Por que continuamos a construir salas de espera?

Por que continuamos a construir salas de espera?

Este artigo foi publicado originalmente em Common Edge.

Salas de espera não estão no topo da lista de espaços favoritos das pessoas, tampouco desfrutam de melhor fama entre os arquitetos e arquitetas. Segundo estatísticas publicadas pela Software Advice, um grupo de consultoria com sede em Austin, Texas, 80% dos entrevistados disseram que ser informado sobre o tempo de espera minimizaria sua frustração; 40% disseram que estariam dispostos a trocar de médico se isso acarretaria em um tempo de espera menor; 20% estariam dispostos a pagar uma taxa extra por um serviço mais rápido; e 97% dos entrevistados—ou seja, virtualmente todos eles—ficam frustrados com longos períodos de espera. Neste contexto, além de figurarem na lista dos espaços menos queridos pelos usuários, as salas de espera se transformaram em um dos principais veículos para a propagação de vírus e disseminação de doenças contagiosas.

Salas de espera são elementos fundamentais na estrutura de pronto-socorros, hospitais e consultórios médicos além de escritórios do governo, universidades e instituições públicas. Embora necessários, talvez tenha chegado a hora de repensarmos a maneira como lidamos com tal espaços. A tecnologia pode ser uma importante aliada no que se refere à eliminação do tempo que as pessoas passam aguardando para serem atendidas em uma sala de espera. Plataformas de gerenciamento de senhas e organização de filas são algumas das ferramentas que podem liberar as pessoas da angustia da espera, permitindo que se desloquem ao local de atendimento somente no momento exato de sua consulta ou atendimento, além de possibilitar uma maior flexibilidade e opções de horários.

E como é que isso afetará a vida dos administradores de instituições de saúde pública? Talvez a melhor pergunta seja: como é que isso afetará os espaços existentes de nossos hospitais, pronto-socorros, clínicas e edifícios públicos? A atual situação sanitária e as consequentes mudanças que ela operou na forma como nos relacionamos com diferentes instituições públicas e privadas não significa inevitavelmente que filas e salas de espera deverão desaparecer para sempre no futuro próximo. Com a disseminação e disponibilidade de novas tecnologias, entramos na era da “espera com curadoria”. A capacidade de uma cidade em fornecer mais espaços abertos e acessíveis ao redor de instituições públicas e edifícios de saúde, será um fator determinante para o sucesso de um retorno mais rápido e seguro à normalidade.

Medical Mall in the Jaber Al Ahmad, a 1200-bed hospital in Kuwait. Image Courtesy of Langdon Wilson International and Gulf Consult
Medical Mall in the Jaber Al Ahmad, a 1200-bed hospital in Kuwait. Image Courtesy of Langdon Wilson International and Gulf Consult

Os custos de construção são consideravelmente altos; por exemplo, para a construção de um hospital na California, considera-se um custo médio de US$ 7500 por metro quadrado. Caso formos redirecionar o custo da construção de salas de espera para o custeio de espaços internos e externos mais adequados às novas regras de segurança e afastamento, poderíamos operar uma mudança muito bem vinda no que se refere ao projeto e construção de espaços deste tipo. Antigas salas de espera passariam a ser espaços virtuais, oferecendo mais espaço a áreas de convívio e instalações de atendimento que consequentemente, diminuiriam o tempo de espera dos pacientes.

Centros médicos que contam com áreas de diagnóstico ambulatorial separadas das áreas de internação oferecem maiores oportunidades para a inserção de espaços de transição e acolhimento. No Hospital Jaber AL Ahmad, no Kuwait, um grande átrio com mais de 30 metros de pé direito é utilizado como um espaço de espera em diferentes níveis além de contar com uma série de usos e programas complementares. Quando o clima local permite, espaços externos podem ser utilizados para descomprimir ainda mais os pacientes que aguardam para ser atendidos. Na caso do já anteriormente mencionado hospital no Kuwait, projetado pela Langdon Wilson International, os usuários são recebidos em uma espécie de espaço de redirecionamento, onde os fluxos de funcionários e visitantes são organizados em seis entradas diferentes. Múltiplos acesos permitem diluir o tráfego de visitante, reduzindo as filas e o tempo de espera. Pontos de luz demarcam claramente os postos de atendimento em cada nível além de contar sempre com aberturas para a paisagem. Além de ter sido concebido para minimizar as áreas e o tempo de espera, o projeto do hospital utiliza uma série de espaços complementares para facilitar a circulação dos pacientes e favorecer a iluminação natural no interior do edifício. Durante a pandemia, muitos destes setores foram utilizados para criar separações e áreas isoladas para tratamento de pacientes de Covid-19. Tais espaços permitiram uma maior flexibilidade e adaptabilidade frente a dinâmica e inesperada situação provocada pela pandemia.

At the Jaber Al Ahmad, six patient-visitor entries (shown in orange) are supported by a light tower stack of smaller waiting rooms creating a dispersed set of micro-waiting lobbies. Image Courtesy of Langdon Wilson International and Gulf Consult
At the Jaber Al Ahmad, six patient-visitor entries (shown in orange) are supported by a light tower stack of smaller waiting rooms creating a dispersed set of micro-waiting lobbies. Image Courtesy of Langdon Wilson International and Gulf Consult

No caso das instituições educacionais, a experiência de sala de aula, transformada e adaptada para o aprendizado remoto, está provocando uma série de questionamentos a respeito de como podemos adaptar nossos espaços de ensino e aprendizado, em sua maioria edifícios fechados e em muitos casos, estruturas em altura. Quando os pais levam seus filhos à escola, geralmente eles devem aguardar em uma longa fila de espera, proporcionando momentos de encontro e interação que neste momento, se transformam em um novo desafio. A organização da chegada de turmas por horários provocará uma transformação não apenas dos espaços de ensino, mas também do entorno imediato destes edifícios.

Considerando isso, é importante dizer que os novos sistemas de gerenciamento de espera precisam estar integrados à lógica como costumamos operar nossos edifícios, sejam eles escolas, hospitais ou edifícios de escritórios. Neste sentido, a pandemia pode ser vista como um período treinamento intensivo para aquilo que virá no futuro, colocando a prova estes novos sistemas e ferramentas de organização de acesso e espera. Relações equilibradas entre ambientes internos e externos além de incentivos econômicos são fundamentais para garantir que estes novos espaços híbridos funcionem de forma adequada.

Estamos vivendo atualmente em um mundo disperso e uma realidade orientada por dispositivos e ferramentas digitais. Mas mudanças drásticas também trazem grandes oportunidades. Repensar os espaços de espera é algo extremamente positivo que a pandemia nos trouxe, algo que, se bem pensado, poderá nos ajudar a restabelecer nossos espaços de forma mais segura, saudável e sustentável.

Sobre este autor
Cita: Alex Bäcker & Ziad Khan. "Por que continuamos a construir salas de espera?" [Why Do We Keep Building Waiting Rooms?] 08 Jan 2021. ArchDaily Brasil. (Trad. Libardoni, Vinicius) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/954253/por-que-continuamos-a-construir-salas-de-espera> ISSN 0719-8906

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