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Senso Comum em Arquitetura Sustentável

Senso Comum em Arquitetura Sustentável
Senso Comum em Arquitetura Sustentável, Elemental desenvolveu um sistema no qual metade de cada casa seria construída na primeira fase. A outra metade seria construída uma segunda fase posterior, permitindo que os habitantes investissem em suas próprias casas através de financiamento público. Foto: Elemental.
Elemental desenvolveu um sistema no qual metade de cada casa seria construída na primeira fase. A outra metade seria construída uma segunda fase posterior, permitindo que os habitantes investissem em suas próprias casas através de financiamento público. Foto: Elemental.

Há poucos céticos que questionariam a importância de reforçar a sustentabilidade na arquitetura. O elevado valor social através de melhores condições de vida, o valor físico em um ambiente mais saudável e menos poluído, o valor monetário a longo prazo por meio de redução dos custos operacionais e de manutenção e o valor ético através da justiça para com as gerações futuras são evidentes.

Mas, apesar deste acordo, a inércia das autoridades em finanças e política que estão preocupadas com os ciclos de curto prazo diminuiu o ritmo da mudança e distraiu os arquitetos e engenheiros da missão de integrar melhor o desempenho sustentável em seus projetos.

O trabalho dos arquitetos chilenos do escritório Elemental, liderado por Alejandro Aravena, na implementação da proposta  vencedora do Prêmio Holcim - o "Masterplan de reconstrução sustentável pós-tsunami" para Constitución - ilustra como o uso rigoroso do mero senso comum pode levar a resultados significativamente melhores sem gerar custos mais elevados. A cidade de mais de 45.000 habitantes localiza-se a 400 quilômetros ao sul de Santiago, na costa do Pacífico, e tem na pesca sua principal indústria. Constitución foi quase completamente destruída por um tsunami em 2010. O tsunami atingiu primeiramente o ponto mais ao norte da cidade, com ondas de doze metros, em seguida, continuou se movendo ao leito do rio até acertar o resto da cidade, com ondas de seis metros.

Masterplan com o apoio da comunidade

Após a catástrofe, o escritório Elemental assumiu o desafio de desenvolver um masterplan em 100 dias que incluía planos para quase todos os edifícios da cidades - lembrando que o tempo era muito curto para os projetistas, mas uma eternidade para os desabrigados pelo desastre. Além de considerar como mitigar e proteger a cidade contra futuras ameaças, o processo também precisava ser participativo, para que as necessidades dos habitantes pudessem ser precisamente definidas e as prioridades claramente estabelecidas. 

O engajamento da comunidade para compreender as necessidades foi fundamental: Elemental redefiniu a qualidade e os benefícios sociais ao projetar unidade de habitação que têm capacidade de ganhar valor com o tempo. Foto: Elemental.
O engajamento da comunidade para compreender as necessidades foi fundamental: Elemental redefiniu a qualidade e os benefícios sociais ao projetar unidade de habitação que têm capacidade de ganhar valor com o tempo. Foto: Elemental.

Embora as recomendações para proibir assentamentos em áreas de risco de tsunamis fossem enérgicas, a estratégia do Elemental era tentar dissipar a energia do mar através de zonas de vegetação: uma resposta geográfica para uma ameaça geográfica. Os habitantes viram três vantagens nesta abordagem. Primeiramente; a floresta pública melhoraria o acesso ao rio, que por muito tempo esteve cercado de propriedades privadas que impediam o seu acesso pela maior parte da população. Em segundo lugar; a floresta aumentaria a quantidade de espaços públicos per capita de 2,2 para 6,6 m²; Finalmente, a floresta também trataria da questão das inundações de inverno, que foram agravadas com a construção de um muro, e que eram consideradas um problema de impacto mais imediato e recorrente.

A terceira proposta da zona de amortecimento  teve o maior custo inicial - US$ 48 milhões -  mas também o maior valor: atenuação de catástrofes, prevenção contra inundações, criação de espaços públicos, abertura dos acessos ao rio. No entanto, investigações posteriores descobriram que o Ministério da Habitação e Urbanismo tinha um projeto para uma rodovia ao longo do rio, o Departamento de Águas tinha um projeto para os canais de chuva, e o Departamento Portuário tinha um projeto para fazer um dique no rio. Com a coordenação apropriada, estes projetos puderam ser implementados de modo mais sustentável, custando US$ 4 milhões a menos que se tivessem sido feitos separadamente. 

A área de amortecimento reduz o impacto do tsunami, mas traz, também, muitos outros benefícios para a comunidade local. Imagem: Elemantal
A área de amortecimento reduz o impacto do tsunami, mas traz, também, muitos outros benefícios para a comunidade local. Imagem: Elemantal

Potencial de crescimento incorporado

O Elemental também propôs combinar os fundos disponíveis para abrigos emergenciais temporários e habitação social para criar abrigos de melhor qualidade com custo inicial maior que pudessem ser desmontados e reutilizados em uma proposta de habitação social flexível. Os arquitetos projetaram as unidades sociais como metades de boas casas, ao invés de casas inteiras porém pequenas: possibilitando aos habitantes dobrar a área para 80 m². Próximo à casa vizinha, há um espaço vazio que pode ser ocupado com a expansão da casa. 

Neste projeto, a inovação não veio através de novos materiais, técnicas ou sistemas: veio com a coragem de seguir ideias de senso comum, compreender as necessidades das pessoas, e enxergar o problema tanto em termos de micro e macro ambiente.

“Sustentabilidade não é nada além do uso rigoroso do senso comum”, assegura Alejandro Aravena, Diretor do Elemental e Membro do Conselho da Fundação Holcim para Construção Sustentável.
“Sustentabilidade não é nada além do uso rigoroso do senso comum”, assegura Alejandro Aravena, Diretor do Elemental e Membro do Conselho da Fundação Holcim para Construção Sustentável.

Reconstrução em um plano integrado

O "Masterplan de reconstrução sustentável pós-tsunami" venceu o Holcim Award Silver Prize na América Latina em 2011. O júri independente elogiou o projeto por sua abordagem consciente em propor uma estratégia a longo prazo para melhorar o ambiente construído, ao invés de implementar uma estratégia pontual para reconstruir o que havia sido destruído pelo tsunami. Além disso, a constituição efetiva do projeto na comunidade social através da participação cidadã foi reconhecida, demonstrando sensibilidade contextual e social no plano.

Ao vencer o Prêmio Holcim, Alejandro Aravena apresentou uma palestra de abertura no Holcim Forum sobre "Economia da Construção Sustentável" e foi nomeado para o Conselho da Fundação Holcim. O Conselho trata dos assuntos arquitetônicos, científicos, culturais e políticos das iniciativas da Fundação, incluindo a competição Holcim Awards.

Inscrições abertas para o Holcim Awards

Cada três anos, a competição Holcim Awards busca por projetos que demonstrem habilidade de expandir as noções convencionais de construção sustentável e de equilibrar desempenho ambiental, social e econômico. Veja todos os 153 projetos que já foram premiados com o Holcim Awards aqui.

A 4ª edição do Holcim Awards está com as inscrições abertas até 24 de março. Mais informações sobre como participar aqui

Cita: Jordana, Sebastian. "Senso Comum em Arquitetura Sustentável" [Common Sense in Sustainable Architecture] 16 Jan 2016. ArchDaily Brasil. (Trad. Baratto, Romullo) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/174352/senso-comum-em-arquitetura-sustentavel> ISSN 0719-8906