A descoberta do que é inadiável

As cidades são potencializadoras de encontros e oportunidades, atraindo pessoas em busca de maior escala e diversidade. Agora, sendo restritos os encontros, o que se escancara é a interdependência e a importância dos lugares onde se sustentam trocas e convívios. Explico-me a partir de algo simples, porém nem por isso menos  significativo do momento: a maioria dos espaços públicos do Brasil — praças, parques, calçadas — quando existentes, são desertificados. Ou seja, não têm infra-estrutura para a permanência de pessoas. 

Não é por acaso que a maioria dos espaços públicos do país sejam carentes de mobiliário urbano. Mobiliário urbano é um catalisador de vida urbana. E espaços sem permanência, com as pessoas usando-os só como passagem no dia que não pode parar, dão menos trabalho, menor gasto para a administração pública. Gerenciar uma cidade que é feita para acolher as pessoas dá muito mais trabalho do que uma cidade que as pessoas consomem como um simples trânsito necessário para a realização das urgências econômicas. 

A qualificação dos espaços públicos passa por várias questões, como estarem preparados para a mobilidade ativa segura — sendo acessíveis e tendo calçadas largas, pavimentação adequada, espaços para pedestres e bicicletas; arborizados — funcionando também como infraestrutura drenante da cidade; e terem espaços e estruturas de apoio para descanso, esportes e atividades culturais e de lazer. Nesse último item que cito está incluído o mobiliário urbano. Bancos, mesas, quiosques, bebedouros, paraciclos, entre outros. 

Instruções para banco e casa de passarinho. Cortesia de A Cidade Precisa de Você

A importância de qualificar o que é público — dar o suporte mínimo para que o público seja, enfim, comum — pode ser sentida no dia-a-dia, mas isso não fica sempre claro. 

Quando, como urbanistas e ativistas, dizíamos ser urgente que a cidade tivesse espaços públicos, democráticos, capazes de acolher a todas e todos para que pudessem sentar para descansar, usufruir de sombras e caminhar com tranquilidade, parecia não haver discordância. Porém, também não se imprimia um senso de prioridade, nada que levasse de fato à ação. “Há coisas mais importantes com o que se preocupar”, pareciam dizer os responsáveis pelos setores públicos e privados, quando desviavam o olhar — e o investimento — para algo que consideravam mais relevante como, por exemplo, mais uma obra de proporções gigantescas que a cidade não precisa, mas que energiza as construtoras e vínculos políticos. 

Instruções para montagem de canteiro. Cortesia de A Cidade Precisa de Você

Pois bem, com a proibição de aglomerações para o melhor controle da pandemia, em todo o mundo parques e praças estão sendo fechados, e mesmo ruas estão tendo seu acesso controlado. Agora, no Brasil, parece incontestável que o pouco mobiliário existente é essencial para possibilitar que as pessoas tenham o mínimo de qualidade de vida fora dos espaços em que pagam para estar. Os portais dão notícias do tipo: “Prefeitura retira bancos de concreto para evitar idosos nas ruas em cidade do ES” (Estado de São Paulo, 23 de março de 2020), “Coronavírus: cidade de MG retira bancos de praça para evitar aglomerações” (O Tempo, 5 de abril de 2020), “Prefeitura de Santa Maria (RS) retira bancos do centro da cidade por causa do Coronavírus” (G1, 20 de março de 2020). Será que, passado o momento de reclusão, serão tomadas medidas para que os espaços possam, finalmente, contar com o bom e generoso mobiliário urbano?

Qual a melhor maneira de lidarmos com esta questão, e com tantas outras mais abrangentes, postas em uma lente de aumento nestes tempos de COVID-19?

Enquanto nos queimam os olhos situações a que antes não dedicávamos atenção para ver, e lidando incomodados com isso, somos embalados em uma dança de dar tanto passos para trás (como no caso do mobiliário, por exemplo, ou o controle sobre nossos dados), como para frente (como a vitória da renda básica, menor ritmo da destruição do Planeta). O que de melhor podemos fazer em relação a isso? Como aplicar nossas energias restantes para o saldo ser positivo?

Há muitos que enxergam este momento como propício à reflexão. Concordo. Mas, agora, na trégua desse ritmo acelerado imposto pelo apelo à maior produtividade possível, que faz o essencial ser deixado de lado e dando lugar a falsas prioridades, minha impressão é que já refletimos demais. Que as pesquisas e lutas importantes já estão aí. Há muito que já foi proposto e nunca obteve espaço para ter sua relevância justamente reconhecida.

Os espaços da cidade fora da lógica de consumo são preciosos. O encontro e a solidariedade são essenciais para um futuro mais justo. A desigualdade com a qual convivemos é ultrajante. O nosso modo de vida e como nos relacionamos com a Natureza é insustentável. Existir pessoas bilionárias e com tanto poder, enquanto outras não têm o que comer é insuportável. Vidas são mais importantes que o lucro.

Instruções para montagem de banco. Cortesia de A Cidade Precisa de Você

Agora é hora de ação, de amplificarmos a voz de tantos que, há muito, falam e agem sobre isso. De fortalecermos movimentos e focarmos na implementação. Este tipo de reflexão tem me feito apreciar cada vez mais textos como o da Profa. Gabriela Lotta, “Sem implementação não há solução” (Estado de São Paulo, 8 de abril de 2020), onde ela afirma que "é preciso começar a agir. Ouvir os atores que atuam na ponta, debater soluções viáveis, pensar recursos e procedimentos necessários para as ideias virarem ações concretas são as únicas formas efetivas de garantir respostas rápidas e, ao mesmo tempo, realistas para transformar a realidade e fazer diferença na vida dos que mais precisam".

Busque saber o que está sendo feito para que as transformações urgentes aconteçam e faça parte. Movimentos por uma cidade mais amigável para se andar a pé, de bicicleta. Pessoas e organizações pela autonomia alimentar, familiar e orgânica. Propostas de espaços públicos melhores para acolher a todas e todos. Grupos que apoiam a manutenção da renda básica na pós-pandemia. Políticos que priorizam a saúde pública gratuita e universal, o fortalecimento do SUS. Estas são apenas algumas das iniciativas que já existem para que o nosso futuro seja menos distópico que o presente. 

Quando as ruas abrirem novamente, portanto, já sabemos o que fazer. Agora, mais do que nunca, está evidente que para vivermos em cidades melhores – preparadas para a convivência, a interação, para a vida – depende de cada um de nós.

Para fazer download destes e de outros manuais de construção de mobiliário urbano, clique aqui.

Escrito por Laura Sobral via Instituto a Cidade Precisa de Você.
Esse ensaio faz parte da campanha #saudadedarua. Confira mais sobre no instagram @acidadeprecisadevoce.

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Sobre este autor
Cita: Laura Sobral. "A descoberta do que é inadiável " 22 Abr 2020. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/938225/a-descoberta-do-que-e-inadiavel> ISSN 0719-8906

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