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O ensino da arquitetura ou a crise silenciosa / Ciro Pirondi

O ensino da arquitetura ou a crise silenciosa / Ciro Pirondi
O ensino da arquitetura ou a crise silenciosa / Ciro Pirondi, Estudantes no Estúdio Vertical, aula do 2º ano. Image © Divulgação Escola da Cidade
Estudantes no Estúdio Vertical, aula do 2º ano. Image © Divulgação Escola da Cidade

* O artigo foi publicado originalmente no segundo número da revista PRUMO, do Departamento de Arquitetura e Urbanismo (DAU) da PUC-Rio, cujo tema é o Ensino da Arquitetura

Não me seduz a visão na qual, para apontar possíveis alternativas para um problema, necessariamente ressaltemos defeitos, erros ou crises insolúveis.

Aproximo-me mais daqueles que, com consciência das carências da sociedade brasileira, trabalham produzindo alternativas ora com acerto, ora com menos acerto. Talvez seja uma visão otimista de um desinformado.

A experiência da Escola da Cidade tem origem no processo de redemocratização do Brasil, nos finais da década de 70. O grupo que liderou o processo constitutivo da Escola foi formado neste período. Uma geração ativa junto dos sindicatos, das associações dos arquitetos, do Instituto de Arquitetos do Brasil — IAB — e muito próxima dos mestres das gerações anteriores. E estes até então vivos e atuantes, aos quais devemos muito de nossa educação e formação.

Fachada do edifícios residenciais de Oswaldo Bratke, onde, atualmente, está instalada a Escola da Cidade. Image © Divulgação Escola da Cidade
Fachada do edifícios residenciais de Oswaldo Bratke, onde, atualmente, está instalada a Escola da Cidade. Image © Divulgação Escola da Cidade

Um grupo que soube reconhecer seus antepassados e de alguma forma contribuiu para preservar seus legados e suas memórias após suas ausências. Colaboramos na instituição de fundações: organismos e institutos capazes de arquivar e resgatar os trabalhos dos arquitetos Vilanova Artigas, Lina Bo Bardi, Lucio Costa, Oscar Niemeyer, João Filgueiras Lima e Paulo Mendes da Rocha, entre outros.

Com eles aprendemos a necessidade de estarmos juntos ao ensino e às entidades de classe do nosso ofício, sem nunca abdicar do fazer cotidiano de nossos escritórios, que mantemos até hoje de forma intensa e contínua, harmonizando com a dedicação à Escola.

Assim, iniciamos a aproximação do ensino de Arquitetura em várias faculdades públicas e privadas. E a partir das experiências vividas ao longo de alguns anos sentimos a necessidade de nos aventurarmos no desenho de um caminho próprio para nossos anseios pedagógicos.

A Escola da Cidade é o resultado de um processo iniciado por um grupo de arquitetos na década de 80, com um ideal tecido no afeto que ainda hoje é o fio invisível de Ariadne a nos manter unidos.

A crise no ensino de arquitetura ou de suas estratégias para aprendizagem do nosso ofício está inserida na crise mundial da educação, esta sim a maior crise da contemporaneidade.

Preocupados com a crise econômica mundial iniciada em 2008, os governos não estão atentos a outra crise que, no longo prazo, provavelmente será muito mais prejudicial para o futuro dos governos democráticos.

As mudanças radicais que a sociedade passou desde a segunda metade do século XX (e nos últimos 25 anos, principalmente) somente são comparáveis com as mudanças vistas nos séculos XV e XVI. Assistimos a um segundo renascimento na história da humanidade.

Essas mudanças não têm sido bem pensadas, visto que, obcecados pelo produto nacional bruto — PNB —, os países e seus sistemas de educação estão descartando, de forma imprudente, competências indispensáveis.

As humanidades e as artes estão sendo eliminadas do ensino fundamental, do médio e do superior em quase todos os países do mundo. E esta tendência não está saindo apenas dos currículos, mas também das mentes e dos corações dos pais e dos filhos.

A competição toma conta do mundo. A eficiência é a palavra de ordem. Somos uma engrenagem constituída para produzir sem reflexão, sem questionamento. Esquecemo-nos do ensinamento indiano: “A nuvem bebe água salgada e chove água doce”.

Escola da Cidade à noite. Image © Divulgação Escola da Cidade
Escola da Cidade à noite. Image © Divulgação Escola da Cidade

Estamos com o botão da reflexão crítica desligado.

Esse estado de cegueira está nos levando a desconfiar do futuro. No entanto, o mundo só melhorou. A média de longevidade se ampliou muito, as tecnologias diminuíram o trabalho braçal, os meios de comunicação encurtaram a distância entre os homens e pensamos com muita seriedade na possibilidade de construirmos cidades e civilizações em outros planetas.

Habitar o Universo.

Contraditoriamente, porém, não diminuímos a distância entre ricos e pobres, marginalizamos as mulheres, discriminamos minorias e o poder está nas mãos de incapazes...

O ensino de arquitetura sofre a aflição de uma solidão nas universidades. Fazem-nos lembrar do sublime Garcia Marques buscando sua Macondo ou de Homero e a eterna travessia de Odisseu – o Ulisses romano – em sua jornada pelos mares revoltos. Vezes em lugares mágicos, vezes em situações terríveis, a nos mostrar ser mais importante, na travessia, não onde vamos chegar ao final, mas a maneira como seguimos por ela.

Se optarmos por seguir como máquinas de ensino, talvez a máquina do mundo, como no belo poema de Drummond, nos destrua.

O papel da Universidade avulta na busca do conhecimento, e as escolas de arquitetura vem sendo ameaçadas exatamente pelo prestígio crescente do cientificismo e pela importância que este vem ganhando entre os que atualmente dirigem o ensino superior.

A Escola de Arquitetura não pode viver sem espontaneidade, caso contrário correremos o risco de assistir ao triunfo da ação sem pensamento legitimada pela burocracia e pelo carreirismo que assolam as universidades públicas e privadas.

Viagem da Escola Itinerante às missões do Rio Grande do Sul. Image © Divulgação Escola da Cidade
Viagem da Escola Itinerante às missões do Rio Grande do Sul. Image © Divulgação Escola da Cidade

A falta de ideal e a recusa à coragem se converteram em rotina nas nossas aulas.

A alma de uma escola é composta pelo binômio professor/aluno. Nosso objeto de investigação não é a arquitetura em si, mas a arquitetura submetida a nossa interrogação.

Os intelectuais — dizia Sartre — se casam com o seu tempo e não devem traí-lo. E diante das incertezas e contradições do tempo contemporâneo estamos esquecendo deste ensinamento nas salas de arquitetura, traindo nosso tempo.

Pierre Lévy, em seu texto “Inteligência Coletiva” afirma que “Hoje, o homo sapiens enfrenta a rápida modificação de seu meio, do qual ele é o agente coletivo, involuntário” [1]. O filósofo sugere a via da inteligência coletiva, e tenho a sensação de ser esse o caminho capaz de produzir novos sistemas e signos, novas formas de organização social e de regulação que nos permitiriam pensar em conjunto.

A Escola da Cidade é uma experiência coletiva. Dirigida por um conselho pedagógico constituído por professores de todas as disciplinas e por estudantes de todos os anos. Múltipla, com uma condição jurídica privada, mas de finalidade pública e sem fins lucrativos, como deveria ser toda a ação educacional por excelência.

Nosso projeto pedagógico visa formar um cidadão consciente, com visão crítica capaz de influir nas mudanças da sociedade. Pretendemos capacitá-lo para o seu ofício nesse cosmo em mutação, orientando para ver na arquitetura de hoje, no século XXI, diferentemente do século XX, cada vez mais a sua condição coletiva, social e multidisciplinar.

Fazê-lo ver a cidade como um lugar onde o mundo e o homem mais do que se movem. Vê-la como o local da convivência entre as diferenças, e que por isso mesmo é o espaço da educação.

Viagem da Escola Itinerante à Minas Gerais (2016). Image © Divulgação Escola da Cidade
Viagem da Escola Itinerante à Minas Gerais (2016). Image © Divulgação Escola da Cidade

Devemos resistir às tentativas de reduzir o ensino a uma ferramenta e nos esforçar para conectar novamente a educação dos arquitetos às humanidades, tornando-os cidadãos de seu país e do mundo.

A arquitetura como um saber de fronteiras e nunca uma especialização, o que seria seu suicídio.

O Estúdio Vertical, disciplina que compõe a grade curricular da Escola da Cidade, constitui-se uma experiência de saber de fronteiras, múltiplo e coletivo. Equipes compostas por alunos do 2º ao 6º ano com um tema único para o exercício, favorecendo a interdisciplinaridade e a relação dos estudantes de diferentes anos com professores de diversas disciplinas.

Em vez de desperdiçarmos energia em muitas frentes disciplinares, é necessário reduzir a quantidade de disciplinas em nossos currículos, discutindo ao infinito a montagem de currículos pedagógicos que foquem na melhor formação dos professores. Este, sim, é o cerne de nossas preocupações.

Não há ótimo currículo que capacite ou legitime um mau professor.

“Geografia, Cidade e Arquitetura”, “Habitação e Cidade” e “Arquitetura, Educação e Sociedade”, que são os três cursos de pós-graduação da Escola, visam a formação dos professores. E este último é oferecido sem custo, tendo como enfoque as pedagogias, as alternativas e as estratégias para o ensino da arquitetura.

Educar os sentidos como propõem os pedagogos. Este é o desafio de nossas escolas.

Esta ousada proposição já havia sido feita por Marx, nos manuscritos de 1844: “O cultivo dos cinco sentidos é o trabalho de toda história passada”.

Paremos um pouco aqui.

Em seu maravilhoso livro, A cidade das palavras: as histórias que contamos para saber quem somos, Alberto Manguel pergunta:

Que ampulheta é essa em que estamos sempre trocando de lugar e cuja forma e natureza estão igualmente em transformação contínua? Por quais meios nos imaginamos no lugar que dizemos ser nosso lar? E quem somos nós: habitantes, moradores ou passantes?[2]

Nesses 15 anos, a Escola da Cidade manteve a Escola Itinerante, tese defendida desde o princípio por entendermos ser o futuro do ensino da arquitetura. Móvel, em diferentes localidades, com professores alocados em seus centros de estudos. Professores itinerantes.

A natureza é objeto dos nossos estudos, e a cidade, a paisagem e os artefatos arquitetônicos são melhores apreendidos in loco, com a análise de arquitetos do lugar. Mas o que isso significa? São viagens de prazer e de turismo? Não. Movimentar-se, viajar, é atravessar universos de problemas, mundos vividos e paisagem dos sentidos.

Uma Escola de Lugar Nenhum, parafraseando a famosa música do Beatles, para um planeta cada vez mais nômade.

Há 65 anos, Mies van der Rohe, diretor do departamento de Arquitetura da Universidade de Chicago, escreveu uma carta para 40 escolas de arquitetura em toda América, perguntando sobre a duração e a qualidade dos estudos. Le Corbusier, na mesma época, assume uma atitude claramente contra o ensinamento acadêmico da arquitetura. A Conferência de Bologna, em 1999, continuou buscando resposta a essas duas atitudes totalmente controversas dos mestres.

Seminário de cultura e realidade contemporânea promovido pela Escola da Cidade, com palestra de Oscar Niemeyer.. Image © Divulgação Escola da Cidade
Seminário de cultura e realidade contemporânea promovido pela Escola da Cidade, com palestra de Oscar Niemeyer.. Image © Divulgação Escola da Cidade

A Escola de Lugar Nenhum como síntese da proposta dos dois mestres do século XX. A arquitetura como esse saber de fronteiras, como um rio e suas margens, alimentou o projeto pedagógico de nossa Escola e mantém o Seminário de Cultura e Realidade Contemporânea semanal, uma conversa com pensadores das mais diversas áreas do conhecimento: ciência, artes, futebol, carnaval, economia e outras. Uma disciplina semanal, com carga horária e avaliação, coordenada por um professor responsável. Um respiro no meio da semana, na tentativa de nos salvar da lógica de pôr todo o significado da vida na carreira. Quando isso acontece, você está fadado à superficialidade e ao vazio (Camille Paglia).

Caminho para o final do texto. Lidei com cada aspecto por meio de fragmentos, por partes soltas. Se escrevesse de forma contínua, sempre esgotando assunto, ele certamente seria mais completo, mais abrangente. No entanto, gosto de pensar que seja possível captar o todo por meio das partes, de alguns detalhes.

Entendo que é muito difícil reproduzir outra Escola da Cidade. O momento e as circunstâncias na qual ela se desenhou já passaram. No entanto, acredito que ela seja um modelo possível, um caminho alternativo para os três tipos de ensino: o público, orientado e mantido pelo Estado, em que um aluno custa em média U$1.500 ao mês; o ensino via associações religiosas hierarquizadas, subordinadas às suas benesses econômicas, tradição esta herdada desde o colonialismo; e o ensino privado, com empresários nacionais e internacionais cada vez mais sedentos por transformar o ensino em mercadoria e as escolas em espaços de shoppings centers, com praças de alimentação e lojas semelhantes às casas de espetáculo repletas de eventos com catracas e pagamentos prévios.

Alguns ainda nos veem como experiência passageira e fadada ao fim, dada a ausência da produção e do “rigor” acadêmico... tudo acaba um dia.

Seminário de cultura e realidade contemporânea promovido pela Escola da Cidade, com palestra de Peter Pál Pelbart. Image © Divulgação Escola da Cidade
Seminário de cultura e realidade contemporânea promovido pela Escola da Cidade, com palestra de Peter Pál Pelbart. Image © Divulgação Escola da Cidade

No entanto, desconhecem que nos mantemos desde o início das atividades com Núcleo ou Conselho Científico, iniciação científica, pesquisas e financiamento próprio. Além da Editora da Cidade e da Gráfica Flavio Motta, localizada no subsolo da Escola, que realizam publicações de trabalhos internos ou de fora, como: livros, apostilas, informativo mensal, cadernos de viagens, entre outros.

Para completar a tríade ensino/pesquisa/extensão, por não sermos uma universidade, constituímos um Conselho Técnico onde nossos alunos trabalham em projetos reais a partir de convênios com fundações, ONGs, Institutos, autarquias, empresas e governos.

E, para encerrar, passo a palavra para o mestre Lúcio Costa – nosso Brunelleschi:

Acho que o curso de Arquitetura necessita de uma transformação radical. Não só o curso em si, mas os programas das respectivas cadeiras e, principalmente, a orientação geral do ensino. A atual é absolutamente falha [3] [3]

“A melhor crítica a uma poesia é outra” (John Cage). E esta é a orientação na Escola da Cidade, onde há 20 anos tentamos dar vida ao desafio proposto por Lúcio Costa.

Assimilamos muitas tentativas e acertos do passado e do presente, em atividades realizadas em outras Instituições de ensino, fora e dentro do Brasil. Talvez tenhamos chegado a trinta ou quarenta por cento do imaginado. Muito há ainda para se fazer e para caminhar. Pretendemos continuar com a abertura, em 2016, da Escola de Humanidades João Filgueiras Lima – Fábrica, Instituição de ensino médio da Escola da Cidade.

Notas:
[1] LÉVY, P. Inteligencia Colectiva: por una antropología del ciberespacio. Biblioteca Virtual em Saúde, BIREME – OPS – OMS. Washington, 2004.
[2] MANGUEL, A. A cidade das palavras. São Paulo: Cia das Letras, 2008.
[3] Entrevista O Globo, Dezembro de 1930.

Referências:
Alberto Manguel. A cidade das palavras. São Paulo: Cia das Letras, 2008
Pierre Lévy. Inteligencia Colectiva: por una antropología del ciberespacio. Biblioteca Virtual em Saúde, BIREME – OPS – OMS. Washington, 2004

Ciro Pirondi é Diretor da Escola da Cidade, São Paulo.

Cita: Ciro Pirondi. "O ensino da arquitetura ou a crise silenciosa / Ciro Pirondi" 30 Mai 2017. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/872419/o-ensino-da-arquitetura-ou-a-crise-silenciosa-ciro-pirondi> ISSN 0719-8906
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