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The Indicator: Uma breve história sobre varandas

The Indicator: Uma breve história sobre varandas
The Indicator: Uma breve história sobre varandas, Sears Tower Glass Balcony / Jared Newman - Via DesignCrave.com
Sears Tower Glass Balcony / Jared Newman - Via DesignCrave.com

De início, a breve história das varandas abrange uma análise das subjetividades acima do solo, em partes de edifícios suspensos no ar, olhando para baixo, para as moedas na calçada, inexplicavelmente visíveis do 34º andar, de onde se tem a sensação de estar no mesmo nível das aeronaves que chegam ao aeroporto de Logan de onde quer que estejam vindo e acima do mar. Uma vez cheguei a estar paralelo a um avião enquanto ele balançava e lentamente virava suas asas.

É uma sensação estranha estar no ar em tamanha altura, imóvel. Parece mais natural estar em movimento, estar voando. Com o queixo no alumínio quente da grade de proteção, eu posso colocar meus joelhos através das barras verticais. Apenas uma tela de metal ancorada no concreto. Já fui mais corajoso com alturas e chegava a ficar em cima de uma cadeira na varanda só para me sentir livre do peitoril. Ficava recuado a uma distância segura (assim o acreditava) com a palma da mão pressionada contra a varanda de cima. Sustentava-me nesse espaço intermediário como um macaco, preso entre dois andares e olhando sobre o peitoril para um ponto no horizonte infinito. 

O inusitado de estar no meio do céu era que os sons da cidade ascendiam com uma claridade que é de certa forma obscurecida pelo solo. Alguns ruídos se elevavam independentemente das ruas. Quando os ventos estavam propícios, o cheiro do combustível deslizava sobre porto. O som o seguia.

A variedade monótona / Foto por Michael Wolf – www.photomichaelwold.com
A variedade monótona / Foto por Michael Wolf – www.photomichaelwold.com

Se você já se perguntou o que acontece com as coisas quando elas são jogadas para fora das varandas, você está no lugar certo. Cubos de gelo são difíceis de seguir com o olhar a menos que eles reflitam alguma luz solar, mas eles vão rachar ou quebrar quando caírem no chão. As moedas, já mencionadas, podem abrir sulcos nas cabeças dos pedestres se um golpe direto não for evitado a todo custo. O que acontece com as moedas é que elas oscilam ao cair, rodopiando como se elas tivessem sido pensadas para isso. Como dito antes, elas permanecem visíveis como pequenos espelhos no mezanino. Os ovos comportam-se como você já deve imaginar, mas de uma altura de 34 andares, a pressão iria quebrá-los antes que eles chegassem ao nirvana, e, assim, jogar redes de pesca como se tivessem sido jogadas sobre o parapeito para pegar escolas de peixes voadores. Baterias fazem um forte baque quando atingem o chão e permanecem, em grande parte, intactas, embora mal amassadas. Não aparentam vazar ácido. Não explodem. Pedaços de pão são na verdade aerodinâmicos até certo ponto. Um modelo de avião de plástico. Acredito ser B-17. Caiu de barriga para baixo quase sem girar. As asas pularam fora quando aterrissou, mas puderam ser colocadas de volta e jogado mais uma vez, embora pedacinhos pequenos estivessem faltando.

As tardes dos caminhões de bombeiros foram todos encaminhados escada interna abaixo. Edifícios de concreto queimam sim. Do chão era possível identificar minha varanda pela aleta angular de concreto que fazia a torre parecer levemente maior nos andares superiores. Eu sempre pensei que as varandas inferiores significavam algo diferente para os moradores dos andares inferiores. Muitas pareciam esquecidas. Elas eram tão baixas que eles não valiam o esforço de levantá-las. Jogar algo dessas sacadas seria algo anticlimático.

Varandas altas eram altas suficientes para lhe colocar em um mundo diferente. Coisas que decolavam destas varandas eram irrevogavelmente alteradas, modificadas pelo ar, a jornada até o mezanino abaixo. Uma vez, ou muitas vezes, na verdade, retornar a essa varanda após muitos anos, a sensação de vertigem era suficiente para me recuar para trás, De alguma maneira, eu tinha perdido minhas ‘asas de varanda’. Teria eu vivido muito tempo no térreo, não mais alto do que o segundo andar?

O parapeito então parecia frágil. Repensando minha primeira experiência em varandas altas, precisei de algumas tentativas de aproximação antes de eu estar apto a ficar junto ao parapeito e olhar para baixo. Seja corajoso. Eu não acho que eu era incomum. Eu tinha recém chegado da minha vida de alturas baixas. Locomover-me para a ponta daquela varanda era como se acostumar a nadar em águas profundas. A diferença principal é que seus pés estão no chão enquanto você está flutuando. A outra diferença principal é que o chão é o fundo e é onde a superfície está.

E tem o tempo, um lampejo breve de tempo entre ser o observador e ser visto, seja olhando paras as pistas do aeroporto, ou procurando centavos abaixo. Aí tem o mais óbvio atraso do som que te coloca em um tempo diferente. É todo o céu entre os edifícios e como o céu assume formas de vida - vida lá fora em algum lugar. Eu estava determinado em pegar minhas asas de volta, mas foi preciso esforço e a vertigem nunca foi embora completamente.

Teve outras varandas, mas não tão altas. Minha primeira varanda foi o telhado que eu subi quando tinha cinco anos. Meu pai tinha deixado a escada apoiada na casa e eu subi lá pra ver o que eles estava fazendo. Alguma coisa parecida com alcatrão. Eu poderia sentar no topo do telhado todo o dia, mas meu cérebro não pôde descobrir como voltar pra escada e dali para o chão. Não tinha nenhum escorregador. De alguma maneira eu fui carregado para baixo.

Talvez a vertigem seja uma memória, ou talvez sejam apenas as alterações no ouvido interno. Meu senso de equilíbrio tinha mudado apenas o suficiente para disparar um alarme. Os jatos Logan foram tranquilizadores na abordagem, engrenagens para baixo e ocasionalmente, brilhando ao sol. Quando o vento estava certo, eles eram silêncio absoluto. Mas eu tinha que voltar pra cima, ao contrário dos dias anteriores, quando eu poderia ir direto para o parapeito e me inclinar. 

As varandas de Hong Kong como extensões da vida urbana / Foto por Michael Wolf – www.photomichaelwolf.com
As varandas de Hong Kong como extensões da vida urbana / Foto por Michael Wolf – www.photomichaelwolf.com

Curiosamente, eu tento encontrar algo sobre varandas em Nova York Delirante, de Koolhaas mas ele parece ter evitado esse tema por algum motivo e porque não é um trabalho acadêmico, não há um índex compreensível e relativamente poucas notas para um volume de tamanhas proporções. Esse, para mim, aponta para o fato que a varanda é algo bastante notável, mas ainda sim, invisível. É a maneira pela qual a fachada é colonizada e humanos podem flutuar no ar enquanto estão apenas de pé. Edifícios altos com varandas preenchem a premissa de aviões grandiosos, os dirigíveis. Eles parecem incomum suficiente para serem especiais.

Rem aborda os meios de subida e descida dos arranha-céus feitos para parecerem fantásticos – elevadores e escadas – mas ele aparentemente não prestar atenção ao fato de como nós podemos viver fora dessas torres. Na verdade, todas as ilustrações em Nova York Delirante mostram edifícios desprovidos de sacadas. As fachadas são primorosamente intercaladas com vidro para fazerem variedades incríveis de xadrez.

A única imagem que aborda a vida das varandas está na página 83. Rem chama de "Teorema 1909". Era na verdade um desenho representando casas suburbanas arquivadas em lajes, uma por cima das outras, subindo em altura por sobre a cidade - uma torre de pátios gramados e mansões inglesas com aviões passando por elas. Adicionalmente, tem uma placa do primeiro elevador Otis, que, aliás, parecia uma sacada que se movia para cima e para baixo, uma simples varanda.

É verdade que quando arranha-céus estavam sendo concebidos, varandas de altas altitudes não eram consideradas factíveis? Eram consideradas muito perigosas? Aquela varanda que eu cresci parece mesmo incomum em relação ao resto da cidade e a outras cidades. Lugares como Xangai e Dubai estariam mais propensos a ter varandas altas? Será que uma vez nós aqui do Ocidente já construímos mais, mas agora estamos assustados, cautelosos demais? Talvez seja caro demais a partir de certa altura. Muitos pontos negativos e positivos. Basta percorrer fachada acima do edifício e pronto. Pessoas nem as usam, podem pensar alguns.

Na verdade, minha varanda era mais um lugar para guardar coisas que uma extensão da sala de estar. Havia o ocasional churrasco das alturas – a fumaça azul soprando para fora deve ter parecido que algo estava alarmantemente errado. Certamente, esse era o churrasco mais alto da cidade, a não ser aquelas ocasiões em que as pessoas do 38º andar tivessem um incêndio também. Pensando bem, isso deveria ser algo proibido. 

Na maior parte do tempo, minha varanda era coberta com o excesso. Isso começa a se aproximar da estratégia espacial da varanda interna construída para fora, a varanda de espaço extra, vista através do mundo como uma faixa de extrusão de grande diversidade que corre para cima e para baixo em torres residenciais. Em Hong Kong, por exemplo, varandas sobem aos pavimentos superiores em uma implacável repetição. Mas em tempo, qualquer monotonia percebida, dá chance à diversidade quando inquilinos colocam em suas varadas diferentes estilos de vidros emoldurados ou outros materiais. A fachada começa a encarnar a vida destes inquilinos, cada uma tornando-se uma expressão única de roupas penduradas, sucata empilhada, pássaros em gaiolas, panelas e frigideiras, e unidades de ar condicionado aparecendo aqui e ali. Então, talvez seja no mundo em desenvolvimento que varandas atinjam sua maior lógica e suas maiores alturas. Isso seria algo interessante. 

Texto por Guy Horton via Archdaily. Tradução por Archdaily Brasil.

Sobre este autor
Cita: Fernanda Britto. "The Indicator: Uma breve história sobre varandas" 25 Fev 2013. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/99408/the-indicator-uma-breve-historia-sobre-varandas> ISSN 0719-8906

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