Paisagismo e o futuro desejável para nossas cidades

Paisagismo e o futuro desejável para nossas cidades

Neste dia 4 de outubro, Dia Nacional do Paisagista, é pertinente a seguinte reflexão: Qual a importância do paisagismo? Uma pergunta aparentemente simples, mas com uma resposta que pode surpreender. O paisagismo é a ferramenta com maior potencial de transformação das nossas cidades e, consequentemente, também da forma como a sociedade contemporânea se relaciona com a natureza.

Requalificação da Colina do Senhor do Bonfim / Sotero Arquitetos. Foto: © Leonardo FinottiJardim de Chuva do Centro Cultural Fundição Progresso – Rio de Janeiro. Foto: © Luiz FrancoRequalificação de Praças em Catanduva / Rosa Grena Kliass Arquiteta + Barbieri + Gorski Arquitetos Associados. Foto: © Ana MelloHorta urbana em San Francisco, EUA. Foto: © cjmartin, via Flickr. Licença Creative Commons+ 7

O paisagismo traz soluções para problemas de escassez de água, enchentes e alagamentos nas cidades. A revegetação, especialmente arborização, de áreas antes impermeabilizadas permite a infiltração das águas da chuva no solo, recarregando o lençol freático, que aflora através de nascentes, que gradualmente liberam água para alimentar os rios. Os rios, por sua vez, são os locais onde geralmente as cidades retiram água para seu abastecimento. Quando esse processo natural de recarga é interrompido, um grande volume de água se acumula nas ruas, causando alagamentos. Essas águas são coletadas por bocas de lobo, levadas para galerias de águas pluviais, sendo posteriormente lançadas nos corpos d’água. Esse enorme volume de água é despejado de uma vez para dentro dos rios, que muitas vezes transbordam e causam destruição, devido a ferocidade que as correntezas adquirem. Como resultado, essas águas são levadas, ao invés de serem retidas e carregarem junto uma grande carga de resíduos, metais pesados e uma série de outros contaminantes lavados das ruas para dentro dos rios, de onde não podemos esquecer, retiramos a água que abastece as cidades.

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Infraestruturas verdes como wetlands, lagoas de infiltração, jardins de chuva, biovaletas, canteiros pluviais, telhados verdes, complexos multifuncionais (que integram espaço de lazer e convívio) de detenção temporária das águas, entre outras, possibilitam coleta e/ou aproveitamento, e tratamento de águas. As plantas são filtros naturais de poluentes, removem contaminantes do ar, do solo e da água. Segundo dados da Agência Fapesp de 2014, água coletada em locais de vegetação natural preservada, para estarem aptas ao consumo são tratadas facilmente e basicamente com cloro, enquanto que para o tratamento de água proveniente de locais com vegetação degradada é preciso utilizar coagulantes, corretores de pH, flúor, oxidantes, desinfetantes, algicidas e substâncias para remover o gosto e o odor. Neste caso, todo o serviço de filtragem prestado pelas plantas precisa ser substituído por um sistema artificial e o custo para tratamento se eleva em 100 vezes. Em vários locais do mundo, soluções paisagísticas como parques públicos aliados à sistemas naturais, já estão sendo utilizados inclusive para tratamento de esgoto.

Requalificação das margens do Rio Avelames / Luís Rebelo de Andrade. Foto: © Fernando Guerra | FG+SG
Requalificação das margens do Rio Avelames / Luís Rebelo de Andrade. Foto: © Fernando Guerra | FG+SG

O paisagismo, projetado corretamente, traz estabilidade para taludes, reduzindo a necessidade de obras e prevenindo deslizamentos de terra, eventos que trazem riscos relacionados à defesa civil.

No quesito saúde pública, a contribuição do paisagismo é imensa. Além da redução da poluição já citada, que contribui para o desenvolvimento e agravamento de diversas doenças, as plantas constantemente bombeiam água do solo para a atmosfera, mantendo a umidade do ar e tem importante papel na geração de chuvas e controle de temperaturas/clima. As temperaturas e umidade são fatores que afetam significativamente doenças respiratórias, cardiovasculares, infecciosas e parasitárias, alergias, entre outras.

Horta urbana em San Francisco, EUA. Foto: © cjmartin, via Flickr. Licença Creative Commons
Horta urbana em San Francisco, EUA. Foto: © cjmartin, via Flickr. Licença Creative Commons

Essas doenças citadas, estão entre as doenças mais comuns hoje no Brasil, assim como o câncer, diabetes e depressão. As quais são associadas e/ou agravadas por fatores como maus hábitos alimentares, estresse, ansiedade e sedentarismo. O paisagismo também pode melhorar a qualidade de vida das pessoas nesse sentido. Projetando espaços públicos para a produção de alimentos, contribuindo para a segurança alimentar, promovendo acesso à alimentação, além de reduzir a poluição pelo transporte de alimentos a longas distâncias. Ampliando a oferta e estimulando atividades ao ar livre, para lazer e práticas esportivas, que favorecem o corpo e a mente. Sem contar que, o próprio contato das pessoas com a natureza é, comprovadamente, um grande fator de bem estar e saúde.

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Nos Estados Unidos e na Europa, por exemplo, cresce a tendência de criação dos chamados jardins terapêuticos. Eles são construídos ao ar livre ou em átrios e solários dos hospitais e em locais públicos, para serem frequentados pela população em geral, com efeitos comprovados para a saúde das pessoas, como a redução da pressão arterial, da ansiedade, de distúrbios do sono e aumento da sensação de felicidade. Além disso, pessoas que passam mais tempo ao ar livre tem maiores índices de Vitamina D, uma vitamina importantíssima para a manutenção dos ossos e sistema imunológico. E crianças tem melhor desenvolvimento do sistema cognitivo, motor, visual, da imunidade, entre muitos outros benefícios. Nós somos parte da natureza e respondemos à sua linguagem, que se comunica com nosso emocional e subconsciente.

Jardim de Chuva do Centro Cultural Fundição Progresso – Rio de Janeiro. Foto: © Luiz Franco
Jardim de Chuva do Centro Cultural Fundição Progresso – Rio de Janeiro. Foto: © Luiz Franco

Na questão de segurança pública também é possível prevenir, através do tratamento paisagístico. Muitas pesquisas realizadas em diversos países constataram que as áreas verdes podem ser poderosas aliadas no combate à criminalidade nas cidades, pois a vegetação gera um efeito calmante e mentalmente restaurador nas pessoas, que inibe precursores psicológicos para atos violentos ou que poderiam levar à prática criminosa.

Pesquisadores do Serviço Florestal dos Estados Unidos conduziram estudos e descobriram que os crimes diminuem, consideravelmente, à medida que se arboriza as zonas críticas da cidade. Em Ohio, um resultado similar vem ocorrendo desde 2010, quando as autoridades locais começaram um projeto para converter terrenos e áreas abandonadas, em espaços verdes. Desde então, o índice de criminalidade despencou.

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Bairros urbanos com mais espaços verdes têm níveis mais baixos de criminalidade e violência interpessoal, de acordo com pesquisa da Universidade de Washington. O estudo mostra que os moradores de conjuntos habitacionais com árvores e paisagens naturais nas proximidades relataram 25 por cento menos atos de violência doméstica e agressão, bem como cerca de 50 por cento menos crimes totais do que outros edifícios com espaço verde escasso.

É claro que a qualidade dessas áreas verdes conta muito também, pois em algumas situações áreas densamente vegetadas em espaços públicos podem ser locais propícios para crimes, mas este problema está muito mais relacionado à forma como esses locais são projetados ou muitas vezes da ausência de projeto paisagístico e de iluminação adequados, ou mesmo da falta de manutenção desses espaços. De maneira geral áreas verdes públicas, bem projetadas e bem cuidadas, incentivam a interação social e a supervisão desses espaços pela comunidade, tornando-os mais seguros e atrativos.

Parque Nacional Weishan Lake da AECOM em Shandong, China. Cortesia de AECOM
Parque Nacional Weishan Lake da AECOM em Shandong, China. Cortesia de AECOM

Na pesquisa realizada pelo Prof. Frances Kuo, da Universidade de Illinois, que conduziu uma revisão de vários estudos sobre os efeitos das plantas e do paisagismo nos parques e nas áreas públicas, se constatou que as áreas arborizadas aumentam a expectativa de vida e o índice de felicidade das pessoas, que têm relações mais felizes e melhor desempenho quando vivem em bairros mais arborizados. Acredita-se que viver perto de espaços limpos e bem conservados é essencial para a melhora do estado físico, psicológico e bem-estar social, criando uma atmosfera mais civilizada, incentivando uma reação em cadeia positiva. Esse mesmo estudo aponta que pessoas com menos acesso à natureza mostram a atenção relativamente deficiente, função cognitiva baixa, má gestão das questões relacionada a acontecimentos diários e baixo controle do impulso.

Todos esses benefícios que o paisagismo traz, são ainda potencializados quando se contempla a utilização de espécies de plantas nativas regionais. Pois esta prática, no atual cenário de degradação ambiental, é uma medida essencial no combate à perda de biodiversidade e extinção de espécies, considerando que as cidades hoje ocupam porções significativas do território nacional, onde a cobertura vegetal original foi na maior parte destruída. Através do paisagismo é possível recuperar ecossistemas, fornecendo suporte à vida e condições para a perpetuação das espécies, assim como promover o controle biológico natural de espécies em desequilíbrio.

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Esse olhar sobre a construção da paisagem pode sensibilizar pessoas e transformar a forma como se relacionam com a natureza. Pessoas que crescem e vivem em contato com o ambiente natural, criam vínculos afetivos com seus elementos. Somente quando existe afeto, existe o cuidado e a proteção. Hoje vivenciamos o distanciamento, que gera medo, aversão e fragmentação.

Requalificação de Praças em Catanduva / Rosa Grena Kliass Arquiteta + Barbieri + Gorski Arquitetos Associados. Foto: © Ana Mello
Requalificação de Praças em Catanduva / Rosa Grena Kliass Arquiteta + Barbieri + Gorski Arquitetos Associados. Foto: © Ana Mello

O paisagismo, mesmo em pequena escala, como o residencial e de interiores também importa, pois apresenta proporcionalmente os mesmos benefícios. Uma cidade é feita de um conjunto de unidades, a soma dos impactos positivos de pequenas unidades é um grande conjunto. Transformando casas, transformamos pessoas, transformamos bairros, que transformam cidades, que transformam a indústria, a agropecuária, as políticas públicas, transformando um país. Ter ar puro, água limpa, bem estar, convívio harmônico e qualidade de vida é possível, neste dia do paisagista deixo esta reflexão sobre essa grande responsabilidade.

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Sobre este autor
Cita: Nicole B. L. Sigaud. "Paisagismo e o futuro desejável para nossas cidades" 04 Out 2020. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/948824/paisagismo-e-o-futuro-desejavel-para-nossas-cidades> ISSN 0719-8906

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