SP, cidade fílmica: recorte da São Paulo moderna

SP, cidade fílmica: recorte da São Paulo moderna

São Paulo, Sociedade Anônima é um filme que possuí abordagem complexa e profunda de São Paulo, feito sob um olhar sensível e específico da década de 60 por aqueles que vivenciaram um momento de renovação urbana e socioeconômica da metrópole. Filme que captou essa renovação social distinta e se tornou um marco cinematográfico da época, em que traça uma relação intensa entre personagem e espaço urbano, possuindo diferentes camadas de interpretação que vem a esmiuçar o significado de moderno, urbano, cenográfico e arquitetônico. Utiliza todas essas questões como instrumentos de manifestação de um período, realizadas e vivenciadas por sua população, captando as transformações não só da cidade como também da sociedade.

Intervenção em que a acentuação da cor na medição da concentração de pessoas ocorre por conta dos diferentes stills sobrepostos. Image Cortesia de Débora Mayumi Segawa OkamotoManchas de calor fortes enfatizam a multidão em contraposição as manchas mais fracas que demarcam o vazio das grandes avenidas e o Viaduto do Chá. Image Cortesia de Débora Mayumi Segawa OkamotoMancha de calor preenche o vazio usado como passagem e destaca o automóvel. Ao fundo as linhas que traçam a paisagem natural e a construção das fábricas se mesclam. Image Cortesia de Débora Mayumi Segawa OkamotoMancha vermelha não mais é um medidor de calor, agora um marcador do espaço fílmico urbano revelando a formalidade arquitetônica da Oca. Image Cortesia de Débora Mayumi Segawa Okamoto+ 15

Em preto e branco, o filme de 1965, dirigido por Luis Sérgio Person, traz o drama de Carlos, um ambicioso homem da metrópole que, de empregado, se torna sócio numa fábrica de autopeças. Após se aventurar e ascender socialmente, tem um colapso nervoso e passa a repensar sua trajetória, duvidando de suas escolhas e cogitando abandonar a vida que construiu. Ambientada entre 1957 e 1961, apresenta o contexto da industrialização e de como ela reflete na vida dos paulistanos. Revela-se a cidade de São Paulo em sua essência, com muitas possibilidades e transformações.

Esse ensaio tenta entender a paisagem urbana polivalente atual da cidade de São Paulo a partir das primeiras transformações socioeconômicas e culturais modernas captadas no filme. Acontecimentos anteriores ao período abordado nas filmagens, como a apresentação do Plano de Avenidas Prestes Maia ainda na década de 30, seguindo uma ideia rodoviarista, o início da verticalização na região do triângulo histórico, marcado pela construção do Edifício Martinelli em 1929 e o crescimento demográfico com a chegada maciça dos imigrantes que edificaram a metrópole, também servem para o entendimento do contexto histórico que emerge a narrativa.

A verticalização da área central se expandiu em direção à Praça da República com a construção do Edifício Esther, em 1938, e depois do Edifício Eiffel, em 1956. Já em 1965 foi a vez do Edifício Itália marcar a paisagem, acompanhado do Copan, ainda em construção. Esse momento é marcado pela grande produção arquitetônica e efervescência cultural dos teatros de rua e bares da região, juntamente com a Biblioteca Municipal, configurando o eixo cultural paulista proveniente das possibilidades advindas da industrialização e do progresso que batia à porta dos paulistas. A arquitetura moderna tomava forma e trazia nova identidade, tanto para o movimento quanto para a cidade. 

Para impulsionar o movimento enquanto visa o progresso, foi propício a construção e inauguração do Parque Ibirapuera. Complexo urbano que reafirmava a ideia do crescimento de São Paulo, tal conjunto arquitetônico sediaria as comemorações do IV centenário da cidade e mais tarde a II Bienal de Arte. Geograficamente, o parque extrapolou a área central, a qual se concentraram as primeiras fases de crescimento urbano captadas no filme São Paulo, S.A, por consequência ocasionou uma grande mudança à lógica de deslocamento e concentração da população. Desse modo, tornou-se símbolo arquitetônico da terceira expansão urbana de São Paulo, cruzando longas distâncias com o auxílio das vantagens da modernidade, explorando as diferentes paisagens de São Paulo que compõe a cidade que habitamos atualmente

« Os edifícios desse conjunto arquitetônico evocam suas linhas e superfícies, sugerem nos seus volumes todo o complexo das atividades técnicas modernas, representando simultaneamente a unidade e a multiplicidade do trabalho humano, evocam os resultados objetivos desse trabalho, instalam a consciência de uma época de operosas realizações e consolidam, na matéria inerte, toda uma ordem de ideias puras e exatas[...]. A Comissão organizadora do IV Centenário de São Paulo encontra, portanto, nesse conjunto arquitetônico, a indicação perfeita e adequada, a linguagem ideal para transmitir a quantos quiserem saber, a importância e o grau de desenvolvimento técnico e industrial do grande Estado, através de quatro séculos de existência. » — CARDOSO, 1952, p.20-21 apud Maria Arruda. Metrópole e Cultura, 2015.

A influência do fenômeno da Modernidade é tamanha - tendo seu prelúdio na Semana de Arte Moderna de 22 - no crescimento urbano e na mudança cultural de hábitos do cotidiano, principalmente na lógica de trabalho, que causou perceptíveis transformações econômicas e sociais no passado, a qual ainda nos apoiamos até hoje. Como diz Berman:

« O turbilhão da vida moderna tem sido alimentado por muitas fontes: grandes descobertas nas ciências físicas, com a mudança da nossa imagem do universo e do lugar  que ocupamos nele; a industrialização da produção, que transforma conhecimento científico em tecnologia, cria novos ambientes humanos e destrói os antigos, acelera o próprio ritmo de vida, gera novas formas de poder corporativo e de luta de classes; descomunal explosão demográfica, que penaliza milhões de pessoas arrancadas de seu habitat ancestral, empurrando-as pelos caminhos do mundo em direção a novas vidas; rápido e muitas vezes catastrófico crescimento urbano; sistemas de comunicação de massa, que embrulham e amarram, os mais variados indivíduos e sociedades; [...] No século XX, os processos sociais que dão vida a esse turbilhão, mantendo-o num perpétuo estado de vir-a-ser, vêm a chamar-se “modernização”. » — Marshall Berman. Tudo que é Sólido Desmancha no Ar, 1982.

Como o fenômeno da Modernidade influenciou e foi influenciado na construção da cidade de São Paulo como protagonista do filme?

Para organizar um raciocínio que evidenciasse as diferentes personas da cidade, foi utilizada a metodologia de intervenção gráfica nos frames, partindo de uma seleção baseada em dois temas gerais, Modernidade e São Paulo, que mais tarde originaram os três braços articuladores desse ensaio: A CRISE, A MULTIDÃO e O ESPAÇO FÍLMICO URBANO.

A CRISE do personagem principal possuí relação direta ao cenário interno e urbano escolhidos. Ressaltando a Paisagem Urbana e seu papel influenciador em primeiro plano à Narrativa, o que faz ser indispensável a utilização do termo Geografia Narrativa. Adota-se essa expressão por conta da ideia de sobreposição de camadas urbanas que conformam uma cidade ao longo de grandes períodos e a capacidade de indução do meio externo no estilo de vida daqueles que estão vivendo ali. Mais tarde a Paisagem Urbana também vinculada é relacionada a Multidão.

A investigação gráfica buscou traçar uma analogia ao estudo de composição histórica da cidade, em que houvesse a sobreposição sequenciada de frames que estruturam as cenas, assim como houve a sobreposição de várias camadas urbanas para a formatação atual dessa metrópole paulista.

Nessa sequência de frames selecionados do começo do filme, que retratam a CRISE, os personagens são apresentados. A câmera é posicionada num ponto fixo, direcionando o olhar do público para a sala onde é exposta a crise conjugal do casal protagonista Carlos e Luciana. Vemos a cena através de uma janela fechada, em que a cidade é posta em último plano pelo reflexo no vidro. Desse modo, entende-se a paisagem urbana em posição de observadora.

Após a discussão na sala, a câmera se movimenta lentamente sob o mesmo eixo para direita, percorrendo a varanda e encontrando a paisagem urbana do skyline de São Paulo. Em seguida, o equipamento de filmagem é reposicionado no chão da Praça Antônio Prado e direcionado para cima, capturando a fachada do Edifício Banespa e Martinelli, que nos encurralam com sua grandiosidade.

O movimento de câmera em relação ao espaço construído. Image Cortesia de Débora Mayumi Segawa Okamoto
O movimento de câmera em relação ao espaço construído. Image Cortesia de Débora Mayumi Segawa Okamoto

Já a MULTIDÃO é uma experiência advinda da modernidade, que ocorre devido à aglomeração de pessoas. Para enfatizar e medir graficamente essa concentração, foram utilizadas manchas de calor em cima dos aglomerados passantes e/ou dos personagens, o que pode ser observado com maior clareza na sequência da rodoviária.

Sobreposição gráfica das imagens conformam manchas vermelhas que se intensificam. Image Cortesia de Débora Mayumi Segawa Okamoto
Sobreposição gráfica das imagens conformam manchas vermelhas que se intensificam. Image Cortesia de Débora Mayumi Segawa Okamoto
Intervenção em que a acentuação da cor na medição da concentração de pessoas ocorre por conta dos diferentes stills sobrepostos. Image Cortesia de Débora Mayumi Segawa Okamoto
Intervenção em que a acentuação da cor na medição da concentração de pessoas ocorre por conta dos diferentes stills sobrepostos. Image Cortesia de Débora Mayumi Segawa Okamoto

O protagonista está em sua condição mais vulnerável quando se vê rodeado de desconhecidos caminhando rapidamente sob o Viaduto do Chá. Desesperado com seus problemas, o local em que se encontra não o ampara, as pessoas não o enxergam e muito menos o confortam. Nesse momento, o sentimento de solidão aparece. Ao se deparar com a multidão passante, consequentemente, Carlos também experiencia o vazio e, mais uma vez, a complexidade do espaço fílmico urbano é manifestada.

Manchas de calor fortes enfatizam a multidão em contraposição as manchas mais fracas que demarcam o vazio das grandes avenidas e o Viaduto do Chá. Image Cortesia de Débora Mayumi Segawa Okamoto
Manchas de calor fortes enfatizam a multidão em contraposição as manchas mais fracas que demarcam o vazio das grandes avenidas e o Viaduto do Chá. Image Cortesia de Débora Mayumi Segawa Okamoto

Nessa produção, a cidade se apresenta como contraponto à inércia e à submissão de Carlos. Visto que o personagem não se impõe, a cidade toma forma visualmente e se firma para esse sujeito e para seu espectador. Dessa maneira, cada elemento urbano inserido no quadro possui um significado maior do que apenas estético. 

O ESPAÇO FÍLMICO URBANO é personagem e, para nós, é obrigatório o entendimento do significado de quando o urbano é apresentado, para contextualizar não só a narrativa, mas também o histórico. É o caso da sequência de stills que se passa no pavilhão de exposição da Bienal de Arte, sediada na Oca do Parque Ibirapuera, ali o vazio toma forma, o chão se aglutina à cobertura e o progresso da tecnologia estrutural é aclamada. 

Mancha vermelha não mais é um medidor de calor, agora um marcador do espaço fílmico urbano revelando a formalidade arquitetônica da Oca. Image Cortesia de Débora Mayumi Segawa Okamoto
Mancha vermelha não mais é um medidor de calor, agora um marcador do espaço fílmico urbano revelando a formalidade arquitetônica da Oca. Image Cortesia de Débora Mayumi Segawa Okamoto
As linhas de força acompanham as pilastras e obras expostas, evidenciando as expressões plásticas da Modernidade. Image Cortesia de Débora Mayumi Segawa Okamoto
As linhas de força acompanham as pilastras e obras expostas, evidenciando as expressões plásticas da Modernidade. Image Cortesia de Débora Mayumi Segawa Okamoto

Seguindo essa lógica Moderna, a apresentação da expansão urbana, suas camadas sobrepostas e as São Paulos existentes, também como suas zonas industriais, é essencial para o entendimento da contextualização história em que a narrativa se insere. Isso pode ser observado nas viagens de carro pelas rodovias, principalmente quando Arturo mostra o terreno da nova fábrica à Carlos.

Mancha de calor preenche o vazio usado como passagem e destaca o automóvel. Ao fundo as linhas que traçam a paisagem natural e a construção das fábricas se mesclam. Image Cortesia de Débora Mayumi Segawa Okamoto
Mancha de calor preenche o vazio usado como passagem e destaca o automóvel. Ao fundo as linhas que traçam a paisagem natural e a construção das fábricas se mesclam. Image Cortesia de Débora Mayumi Segawa Okamoto
As linhas de força ressaltam o contraste da paisagem natural em oposição as fábricas, os postes de luz e as cercas. Image Cortesia de Débora Mayumi Segawa Okamoto
As linhas de força ressaltam o contraste da paisagem natural em oposição as fábricas, os postes de luz e as cercas. Image Cortesia de Débora Mayumi Segawa Okamoto

Outras diferentes paisagens que conformam a cidade, como a periferia e a várzea, também são exibidas para a contextualização histórica. 

Linhas de força seguem as angulações retas dos desenhos das casas, interrompidas pelas linhas orgânicas da vegetação conflitantes com as construções precárias. Mancha de calor na terra batida ressalta o carroceiro transportando as crianças. Image Cortesia de Débora Mayumi Segawa Okamoto
Linhas de força seguem as angulações retas dos desenhos das casas, interrompidas pelas linhas orgânicas da vegetação conflitantes com as construções precárias. Mancha de calor na terra batida ressalta o carroceiro transportando as crianças. Image Cortesia de Débora Mayumi Segawa Okamoto
Rio é demarcado pela mancha vermelha em oposição ao vazio das vias pavimentadas onde automóveis e bondes passam, ao fundo skyline é delineado. Image Cortesia de Débora Mayumi Segawa Okamoto
Rio é demarcado pela mancha vermelha em oposição ao vazio das vias pavimentadas onde automóveis e bondes passam, ao fundo skyline é delineado. Image Cortesia de Débora Mayumi Segawa Okamoto
Documentação fílmica de São Paulo (1929-2019). Image Cortesia de Débora Mayumi Segawa Okamoto
Documentação fílmica de São Paulo (1929-2019). Image Cortesia de Débora Mayumi Segawa Okamoto

Desse ensaio, resultam não somente peças gráficas, mas também novas maneiras de assistir, questionar e representar o espaço. Além disso, produz discussões atuais, traçando a relação entre passado e futuro, a sobreposição de camadas urbanas e humanas e a complexidade de políticas públicas que influenciam na construção da cidade e do homem que a habita.

Material gráfico impresso. Image Cortesia de Débora Mayumi Segawa Okamoto
Material gráfico impresso. Image Cortesia de Débora Mayumi Segawa Okamoto
SÃO PAULO sociedade Anônima. Image Cortesia de Débora Mayumi Segawa Okamoto
SÃO PAULO sociedade Anônima. Image Cortesia de Débora Mayumi Segawa Okamoto

Referências bibliográficas
ARRUDA, Maria Arminda do Nascimento. Metrópole e Cultura. São Paulo: EDUSP, 2015.
BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. São Paulo: Companhia das Letras, 1982.
COSTA, Sabrina. Relações entre o traçado urbano e os edifícios modernos no centro de São Paulo. Arquitetura e Cidade(1938/1960). São Paulo: Annablume, 2015.
PERSON, Luis. São Paulo, Sociedade Anônima. São Paulo (Filme). Acesso em: 16 de abr. 2020.

Este texto é fruto do trabalho de conclusão de curso “SP, Cidade Fílmica - Recorte da São Paulo Moderna”. “Fílmica”, palavra que remete ou pertence ao filme. Assim “Cidade”, pertencente ao filme Um recorte da São Paulo Moderna, utilizando a modernidade como ferramenta de análise de São Paulo, através de uma produção cinematográfica, resultando em uma intervenção gráfica dos frames que ressalta o espaço fílmico urbano e as transformações da década de 60. Trabalho este realizado pela estudante Débora Mayumi, na Escola da Cidade, e apresentado no dia 20/12/2019, sob orientação da Professora Doutora Sabrina Fontenele.

Débora Mayumi, arquiteta e urbanista paulista. Graduada pela Escola da Cidade e ENSA Paris La Villette. Colaborou em 2017 na cenografia e design visual da peça “Mártir”, de Marius von Mayenburg. Em 2018 fez vivência direcionada a cenografia, projeto e fotografia em Paris e atualmente trabalha no escritório Carpinteria. deemayumi@gmail.com

Galeria de Imagens

Ver tudoMostrar menos
Sobre este autor
Cita: Débora Mayumi Segawa Okamoto. "SP, cidade fílmica: recorte da São Paulo moderna " 01 Set 2020. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/946754/sp-cidade-filmica-recorte-da-sao-paulo-moderna> ISSN 0719-8906

¡Você seguiu sua primeira conta!

Você sabia?

Agora você receberá atualizações das contas que você segue! Siga seus autores, escritórios, usuários favoritos e personalize seu stream.