Cruising Pavilion: Questionando a Bienal de Veneza a partir de espaços ilegítimos para práticas sexuais

Por ocasião da Bienal Internacional de Arquitetura de Veneza de 2018, Pierre-Alexandre Mateos, Charles Teyssou, Rasmus Myrup e Octave Perrault, convocaram um grupo de arquitetos e artistas para refletir sobre o manifesto publicado por Yvonne Farrell e Shelley McNamara, apresentando uma série de trabalhos relacionados à prática sexual do cruising, submergindo-nos na atmosfera dos lugares onde esta prática acontece normalmente, como vielas, balneários e sex clubs.

O conceito Freespace, definido para esta edição da Bienal de Arquitetura de Veneza, é questionado no Cruising Pavillion e seus representantes declaram que o mesmo falhou ao não questionar "a produção heteronormativa do próprio espaço", o que nos leva a pensar: como podemos falar de um espaço livre se não considerarmos todos aqueles espaços invisíveis e ilegítimos de nossas cidades?

Cruising Pavilion: Questionando a Bienal de Veneza a partir de espaços ilegítimos para práticas sexuais - Mais Imagens+ 29

© Louis De Belle

Da equipe de curadores. Cruising pode significar à busca por sexo entre homens homossexuais em espaços públicos, mas não podemos reduzir esta prática apenas à homens nem a homossexuais. Ela geralmente ocorre em locais públicos, como parques, banheiros e estacionamentos, ou em estabelecimentos exclusivamente dedicados, como balneários e sex clubs.

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Desde os jardins dos prazeres de Vauxhall na Londres do século XIX até o clube Mineshaft BDSM em Nova Iorque, o Cruising Pavilion volta-se para a arquitetura paradigmática desta prática. Em algum lugar entre a anti-arquitetura e o vernáculo, a sua lógica espacial e sua estética estão diretamente conectadas à lógica da metrópole. O cruising é o filho ilegítimo da moralidade higienista.

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Relegada ao reino da depravação, esta prática busca inspiração nas características mais estruturantes da disciplina. Banheiros públicos são construídos para promover a higienização dos espaços urbanos enquanto que os parques são espaços para o relaxamento e a tranquilidade. Seja pela presença da ordem, nas figuras dos policiais ou seja pelo flâneur, a cidade moderna é atravessada, desconstruída e transformada em uma armadilha de si mesma. A masmorra torna-se divertida, os labirintos se transformam em lugares protegidos assim como os banheiros públicos oferecem o cenário perfeito para encontros eróticos. Se considerarmos “o discurso arquitetônico como um desinfetante”, o cruising é o poderoso odor humano que assombra os sonhos de Jean Genet.

© Louis De Belle

O modelo mais tradicional de cruising está evoluindo e talvez até desaparecendo. A nova combinação entre Grindr, desenvolvimento urbano e a mercantilização das culturas LGBT+ está provocando um esvaziamento dos locais historicamente estabelecidos e os substituindo por bares e condomínios. Os aplicativos geossociais criaram uma nova geografia psicossexual que se espalha por infinitos espaços digitalmente interconectados, interrompendo assim, o idealismo que estava em jogo na antiga prática do cruising. Hoje, classe, raça e gênero podem ser filtrados digitalmente assim como a arquitetura de seus espaços.

© Louis De Belle

Ao apresentar reflexões de artistas e arquitetos, o Cruising Pavillion procura chamar à atenção ao lapso existente na definição de um espaço livre ou Freespace, como foi definido nesta edição da Bienal de Arquitetura de Veneza, sem questionar a produção hetero-normativa do próprio espaço. A arquitetura é vista aqui como uma prática sexual e o cruising é um dos mais poderosos atos de dissidência. 

© Louis De Belle

Curadores: Pierre-Alexandre Mateos, Charles Teyssou, Rasmus Myrup, Octave Perrault
Artistas & Arquitetos: Alison Veit, Andreas Angelidakis, Andrés Jaque / Office for Political Innovation, Atelier Aziz Alqatami, Carlos Reyes, Diller Scofidio + Renfro, DYKE_ON, Etienne Descloux, Hannah Quinlan & Rosie Hastings, Henrik Olesen, Ian Wooldridge, Lili Reynaud Dewar, Monica Bonvicini, S H U Í (Jon Wang & Sean Roland), Studio Karhard, Studio Odile Decq, Özgür Kar, Pascal Cribier & Louis Benech, Pol Esteve & Marc Navarro, Prem Sahib, Tom Burr, Trevor Yeung
Endereço: Spazio Punch, Giudecca 800/o, Veneza, Itália

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Sobre este autor
Cita: Franco, José Tomás. "Cruising Pavilion: Questionando a Bienal de Veneza a partir de espaços ilegítimos para práticas sexuais" [The Cruising Pavilion: Questioning the 2018 Venice Biennale Manifesto From the Illegitimate Spaces] 10 Jun 2018. ArchDaily Brasil. (Trad. Libardoni, Vinicius) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/895948/cruising-pavilion-questionando-a-bienal-de-veneza-a-partir-de-espacos-ilegitimos-para-praticas-sexuais> ISSN 0719-8906

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