Assentamentos ribeirinhos e o diálogo atemporal entre arquitetura e natureza

Assentamentos ribeirinhos e o diálogo atemporal entre arquitetura e natureza

Os rios há muito são considerados as artérias da Terra, servindo como a essência das comunidades urbanas à medida que os assentamentos humanos desenvolveram seus abrigos ao longo deles. Séculos depois, a arquitetura ribeirinha permaneceu vital à medida que essas áreas se expandiam para além das tipologias residenciais e aproveitavam estruturas dinâmicas de uso misto e funções públicas. Por mais valiosas que possam parecer, essas paisagens trazem o risco de inundações inesperadas, aumento dos níveis de água ou secas completas, o que obrigou os arquitetos a projetarem ambientes construídos capazes de responder a essas mudanças abruptas. Então, como esses assentamentos foram construídos no passado e como a densificação urbana de hoje e os avanços tecnológicos influenciam na maneira como são construídos?

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Mesopotâmia 

10º milênio a.C. - século VI a.C.

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O rio Tigre-Eufrates. Imagem via PIcryl / American Colony (Jerusalem), Photo Dept.

A antiga arquitetura da região do Tigre-Eufrates é considerada uma das primeiras estruturas permanentes construídas no mundo, com realizações notáveis ​​como o desenvolvimento do planejamento urbano e das casas com pátio. Os historiadores acreditam que os sumérios foram a primeira sociedade a construir uma cidade (Uruk) com ruas, mercados, templos e espaços verdes públicos, todos planejados em decorrência da geografia e da economia particulares da região. Embora o complexo de templos da cidade tenha sido o núcleo em torno do qual o planejamento urbano se desenvolveu, o canal da cidade serviu como uma característica fundamental onde os jardins, o porto e as áreas agrícolas foram posicionados. O cinturão de terras de irrigação incluía pequenas aldeias ou distritos e uma rede de vias e canais que conectavam a cidade e criavam algumas das primeiras paisagens ajardinadas da história, delineadas por esses canais de água. E embora as ruas fossem bem espalhadas pela cidade, os canais eram muito mais importantes do que as estradas para o transporte. Além das funções culturais e econômicas, os canais fluviais levaram à integração de fontes da região pois os historiadores descobriram uma antiga bacia de rocha sólida assíria esculpida em pequenos condutos próximos ao rio Comel. As estruturas ribeirinhas eram frequentemente construídas com tijolos cozidos ao sol, gesso de barro ou pedra, e ocasionalmente eram envoltas com pedra colorida ou painéis de terracota dependendo de sua função.

Rio Nilo

3º milênio a.C.

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O rio Nilo. Imagem via PickyTop

Com grande valor para a hierarquia e o poder, os antigos faraós egípcios queriam garantir que as estruturas funerárias e religiosas resistissem a gerações, por isso, templos, túmulos e monumentos foram construídos em terrenos distantes do Nilo para evitar serem afetados pelas severas inundações do rio. Embora o clima seco e quente do Egito permitisse que as estruturas de tijolos de barro resistissem à deterioração, a maioria das cidades foi destruída inúmeras vezes devido às construções na área cultivada do Vale do Nilo. Templos próximos ao vale foram construídos paralelamente à margem e elevados em uma Mastaba para diminuir o risco de serem danificados por inundações. Os núbios, que são os habitantes do vale central do Nilo ao sul do Egito e ao norte do Sudão, usaram o Nilo para desenvolver características arquitetônicas únicas, como a abóbada núbia, um volume em arco construído com materiais locais que inspirou a construção de casas com coberturas abobadadas. Essas estruturas eram compostas por uma mistura de argila, água e palha, todas originadas do Nilo e seus arredores.

Rio Amazonas

(7500 a.C. – Descoberto pelos europeus em 1500 d.C.)

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Vista da paisagem do Rio Amazonas, Brasil. Imagem via Flickr User CIFOR

Conhecido como o segundo maior e mais longo rio do mundo em volume, a bacia do rio Amazonas inclui a maior parte do Brasil e Peru, grande parte da Colômbia, Equador e Bolívia e uma pequena parte da Venezuela. As inundações anuais, que ocorrem nas áreas de várzea de cada lado do rio e seus córregos, resultaram em solos ricos. No entanto, devido à topografia acidentada, a maioria dos assentamentos raramente foi devastada por inundações, pois foram construídos em superfícies elevadas. Sua vasta extensão permite diversos ambientes: mais de dois terços são cobertos por uma floresta tropical, enquanto as margens norte e sul consistem em floresta seca e savana. Os primeiros assentamentos humanos das comunidades amazônicas foram estruturados em colinas baixas para facilitar o comércio com as civilizações através dos terrenos nas cabeceiras andinas. Os montes de conchas e a terra modificada são considerados as primeiras evidências de habitação naquela região. Os arqueólogos estimam que os assentamentos “pré-colombianos” foram capazes de desenvolver estratificações sociais que sustentavam quase 100.000 nativos, o que foi alcançado pelo cultivo seletivo de terras designadas usando o fogo. Ao queimar repetidamente essas áreas, o solo tornou-se mais escuro e rico em nutrientes, chamado terra preta, que oferece terras férteis adequadas para agricultura e estruturas complexas. Avançando para os anos 1500, assentamentos coloniais da Europa foram estabelecidos ao longo das margens do rio para fomentar o comércio e as pregações religiosas entre os povos indígenas da floresta tropical. Já durante o século XX, a Amazônia atraiu atividades humanas locais e internacionais que ameaçaram sua complexa ecologia, removendo grande parte de suas terras e introduzindo corpos estranhos.

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Vista aérea do rio Amazonas. Imagem via Flickr User mariusz kluzniak

Hoje, a relação entre arquitetura e água evoluiu. Sejam rios, canais, lagos ou o mar, a densificação urbana combinada com as mudanças climáticas e o aumento dos níveis de água provocaram uma abordagem diferente de desenvolvimento. Os principais arquitetos e investidores urbanos pediram uma mudança de mentalidade, propondo maneiras de contornar rios e canais em vez de entendê-los como um problema, como visto na primeira parte da série documental Architecture and Water: A River Runs Through It. Com essa abordagem em mente, vários arquitetos transformaram os bancos de água em espaços públicos, dinâmicos e atraentes para estabelecer um equilíbrio entre o ambiente construído e a fluidez da água.

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Niederhafen River Promenade / Zaha Hadid Architects. Image © Piet Niemann

O Passeio Fluvial Niederhafen do Zaha Hadid Architects, no rio Elba entre St. Pauli Landungsbrücken e Baumwall, em Hamburgo, destaca a modernização e o reforço do sistema de proteção contra inundações da cidade. Em 1962, inundações nas tempestades destruíram milhares de casas e causaram mais de 300 mortes, o que forçou as autoridades da cidade a desenvolverem uma barreira com altura de 7,20 m acima do nível do mar no Elba, em Niederhafen, para proteger a cidade. O projeto do ZHA serve como uma grande atração para os turistas, pois está em um dos espaços públicos mais importantes de Hamburgo, reconectando seu passeio fluvial com o tecido urbano circundante da cidade, protegendo-a de marés altas extremas.

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Proposta River Ring do Bjarke Ingels Group e James Corner Field Operations Aprovado pela Câmara Municipal. Imagem cortesia de Bjarke Ingels Group and James Corner Field Operations

Como meio de “melhorar a conectividade da orla pública, restabelecer os habitats naturais, elevar o padrão de resiliência da orla urbana e transformar a maneira como os nova-iorquinos interagem com o East River”, Two Trees Management, Bjarke Ingels Group e James Corner Field Operations propuseram o River Ring, projeto na orla de Williamsburg. O plano geral, que foi recentemente aprovado pelo Conselho da Cidade de Nova York, apresenta 12 mil m2 de espaço público aberto, uma praia pública protegida inédita com atividades aquáticas, um equipamento para tratamento de águas residuais no local e edifícios residenciais de renda mista.

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Sobre este autor
Cita: Stouhi, Dima. "Assentamentos ribeirinhos e o diálogo atemporal entre arquitetura e natureza" [Riverside Settlements and the Timeless Dialogue Between Architecture and Nature] 27 Fev 2022. ArchDaily Brasil. (Trad. Sbeghen Ghisleni, Camila) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/976160/assentamentos-ribeirinhos-e-o-dialogo-atemporal-entre-arquitetura-e-natureza> ISSN 0719-8906

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