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Arquitetura Moderna em Porto Alegre (Parte I): Antecedentes e a linhagem Corbusiana dos anos 50 / Luís Henrique Haas Luccas

Arquitetura Moderna em Porto Alegre (Parte I): Antecedentes e a linhagem Corbusiana dos anos 50 / Luís Henrique Haas Luccas
Arquitetura Moderna em Porto Alegre (Parte I): Antecedentes e a linhagem Corbusiana dos anos 50 / Luís Henrique Haas Luccas, Palácio da Justiça (1953), Carlos Maximiliano Fayet e Luiz Fernando Corona. Image © Marcelo Donadussi
Palácio da Justiça (1953), Carlos Maximiliano Fayet e Luiz Fernando Corona. Image © Marcelo Donadussi

O exame dos microfilmes e cópias existentes no Arquivo Público Municipal de Porto Alegre oferece um panorama confiável da estratificação formal da cidade através das décadas. As imagens de projetos do começo do século XX mostram um art-nouveau rústico local, chalés decorados com lambrequins e ecletismos de gosto alemão, italiano ou afrancesado. Os anos trinta apresentam uma incidência extensa do que se convencionou como art-déco; arquitetura de apelo fácil sem a intelectualização das vanguardas modernas da mesma época. Ainda nos anos trinta surgem os primeiros exemplares dentro do chamado “estilo californiano”[1], que passou a disputar a supremacia dos anos quarenta com o que poderia se qualificar como déco ou “protomoderno”, tornando-se rarefeito no começo dos cinquenta. E às vésperas dos anos cinquenta detectam-se os primeiros projetos modernos identificados com as vanguardas europeias, com visível débito com a Escola Carioca e sua origem corbusiana.

Além do auxílio do Arquivo, a historiografia que vem sendo constituída de modo recente expõe a restrita contribuição prática e didática da arquitetura moderna uruguaia – menor que a apregoada, infelizmente – à incipiente produção moderna local do período. E o aporte referencial igualmente breve da produção paulista, tanto daquela fase inicial influenciada por profissionais imigrantes da Itália e da Europa central, quanto do chamado brutalismo, que se tornou gradualmente uma espécie de “padrão culto” no país a partir dos anos sessenta.

O retrospecto da produção local de características modernas demonstra a ausência de obras significativas dentro do contexto mais amplo, como o Ministério da Educação, a Pampulha, o Parque Guinle, o MASP e a FAUUSP, entre outras; trabalhos de grande estatura que transformaram seus autores em protagonistas da arquitetura moderna brasileira. Entretanto, há um legado consistente de casos na cidade que ilustra a transposição bem sucedida da arquitetura moderna para a contingência real, para o “uso corrente” em escala global: uma produção que utilizou um repertório delimitado, mas flexível, de soluções e elementos de arquitetura, amparado pela sintaxe precisa. E isto expõe a generalização da arquitetura moderna como fruto apenas da abstração, como “criação genuína”: não resta dúvida que houve uma dose maior de abstração nos projetos que seguiram os ideais, experiências e conceitos diversificados e até díspares reunidos sob o rótulo de “arquitetura moderna”; todavia persistiu o projetar adotando soluções exemplares como modelo figurativo, conjugado com o abstrair: dois ingredientes presentes em diferentes proporções, como o caso examinado sugere. Enfim, não se pode negar que em grande parte da arquitetura identificada como moderna prevaleceu o “reproduzir” formas – para não dizer “imitar” – ao “construí-las”.

Primórdios da modernidade

Os primeiros sinais de modernidade na arquitetura porto-alegrense foram percebidos no início dos anos trinta, em casas como de Manlio Agrifóglio e Osvaldo Coufal, ambas demolidas há alguns anos. Localizadas na Avenida Guaíba, no bairro-balneário de Ipanema, ocupavam os dois lados da esquina com a Avenida Flamengo. O loteamento recém-parcelado tornava-se um laboratório para casas e chalés informais, naquele terreno pouco consistente onde art-déco e moderno faziam fronteira com expressões populares, pela dose de improviso e ingenuidade apresentadas.

Observando os dois projetos nos microfilmes, ambos de 1931, podemos ter uma ideia da configuração original daquelas casas: uma modernidade que consistia na restrição pragmática das formas dos elementos de arquitetura a sua solução construtiva, dentro dos limites que as alvenarias de tijolos e a curta experiência local com o concreto armado poderiam oferecer naquele momento. O uso de janelas “cantoneiras”, ao modo de Warchavchick e seus antecedentes racionalistas europeus, representava uma tentativa incipiente de “desmaterialização” da arquitetura, de eliminação da massa construída através da revelação dos planos. A supressão de telhados, por sua carga de figuratividade tradicional, deu lugar a terraços de cobertura: na casa Coufal lembrava o deck de um navio, com seus guarda-corpos executados em perfis horizontais. Esta solução realçando a horizontalidade da casa, aliada a composições assimétricas e uma disposição aparentemente “funcional” das aberturas, gerava uma aparência que se aproximava das imagens institucionais da modernidade racionalista.

O ineditismo das formas foi perseguido de modo tímido e improvisado através do uso de geratrizes semicirculares nas plantas baixas, como aquelas presentes nos vértices de esquina dessas duas residências. A casa de Otávio de Souza, pouco posterior (1933), foi projetada por João Monteiro Netto também na Avenida Guaíba, apresentando solução plástica entre um racionalismo e um déco despojado de elementos aplicados. A exploração formal da planta semicircular foi mais efetiva que nas outras duas, sendo a forma cilíndrica acentuada pelo balcão e marquise periféricos em balanço. Também do ano de 1933 é o projeto inicial do abrigo dos bondes, na Praça XV de Novembro, de autoria de Christiano de La Paix Gelbert. A configuração alongada, arrematada por um torreão de forma elíptica, recebeu um acréscimo pouco posterior, configurando a forma arrojada definitiva similar a um bumerangue, que lembra proposições expressionistas europeias ou o déco chamado streamline; mas também sugere uma possível inspiração do autor, ainda que remota, nos desenhos célebres da Cité Industrielle de Tony Garnier, de 1917, os quais retratavam semelhante marquise semicircular da estação ferroviária.

Fachada da Casa Otávio de Souza (1931), João Monteiro Netto. Image © Arquivo Municipal de Porto Alegre, microfilme n.54.
Fachada da Casa Otávio de Souza (1931), João Monteiro Netto. Image © Arquivo Municipal de Porto Alegre, microfilme n.54.

A exposição comemorativa do Centenário da Revolução Farroupilha, em 1935, apresentou prédios com aspecto progressista, como o pavilhãoassimétrico e depurado de Santa Catarina, configurando um exemplar art-déco próximo do que poderia ser definido como arquitetura moderna; e o Cassino de formas navais. Vale lembrar que a utilização do navio como referência para a arquitetura não se limitou a Le Corbusier e outros arquitetos das vanguardas, sendo fonte de inspiração frequente do chamado déco. Os dois projetos também tiveram a autoria de Gelbert, assim como o Pronto Socorro Municipal (1940) com sua fachada côncava. Na mesma década começavam a ser construídos numerosos pequenos postos de gasolina pela Construtora Azevedo Moura e Gertum, como consequência do crescimento da frota de automóveis. Tinham a autoria de Fernando Corona e Egon Weindörfer[2], que utilizaram como linguagens o “californiano” e um “déco racionalista” com formas curvas e totens de luz.

Fachadas de posto de gasolina, autoria incerta (c.1932). Image © Microfilme do Arquivo Municipal de  Porto Alegre.
Fachadas de posto de gasolina, autoria incerta (c.1932). Image © Microfilme do Arquivo Municipal de Porto Alegre.

A verticalização da cidade teve início nos anos trinta, com a construção de sucessivos prédios altos, como os edifícios Frederico Mentz (Hotel Jung) e Imperial, ambos do início da década, da autoria de Agnello Nilo de Lucca; o Palácio do Comércio (1937) de Joseph Lutzenberger; o Edifício Sulacap (1938) de Arnaldo Gladosch; e o Edifício Vera Cruz (1938) de João Monteiro Netto, entre outros. Apresentavam uma concepção caracteristicamente tradicional, desde seu modo de implantação e relacionamento com o tecido urbano, até a utilização de elementos de arquitetura tradicionais, como mostra o torreão com cobertura em quatro águas presente no Sulacap; passando pela composição de fachadas com predomínio de cheios, aberturas segmentadas, às vezes emolduradas (também no Sulacap e no Edifício Mesbla) e revestimentos com materiais que reforçavam o caráter tradicional. Do ponto de vista interior, mantinham arranjos com distribuições imbricadas, substituídas gradualmente pelas plantas baixas modernas que perseguiam sistemicidade e modularidade de modo crescente, como consequência da valorização da estrutura e, em parte, da busca de uma plasticidade representativa da era industrial.

Perspectiva do Sulacap. Image © José Loureiro da Silva, Um plano de urbanização, p.66.
Perspectiva do Sulacap. Image © José Loureiro da Silva, Um plano de urbanização, p.66.

Ainda nos anos trinta começava uma tendência de edifícios com fachadas despojadas, volumes puros definidos geometricamente e utilização de formas semicirculares nas esquinas e balcões. Fernando Corona projetou o edifício Guaspari em 1936, cuja solução formal definitiva ocorreu durante a execução: as extremidades foram curvadas e os peitoris ressaltados por toda a fachada, de modo a sugerir a continuidade das aberturas e neutralizar as alvenarias entre elas. Outras obras desta tendência foram o antigo prédio das Lojas Renner [3] e o Edifício Bicca de Medeiros (1937), ambos de Egon Weindörfer, e o Edifício Santa Rosa (1938) do mesmo Corona. A imagem da Fábrica A.J.Renner & Cia. (1932), à Rua Frederico Mentz, cujo projeto e ampliação foram da autoria de Weindörfer, aludia, com o devido improviso, mais à Escola de Chicago que aos prédios curvos envidraçados de Mendelsohn.

Edifício Guaspari (1936), Fernando Corona. Image © Acervo João Alberto/Ritter dos Reis
Edifício Guaspari (1936), Fernando Corona. Image © Acervo João Alberto/Ritter dos Reis

A criação de uma Faculdade de Arquitetura

Fundada em 1896, a Escola de Engenharia local criou seu curso de arquitetura dentro dos moldes politécnicos, em 1898, oferecendo uma alternativa ao mercado formado por profissionais majoritariamente estrangeiros. Primeiro engenheiro-arquiteto graduado no curso, em 1901, Manoel Itaquy tornou-se professor da escola a partir de 1906 e foi autor de projetos que compõem a biografia da cidade, como o Instituto Astronômico e Metereológico (1906), o Instituto Parobé (1907), o Ginásio Júlio de Castilhos (1908, incendiado) e a Escola de Agronomia e Veterinária (1912). Porém, com a criação do curso de engenharia civil, o ensino de arquitetura desapareceu gradualmente.

Os arquitetos estrangeiros eram predominantemente alemães, como Theodor Wiederspahn e Joseph Lutzenberger, e austríacos como Egon Weindörfer. Em 1933, Getúlio assinou a lei que criava os conselhos de arquitetura, limitando o exercício da profissão apenas aos graduados no País. Como consequência, colocava a maioria dos profissionais em atividade na região sob a tutela de engenheiros, repercutindo no esvaziamento da produção de arquitetura local durante uma década e meia. Também sob a responsabilidade técnica de engenheiros, alguns projetistas criavam eventuais obras de qualidade alinhadas como arquitetura, como Guido Trein, técnico em construção formado pelo colégio Parobé; o espanhol Fernando Corona, autodidata com origem na escultura decorativa de fachadas; e o paranaense João Monteiro Neto, projetista licenciado (Xavier/Mizoguchi, 1987, p.51).

Nos anos quarenta ocorreu uma mudança significativa neste quadro. Chega à cidade Demétrio Ribeiro (1916-2003), em 1943, com o diploma obtido em Montevidéu devidamente revalidado no Distrito Federal. Na segunda metade da década seria a vez do alagoano Carlos Alberto de Holanda Mendonça (1920-1956) e do gaúcho Edgar Graeff (1921-1990), formados no Rio de Janeiro. Tasso Corrêa criou o curso de Arquitetura do Instituto de Belas Artes em 1944, que passou a funcionar no ano seguinte com uma turma de 25 alunos. O curso defendia o conceito de arquitetura como arte, como seria natural, demonstrando interesse pela produção moderna brasileira emergente. Demétrio e Graeff seriam incorporados ao corpo docente, trazendo as ideias de outros centros. Apesar da formação uruguaia conservadora, Demétrio teve condições de alinhar-se com uma visão moderna de arquitetura. Graeff, por sua vez, tornaria a Escola Carioca um referencial ainda mais presente na produção dos estudantes locais. Em 1949, os doze primeiros arquitetos são diplomados pelo IBA, onde constam nomes de pioneiros locais como Emil Bered, Remo José Irace e Roberto Félix Veronese.

Simultaneamente, a Escola de Engenharia iniciava o seu curso específico de engenheiros-arquitetos, tendo como figura central do ensino de projeto o arquiteto austríaco Eugene Steinhof, que lecionava nos Estados Unidos à época. Consta que “foi saudado em 1929 por Adolfo Morales de los Rios Filho (1887-1973) como um ‘arquiteto moderno’ vienense, por ocasião de sua conferência no Rio de Janeiro, poucos meses de diferença da palestra de Le Corbusier” (Segawa, 1997, p.132). Steinhof deixou Porto Alegre com a fusão dos dois cursos, em 1952, para a criação da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Naquele curso se formaram outros precursores que colocariam em prática a arquitetura moderna na região, como Plínio Almeida, Lincoln Ganzo e Flávio Soares, entre outros.

A matriz corbusiana dos anos 50

Ao final da década de quarenta, algumas obras antecipavam as bases corbusianas que marcariam a arquitetura da cidade nos anos cinquenta, presentes de modo subjacente em muitos casos. E isto derivava do exemplo da Escola Carioca, que se consolidava naquele momento tornando-se referência para as demais regiões do País: o êxito das proposições daquele conjunto de profissionais resultou na célebre exposição Brazil Builds do MoMA (1943) e seu livro-catálogo; e no grande volume de publicações em revistas importantes como L’Architecture D’Aujourd’hui.

Carlos Alberto de Holanda Mendonça foi pioneiro no exercício da arquitetura de linhagem corbusiana em Porto Alegre. Chegou do Rio de Janeiro à cidade por volta de 1947, como sugere a data no microfilme de seu projeto para a Casa do Pequenino, construído de modo parcial e precário na esquina formada pelas Avenidas Ipiranga e João Pessoa: um ensaio moderno que explicitava a inspiração na Obra do Berço (1937) de Niemeyer (Luccas, 2004, p.126). Dois trabalhos aprovados em 1950 demonstravam seu amadurecimento gradual no manejo da forma moderna: o Edifício Santa Terezinha , na Avenida Salgado Filho, aplicando sobre a fachada uma grelha análoga à utilizada no Ministério de Educação; e a Casa Casado D’Azevedo, onde adotou uma matriz espacial recorrente da Escola Carioca, mais precisamente o arranjo aplicado por Sergio Bernardes em dois estudos publicados pouco antes.[4]

Edifício Santa Terezinha (1950), Carlos Alberto de Holanda Mendonça. Image © Luís Henrique Haas Luccas
Edifício Santa Terezinha (1950), Carlos Alberto de Holanda Mendonça. Image © Luís Henrique Haas Luccas
Casa Casado D’Azevedo (1950), Carlos Alberto de Holanda Mendonça. Image © Luís Henrique Haas Luccas
Casa Casado D’Azevedo (1950), Carlos Alberto de Holanda Mendonça. Image © Luís Henrique Haas Luccas

Holanda Mendonça realizou numerosos projetos em menos de uma década de atividade, alguns de grande porte como o Edifício Formac (1952), o Edifício Santa Cruz (versão inicial, 1955) e o Edifício Consórcio (1956), falecendo precocemente aos trinta e seis anos. Coube ao colaborador Jaime Luna dos Santos dar prosseguimento ao ateliê. Um balanço de sua carreira breve demonstra algumas obras promissoras, como a residência mencionada, enquanto outras se mantiveram esquemáticas: além do pioneirismo, legou a demonstração de que era possível produzir determinada arquitetura moderna em escala comercial na cidade.

Fotomontagem do Edifício Formac (1952), Carlos Alberto de Holanda Mendonça. Image © Acervo João Alberto/Ritter dos Reis
Fotomontagem do Edifício Formac (1952), Carlos Alberto de Holanda Mendonça. Image © Acervo João Alberto/Ritter dos Reis
Fotomontagem do Edifício Consórcio (1956), Carlos Alberto de Holanda Mendonça. Image © Acervo João Alberto/Ritter dos Reis
Fotomontagem do Edifício Consórcio (1956), Carlos Alberto de Holanda Mendonça. Image © Acervo João Alberto/Ritter dos Reis

Trabalho inaugural da carreira de Edgar Graeff, o projeto da residência Edvaldo Paiva data de 1948. Do mesmo modo que as concepções de Holanda de Mendonça mencionadas, constituiu um exercício sobre as ideias vivenciadas no Rio de Janeiro, onde ambos haviam concluído seus estudos recentemente; como o curso manteve um acento acadêmico até os anos cinquenta, supõe-se que desenvolvessem a capacidade de projetar de modo moderno com precursores da Capital, fosse através de estágios ou da simples observação das obras produzidas. A influência de Oscar Niemeyer é explícita nessa casa, perceptível em aspectos como a fachada inclinada (original, modificada alguns anos depois) à maneira de projetos daquele dos anos quarenta, como a casa Prudente de Morais Neto (1943, Rio de Janeiro), as fitas residenciais do Centro Técnico da Aeronáutica (1947, São José dos Campos) e a casa Leonel de Miranda (1952, Rio de Janeiro).

O ano de 1950 foi marcado por diversos projetos de orientação moderna protocolados junto à Secretaria de Obras. Além dos dois casos mencionados, Holanda Mendonça ingressa com pelo menos mais uma casa, a residência Dante Campana, no bairro Petrópolis. Graeff aprova o projeto do pequeno Edifício Humaitá, à Rua Cabral. Fernando Corona concebe a Residência Guilhermino Cézar, com um repertório de elementos extraídos do chamado “nativismo carioca”: vertente da Escola Carioca que buscava uma arquitetura moderna identificada com a geografia brasileira, através da recriação depurada de elementos da nossa tradição. Também data de 1950 o Aeroporto Salgado Filho, projetado por Nelson Souza a partir do precedente do Aeroporto Santos Dumont (1938) dos Irmãos Roberto.

Nos anos seguintes crescia o número de proposições modernas e a década terminou marcada por muitos empreendimentos de grandes proporções e qualidade, como o audacioso Hipódromo do Cristal (1951): exemplar proeminente da produção local com autoria do arquiteto uruguaio Román Fresnedo Siri, contratado pela construtora Azevedo, Moura e Gertum para a disputa da obra; e o Palácio da Justiça, outra edificação maiúscula da época com pedigree corbusiano, construído a partir do projeto de Luiz Fernando Corona e Carlos Fayet, vencedores do concurso de 1953.  

Hipódromo do Cristal (1951), Román Fresnedo Siri. Image © Marcelo Donadussi
Hipódromo do Cristal (1951), Román Fresnedo Siri. Image © Marcelo Donadussi
Hipódromo do Cristal (1951), Román Fresnedo Siri. Image © Marcelo Donadussi
Hipódromo do Cristal (1951), Román Fresnedo Siri. Image © Marcelo Donadussi
Palácio da Justiça (1953), Carlos Maximiliano Fayet e Luiz Fernando Corona. Image © Luís Henrique Haas Luccas
Palácio da Justiça (1953), Carlos Maximiliano Fayet e Luiz Fernando Corona. Image © Luís Henrique Haas Luccas

Uma série de grandes prédios residenciais começava a ser construída nos anos cinquenta; período cuja elevada taxa de crescimento demográfico, na média de 5% ao ano, foi superada apenas pelos 5,9% anuais da primeira década do século XX. Os empreendedores tiveram a preferência pelas esquinas por motivos óbvios, como mostram as implantações contingentes ao lote que rentabilizavam os alinhamentos. Exemplo inaugural dessa postura foi Edifício Jaguaribe (projeto original de 1951), de Luiz Fernando Corona e Fernando Corona. No mesmo ano, os Irmãos Irace protocolavam a primeira versão do Edifício Paglioli, na esquina da Avenida Independência com a Rua Garibaldi. No ano seguinte tramitava o projeto do Edifício Esplanada (1952), no final da mesma avenida: uma grande estrutura em quatro blocos com autoria do uruguaio Fresnedo Siri, decorrente do projeto do Hipódromo. E, em 1953, o arquiteto carioca Edgar Guimarães do Valle (com obras em Cataguazes) conclui a primeira versão do Edifício Santa Tecla, cuja versão executada anexou um lote contíguo e teve os apartamentos ampliados, tornando-se um modelo de bem-morar moderno na cidade. Ainda merece destaque o Edifício Armênia (1955), de Ari Canarim, que configurou um exemplo de adoção literal do repertório da Escola Carioca, rendendo a medalha de bronze ao autor no 1º Salão de Arquitetura do Rio Grande do Sul, em 1960; fato que atesta a posição referencial apontada. Outros bons exemplos da década tiveram autoria de Emil Bered, como o Edifício Linck (com Salomão Kruchin e Roberto Veronese, 1952), e os Edifícios Redenção (1955), Porto Alegre (1958) e Rio Grande do Sul (1958), todos em parceria com Kruchin.

Edifício Esplanada (1952), Román Fresnedo Siri. Image © Marcelo Donadussi
Edifício Esplanada (1952), Román Fresnedo Siri. Image © Marcelo Donadussi
Edifício Armênia (1955), Ari Mazini Canarim. Image © Marcelo Donadussi
Edifício Armênia (1955), Ari Mazini Canarim. Image © Marcelo Donadussi
Edifício Armênia (1955), Ari Mazini Canarim. Image © Marcelo Donadussi
Edifício Armênia (1955), Ari Mazini Canarim. Image © Marcelo Donadussi

O programa hospitalar também apresentou uma contribuição significativa, com destaque para o Hospital Fêmina (1955), com autoria de Irineu Breitman. Já a versão definitiva do Hospital de Clínicas (1958) foi efetuada por Oscar Valdetaro, perdendo parte da qualidade das versões iniciais realizadas por Jorge Machado Moreira a partir de 1942.[5] Outro bom exemplo de hospital construído nos anos cinquenta foi o Sanatório Partenon, cuja autoria não foi apurada. Há que se lamentarem os dois projetos não construídos de protagonistas da Escola Carioca: o Sanatório IAPB (1950), de Jorge Moreira, e o Instituto de Tisiologia do IAPB (1951), dos Irmãos Roberto; duas baixas que se somaram aos projetos não construídos dos edifícios-sede do IPE (Instituto de Previdência do Estado, 1943), com autoria de Niemeyer, e da VFRGS (Viação Férrea do RGS, 1944), de Affonso Reidy e Jorge Moreira, cuja segunda versão coube somente à Reidy.

No âmbito de programas especiais, merecem menção os edifícios-sede do Tribunal de Contas do rio Grande do Sul (1956), de Jayme Lompa, e da Companhia Carris Porto-alegrense (1957), de Moacir Marques e Rodolfo Matte; e o setor administrativo da fábrica Matarazzo [6] (c.1950, destruída), com provável autoria de integrantes daquela elite de profissionais cariocas, pelas características apresentadas.

Vista parcial do Tribunal de Contas (1956) na forma original, Jaime Lompa. Image © Cartão Postal  da Época.
Vista parcial do Tribunal de Contas (1956) na forma original, Jaime Lompa. Image © Cartão Postal da Época.
Perspectiva do projeto do Tribunal de Contas (1956). Image © Arquivo do Tribunal de Contas
Perspectiva do projeto do Tribunal de Contas (1956). Image © Arquivo do Tribunal de Contas

 Ainda merecem destaque alguns exemplares do período utilizando geratrizes não convencionais, como o Pavilhão do Rio Grande do Sul para a Feira do IVo Centenário da Cidade de São Paulo (1954), concebido por Holanda de Mendonça e Jaime Luna dos Santos; o ginásio do Grêmio Náutico União (1954), com a autoria de Ícaro de Castro Mello; o Auditório Araújo Viana (1960), projeto de Carlos Fayet e Moacyr Marques; e o célebre pavilhão efêmero  que ficou conhecido como “Mata-Borrão” (1961), concebido por Marcos Hekman (Luccas, 2011).

Auditório Araújo Vianna (1960), Moacir Marques e Carlos Fayet. Image © Acervo João Alberto/Ritter dos Reis
Auditório Araújo Vianna (1960), Moacir Marques e Carlos Fayet. Image © Acervo João Alberto/Ritter dos Reis
Pavilhão alcunhado Mata-borrão (1961), Marcos David Hekman. Image © Acervo João Alberto/Ritter dos Reis
Pavilhão alcunhado Mata-borrão (1961), Marcos David Hekman. Image © Acervo João Alberto/Ritter dos Reis

Conclusão da primeira parte

Como decorrência das mudanças no contexto político-econômico e cultural brasileiro, em parte, e dos rumos da própria arquitetura moderna no âmbito mais amplo, na segunda metade dos anos cinquenta ocorreram alterações significativas na cena arquitetônica brasileira, ocasionando o deslocamento de seu “centro de gravidade” do Rio de Janeiro para São Paulo. E isso ocorria em função de fatores como a construção de Brasília, que privou a primeira das importantes encomendas governamentais; do crescimento econômico desmesurado de São Paulo e sua repercussão nas demais instâncias, propiciando alternativas renovadoras a partir dali; e do esgotamento natural da matriz corbusiana de traços autóctones, utilizada de forma intensa pela Escola Carioca durante duas décadas. E esse câmbio repercutiria na paisagem construída de Porto Alegre dos anos sessenta e setenta, como a segunda parte do texto procura mostrar.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
LUCCAS, Luís Henrique Haas. Arquitetura moderna brasileira em Porto Alegre: sob o mito do “gênio artístico nacional”. Porto Alegre: PROPAR-UFRGS, 2004 (Tese de doutorado em arquitetura).
________. "A escola carioca e a arquitetura moderna em Porto Alegre". São Paulo: Arquitextos73, 06/2006. http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp370.asp
________. “Quando o efêmero se perpetua: um pavilhão em Porto Alegre no começo dos anos sessenta”. São Paulo: Arquitextos135, 07/2011. http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/12.135/4001
WEIMER, Günter. A arquitetura erudita da imigração alemã. Porto Alegre: EST Edições, 2004.

NOTAS
[1]
Versão brasileira do Mission Style, que surgiu na Califórnia recuperando as raízes hispânicas, na década de 1910. Sua disseminação é atribuída ao cinema de Hollywood e revistas.
[2] Weindörfer era austríaco graduado pela Deutsche Technische Hochschule de Praga, e chegou ao Brasil em 1928, segundo Weimer, 2004, p.82.
[3] O magazine com esquina curva foi ampliado e modificado ao longo dos anos, tendo como forma definitiva as janelas horizontais rasgadas e marcação vertical das escadas através de caixilharia contínua, até ser destruído por um incêndio à entrada dos anos setenta.
[4] Um deles na coletânea de desenhos rudimentar intitulada “Arquitetura contemporânea no Brasil”, organizada por Edgar Graeff (1947); e o “avant-projet pour une residence” publicado na edição especial sobre o Brasil de L’Architecture D’Aujourd’hui n.18-19, junho de 1948, p.73.
[5] De família gaúcha, Moreira nasceu em Paris e graduou-se no Rio, onde se radicou.
[6] Na Avenida Assis Brasil no3350.

Sobre este autor
Luís Henrique Haas Luccas
Autor
Cita: Luís Henrique Haas Luccas. "Arquitetura Moderna em Porto Alegre (Parte I): Antecedentes e a linhagem Corbusiana dos anos 50 / Luís Henrique Haas Luccas" 08 Jul 2016. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/790990/arquitetura-moderna-em-porto-alegre-antecedentes-e-a-linhagem-corbusiana-dos-anos-50-luis-henrique-haas-luccas> ISSN 0719-8906