
A pergunta-título deste artigo parte da dedução de que, se as cidades — nos moldes modernos — são entes espaciais possuidores de um ponto originário e demarcatório de desenvolvimento, logo, as mesmas também detêm um ponto (ou linha) equivalente de finitude. A questão poderia ser sanada de imediato ao se valer da cartografia. Sob a ótica administrativa e organizacional, mapas permitem, de certo modo, definir a extensão de todo e qualquer aglomerado urbano. Contudo, os limites arbitrados por bases de representação escalar não dão conta de derrogar a reflexão, pois o senso de apreensão da cidade é muito mais complexo. Como elabora Ferrão (2003), numa fala que abarca, para além da geografia e arquitetura, a dimensão sociopolítica da matéria: a cidade é um “objeto de contornos cada vez mais invisíveis.”
Em algumas capitais brasileiras, a exemplo de São Paulo e Recife, o marco zero simboliza fisicamente o ponto inicial de contagem para a ordenação numérica das ruas e quilometragem das vias cujas cabeceiras se localizam em tais municípios. Com a dupla função de orientar a sistematização do ambiente construído e servir como um elemento icônico de imageabilidade, como qualificaria Lynch, o marco zero pode ser lido como o nascedouro oficial dos caminhos de uma cidade, se dele dispuser. Nos dois exemplos supracitados, reforça o signo de centralidade o relevante conjunto arquitetônico que circunda esses totens e dá a eles importância na paisagem.
Cabe ressaltar, porém, que, ao colocar as efígies institucionais como as únicas matrizes de fluxos possíveis em seus respectivos sítios, arrisca-se recair, inevitavelmente, na narrativa de sobrepujação histórica do centro em relação à periferia, como num imutável binômio início-fim, hegemonia essa contestada no discurso introdutório dos painéis da exposição EXPOMUS, de 2004:


