotomia realmente me inspirou."

Tanto que Toole continuou visitando vielas em todo o mundo, e quando voltou para Seattle começou a organizar passeios e eventos em nome da cidade. Recentemente, Toole foi comissionado por um empreendedor para seu primeiro projeto de arquitetura de beco: dois becos que estão sendo transformados em caminhos de pedestres no Miami Design District, um antigo distrito de armazéns que se tornou um bairro criativo que celebra arte, arquitetura, moda e comida.

"Uma vez que a construção no bairro estabelecer-se, as pessoas vão encontrar essas jóias escondidas por trás dos prédios", diz Toole, que planeja iniciar seu próprio escritório de projetos especializado em arquiteturas de becos. "Acho que vai ser muito revelador para o resto do país."

Beco 20ft Wide em Austin, Texas. Imagem © Michael Knox
Beco 20ft Wide em Austin, Texas. Imagem © Michael Knox

A experiência no Texas

Como Toole, outros vêem os benefícios potenciais de resgatar os becos das lixeiras e da ruína -ou da destruição absoluta. Por exemplo, o arquiteto e urbanista Dan Cheetham, diretor do escritório fyoog de Austin, Texas. Em 2013, ele notou que várias vielas históricas de Austin estavam sendo consumidas e privatizadas por desenvolvimentos de "mega-blocos", que dependem de infraestrutura interna para serviços públicos e manutenção, em vez das vielas externas que remontam ao plano original de Austin de 1839.

Em resposta, ele liderou o projeto 20ft Wide, uma iniciativa sem fins lucrativos celebrando os becos de Austin, transformando temporariamente um deles -Alley nº 111, localizado na Ninth Street entre Congress Avenue e Brazos Street - em um espaço público para a arte e outras atividades. Durante a exposição de cinco dias, o beco hospedou tudo, desde música ao vivo e jantares à luz de velas até sessões de ioga e brincadeiras sob a sua escultura colorida, destacando os vestígios históricos do beco.

"Transformar um beco em um espaço público pop-up cria consciência e permite que as pessoas realmente apreciem esses espaços e aprendam sobre a história da cidade e sua formação", diz Cheetham.

A Comissão do Centro da cidade tomou conhecimento, publicando um relatório, “Activating Austin’s Downtown Alleys as Public Spaces,” (Ativando os becos do centro de Austin como espaços públicos), e desde então empreendeu novos projetos (como o Rainey Alley Case Study) para explorar transformar becos em espaços comunitários viáveis e preservar o rico passado arquitetônico de Austin.

"Os becos oferecem um vislumbre único na história das cidades e dos edifícios", diz Cheetham. "Eles revelam detalhes de como edifícios e espaços urbanos foram construídos e utilizados; Sua história social, cultural e econômica; E lições sobre urbanidade que ainda são relevantes hoje.

"Há todas estas peças realmente antigas e interessantes de edifícios que você não veria de outra forma, o que lhe dá uma janela para a história da cidade."

Proposta para beco em San Francisco. Cortesia de San Francisco Planning Department
Proposta para beco em San Francisco. Cortesia de San Francisco Planning Department

Cultivando comunidade na Califórnia

Em San Francisco, espaços públicos em becos não são apenas pop-up; eles são permanentes. O arquiteto David Winslow, gerente de projeto no Departamento de Planejamento de San Francisco, está encarregado de um programa de U$ 2 milhões para criar “Living Alleys” ("Becos Vivos") nas vizinhanças de Market e Octavia. Sua inspiração é o Linden Alley, que foi transformado em 2010 em uma rua compartilhada para carros, ciclistas e pedestres. Com apenas 100 metros de comprimento, apresenta um projeto sem meio fios que combina perfeitamente rua com calçada- adicionando árvores frondosas, vegetação, lajes de pedra que servem como bancos, e um café dentro do que costumava ser uma antiga garagem.

"É um espaço acalentado", diz Winslow, que trabalhou no beco quando trabalhava em um escritório de arquitetura. Quando ele retorna hoje, ele diz que sente como um jardim compartilhado entre toda a comunidade urbana em torno dele. "O que percebemos é que, na maioria das partes da cidade, o valor da experiência urbana reside na esfera dos pedestres. Devido à sua escala, as vielas são um lugar muito especial onde podemos criar ambientes exclusivamente para os pedestres."

As instalações neste beco em Austin, Texas, apresentam malhas de fios coloridos e centenas de origamis de papel criados por crianças da comunidade. Imagem © Dan Cheetham
As instalações neste beco em Austin, Texas, apresentam malhas de fios coloridos e centenas de origamis de papel criados por crianças da comunidade. Imagem © Dan Cheetham

Esta pequena escala -que força um sentimento íntimo e um ritmo lento- é a principal razão de arquitetos e urbanistas serem atraídos pelos becos. "As vielas são como as cápsulas do tempo porque as empresas nunca voltaram lá", diz Toole.

Readaptar os becos vêm com incentivos sociais, econômicos e ambientais, também. "Os becos são um recurso que foi inteiramente negligenciado e estigmatizado durante a maior parte de um século", diz Toole. "Agora eles estão se tornando visados, e eu acho que isso trará coisas excelentes para todos os aspectos das nossas cidades."

Claro, onde há oportunidades, há também desafios. As ruas podem ser repletas de ordenamentos de zoneamento rigorosos, infraestruturas, preocupações de saúde pública e segurança (como pragas, resíduos, crime e tráfico), restrições de espaço, hidrologia, considerações ambientais como insolação e ventos, acesso e saída de emergência e continuidade de serviços para coleta de lixo e entregas.

"Há também um desafio de percepção", diz Cheetham. "As pessoas na comunidade podem questionar o valor desses espaços e se perguntar por que você está gastando seu tempo e dinheiro em becos."

Mas quem se deparou com um bar escondido em Chicago, um restaurante isolado em Boston, um café secreto em Amsterdã ou uma loja em um beco de Istambul entende exatamente por que, de acordo com Winslow: "É meio mágico quando você entra em um ambiente urbano, olha para uma pequena rua estreita e diz: "Vamos verificá-la".

Sobre este autor
Matt Alderton
Autor
Cita: Alderton, Matt. "De espaços mortos a espaços públicos: Como os becos podem melhorar nossas cidades" [From Dead Space to Public Place: How Improving Alleys Can Help Make Better Cities] 24 Jan 2017. ArchDaily Brasil. (Trad. Souza, Eduardo) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/803973/de-espacos-mortos-a-espacos-publicos-como-os-becos-podem-melhorar-nossas-cidades> ISSN 0719-8906