A precariedade na profissão da arquitetura no século XXI

A precariedade na profissão da arquitetura no século XXI

Dizem que arquitetos e arquitetas costumam “matar um leão por dia”, dedicando a maior parte do seu tempo à labuta, ou aquilo que costumamos chamar em um escritório de arquitetura de “trabalho braçal”. Dentro da academia, por outro lado, arquitetos em formação passam seus dias aprendendo a serem mais sensíveis para com a paisagem e o espaço construído, a desenvolver a sua criatividade e com isso, propor soluções criativas que procuram respostas para as principais “questões” de nosso tempo. Considerando isso, é evidente que existe um enorme distanciamento entre o ensino da prática da arquitetura e a prática da arquitetura propriamente dita. Enquanto, dentro da academia, nossos futuros profissionais passam a maior parte de sua formação exercitando sua criatividade e desenvolvendo projetos ideais em contextos igualmente idealizados, a vida lá fora é muito diferente disso.

Arquitetos e arquitetas, em sua maioria, não são filósofos ou sábios que passam a vida ruminado sobre os mistérios inerentes à sua própria disciplina, muito pelo contrário. É mais provável que os chamados “profissionais da industria da construção civil” não tenham sido educados para serem formadores de opinião. Em sua maioria, arquitetos e arquitetas do nosso tempo tampouco podem ser considerados profissionais especialistas em estética. Se tivéssemos que descrever o “arquiteto típico” do início do século XXI, este seria um simples trabalhador que passa horas em frente a um computador adicionando informações a um modelo BIM ou ampliando detalhes construtivos que ele não faz a menor ideia de como se constrói. Ao lado dele se encontram pelo menos mais uma dúzia de outras pessoas fazendo exatamente a mesma coisa. Infelizmente, essa não é a realidade que um estudante de arquitetura espera enfrentar depois de formado. Entretanto, não há um jeito mais fácil de dizer que a arquitetura lá fora, meu caro, é apenas um trabalho. Ou melhor, um trabalho simples e banal como todos os outros.

A realidade de um arquiteto no século XXI não é muito diferente daquela de um trabalhador de chão de fábrica, exceto que este geralmente é um profissional contratado, de carteira assinada e com direitos trabalhistas assegurados. O arquiteto, por sua vez, vive apenas das falsas promessas de seus empregadores, sonhando em deixar a sua marca no mundo.

Ainda assim, arquitetos e arquitetas de nossa geração continuam se opondo veementemente à ideia de serem considerados meros “trabalhadores”. A este, eles obviamente preferem o galante título de “profissionais da indústria criativa”—talvez apenas um pouco injustiçados pelo atual momento. Seja como for, uma coisa é clara: arquitetos não se consideram no mesmo nível que os demais trabalhadores da industria da construção civil. Acontece que, será somente quando estes arquitetos e arquitetas começarem a aceitar sua atual condição, ou seja, de meros trabalhadores, que eles poderão finalmente mudar o mundo. A tão urgente transformação na profissão da arquitetura só virá com o engajamento de todos os arquitetos e arquitetos—através de uma classe trabalhadora unida e não a partir de indivíduos pretensiosos que se consideram gênios ou excepcionais demais para serem comparados a um trabalhador. Mas esta não será uma estrada fácil, tais mudanças não acontecem da noite para o dia. Pelo menos, alguns de nossos colegas de profissão são muito conscientes de nosso lugar no mundo, como a arquiteta e professora de arquitetura em Yale Peggy Deamer, que em seu último livro publicado, Architecture and Labor, nos ajuda a entender o nosso papel como arquitetos na sociedade capitalista do século XXI. O livro Arquitetura e Trabalho—uma coleção de ensaios escritos ao longo de dez anos—aborda os problemas mais perversos da nossa profissão e propõe possíveis soluções para eles, respostas que vão desde o direito contratual à sindicalização. No entanto, para mim, este pequeno volume deve ser considerado como uma espécie de roteiro, isto é, uma ferramenta para a conscientização de nossos colegas de classe.

Em sua obra escrita, Deamer procura questionar alguns dos principais mitos da disciplina da arquitetura. O ensaio escolhido pela autora para abrir a série de artigos que compõe o livro Arquitetura e Trabalho, não por acaso, é um texto sobre a importância do detalhe em um projeto de arquitetura. Ela observa que, ainda hoje, encaramos o detalhamento a partir de um ponto de vista artesanal do processo de construção, ou como uma solução pronta fornecida pelos próprios fabricantes. Deamer chama a atenção para o fato de que, na realidade, o detalhamento em um projeto de arquitetura, por excelência, é o resultado de um processo colaborativo desenvolvido entre todos os atores envolvidos. O detalhe na arquitetura é uma forma de diálogo, um dialogo construtivo entre as partes que compõe o todo. O ensaio seguinte fala sobre a natureza do ofício do arquiteto como mão de obra, questionando as divisões hierárquicas no campo da arquitetura e construção: “arquitetos projetam, empreiteiros constroem; nós criamos a arte, enquanto eles a executam.”

Ao se excluirem do mercado da construção civil, assumindo o papel de profissional autônomo, os arquitetos não apenas parecem aceitar passivamente a sua precária condição laboral, eles se negam a usufruir de todas as oportunidades e benefícios que todo profissional com vinculo empregatício tem direito. Além disso, essa completa desconexão com a industria da construção civil, e consequentemente com o canteiro de obras, também expõe os arquitetos a riscos morais em relação ao processo de construção dos edifícios que projetam (o que falar da declaração de Zaha Hadid, quem disse não ser seu dever como arquiteta se preocupar com os trabalhadores quando questionada sobre os operários que morreram durante as obras de seu Estádio para a Copa do Mundo de 2022 no Qatar) além de mostrar uma nítida falta de vontade e engajamento político para mudar a precária situação laboral da grande maioria de nossos colegas. Nas palavras de Deamer: “Arquitetos afirmam, com razão, que não contam com um lugar na mesa das negociações, mas ainda assim, lamentavelmente, eles se recusam a refletir sobre o impacto disso no agravamento da sua já precária situação laboral.”

Manuel Shvartzberg and Yolande Daniels reading the manifesto of The Architecture Lobby at a protest at the 2014 Venice Biennale. Image © The Architecture Lobby
Manuel Shvartzberg and Yolande Daniels reading the manifesto of The Architecture Lobby at a protest at the 2014 Venice Biennale. Image © The Architecture Lobby

Deamer, como uma das principais vozes por trás da organização Architecture Lobby, afirma que esta ruptura entre a prática de projeto e de construção é algo relativamente recente em nossa disciplina. Ainda no século XIX, arquitetos e críticos de arquitetura como John Ruskin e William Morris já chamavam a atenção para o fenômeno da alienação da classe trabalhadora como uma consequência da implementação das linhas de produção. Durante o século XX, Deamer afirma, a ascensão da ideologia modernista provocou uma mudança de foco da produção para o consumo de massa. Nos Estados Unidos do pós-guerra, o “corporativismo” fez com que o capitalismo passasse a ser visto como uma ferramenta emancipatória a qual operava através do direito ao consumo, alimentada pela abundante oferta de produtos desenvolvidos por uma industria de design, arquitetura e construção em ampla expansão. No entanto, a época dourada da metade do século durou pouco. Com a chegada do neoliberalismo a arquitetura acabou completamente despojada de suas boas intenções (principalmente em relação à construção de moradias acessíveis). Projetos sociais foram praticamente erradicados do mapa dando lugar a iniciativas que apenas objetivavam a mais-valia. O valor da arquitetura, que antes residia em seu valor de uso, passou a ser determinado pelo possível lucro gerado através da venda. Neste mesmo tempo, os arquitetos, infelizmente, se recusaram a reconsiderar o seu papel em relação a essas significativas mudanças.

Em vista disso, talvez a parte mais interessante e esclarecedora do livro de Deamer seja de fato, esta descrição crítica dos eventos que transformaram para sempre a forma e se fazer arquitetura. No contexto específico dos Estados Unidos dos anos 70, Deamer ressalta a importância das ações judiciais levantadas contra o Instituto Americano de Arquitetos (AIA) na tentativa de barrar os códigos de regulamentação da profissão como “índices de valores e tabelas de honorários, proibição da prática de descontos, contra as diretrizes de normatização de publicidade e divulgação assim como a proibição da concorrência desleal entre os membros associados.” Esta série de batalhas judiciais entre arquitetos basicamente desmascarou a então hedionda situação do campo profissional da arquitetura no país.

Mas o livro não é feito apenas de críticas. Deamer também aponta a algumas possíveis soluções, propondo uma colaboração mais ampla entre todas as partes envolvidas, contratos integrados onde os riscos assim como os lucros, podem ser compartilhados entre todos os envolvidos, sejam eles contratados ou não. O livro ainda apresenta algumas lacunas históricas à serem resolvidas em nossa disciplina; algumas mais fáceis e simples de resolver que outras. O foco do trabalho de Deamer, que procura questionar e avaliar as dificuldades legais em nossa atividade profissional pode ser muito útil, principalmente porque, ela procura explicar as dificuldades que a estrutura jurídica dentro de uma sociedade capitalista nos impõe, apresentando um quadro mais abrangente da imensidão do problema que estamos enfrentando e das limitações que nos são impostas. (Também é interessante a comparação feita por Deamer entre as associações de arquitetos e conselhos de classe dos Estados Unidos da França, Suécia e Alemanha.)

Duas narrativas claras emergem ao longo do livro. Por um lado temos os arquitetos que se recusam—por sua própria conta e risco—a reconhecer seu papel como uma classe trabalhadora, à medida que as entidades de classe cedem sob as pressões da industria. No outro oposto, encontramos uma narrativa que busca apresentar soluções, em última análise, bastante simples. O fato é que, no contexto específico do nosso país, a grande maioria dos arquitetos e arquitetas trabalham na informalidade, e eu digo mais, beirando a ilegalidade. Aqueles que, por honra ou ética, procuraram se manter dentro da legalidade, infelizmente, foram devorados pelo monstro voraz do neoliberalismo. Transformar as estruturas políticas das entidades de classe, estabelecer novas tipologias de contrato e vinculo empregatício ou criar novas associações e cooperativas podem até nos ajudar a respirar no fundo do poço da precariedade laboral que nos encontramos hoje, mas evidentemente, estas soluções por si só, não resolverão o nosso problema.

O chamado por uma classe de arquitetos mais unida e com poder de voz através de um sindicato atuante, permeia quase todas as paginas do livro de Deamer, e embora isso possa parecer uma solução bastante simples, o sindicalismo também não resolverá a maioria dos nossos problemas. O poder de um movimento sindical organizado está em sua capacidade de unir a classe de trabalhadores e construir redes de apoio que se estendam a outros campos e setores afins. Entretanto, é mais provável que isso resulte em mais tensões do que soluções. Considerando isso, se quisermos transformar a arquitetura em um campo de atuação profissional mais justo, devemos primeiramente construir um desejo de mudança desde dentro da própria arquitetura. Mas se, mais do que isso, quisermos mudar o mundo para melhor a partir da arquitetura, é imperativo que os arquitetos e arquitetas comecem a se engajar mais com as questões políticas, como a luta por moradia digna para todos, pra defesa do meio ambiente, pelo combate à gentrificação assim como outras tantas questões que tangenciam a nossa disciplina.

Por exemplo, se uma cooperativa de arquitetos ou um profissional autônomo se recusa a pegar um projeto que resultará em um processo de gentrificação, um escritório maior ou um arquiteto sem nenhum escrúpulo, ficará muito feliz em assumir tal empreitada. Acontece que, até mesmo estes escritórios podem ser democratizados, contratando seus arquitetos formalmente e pagando todos os benefícios que todo e qualquer trabalhador tem direito. Estruturas democráticas sempre podem ser utilizadas para fins não democráticos, mas os sindicatos são inerentemente—e historicamente—estruturas políticas. A intenção por trás de uma classe de arquitetos unida, é que todos os seus membros sejam solidários uns com os outros, que as decisões sejam tomas coletivamente, algo que reverberaria por todas as esferas da indústria da construção civil, por que apesar de tudo, ela ainda depende de nós.

O esforço de Peggy Deamer com este livro é digno de nota. Ela observa e analisa com atenção as principais questões do ofício da arquitetura no século XIX—delineando com exemplos práticos, como a profissão da arquitetura foi sendo moldada ao longo do tempo. Mas a sua mais importante contribuição, sem dúvida é a alegação de que todos nós, arquitetos e arquitetas, somos sim trabalhadores, e como tal, temos direito a uma série de benefícios que, historicamente nos foram negados. Esta é a nossa luta, e essa batalha se vence partindo para a ação.

Architecture and Labor
Por Peggy Deamer
Publicado pela Editora Routledge
MSRP $34.36

Este artigo foi publicado originalmente no The Architect's Newspaper como "Review: In Architecture and Labor, Peggy Deamer recognizes architects are workers". Traduzido por Vinicius Libardoni.

Sobre este autor
Cita: Wagner, Kate. "A precariedade na profissão da arquitetura no século XXI" 26 Jan 2021. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/955212/a-precariedade-na-profissao-da-arquitetura-no-seculo-xxi> ISSN 0719-8906

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