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Participantes do Pavilhão do Brasil falam sobre a Bienal de Veneza

Participantes do Pavilhão do Brasil falam sobre a Bienal de Veneza
Participantes do Pavilhão do Brasil falam sobre a Bienal de Veneza, JUNTOS / curadoria de Washington Fajardo. Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza 2016. Image © Laurian Ghinitoiu
JUNTOS / curadoria de Washington Fajardo. Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza 2016. Image © Laurian Ghinitoiu

A participação brasileira na Bienal de Veneza deste ano - JUNTOS - consiste na reunião de quinze projetos realizados em diversas regiões do país e que abrangem uma grande gama de abordagens do tema da Biennale: Reporting from the Front. Perguntamos a alguns dos idealizadores dos projetos que fazem parte de Juntos suas opiniões acerca do pavilhão do Brasil e da contribuição de seus projetos ao pavilhão e à própria Bienal, veja suas respostas, a seguir:

"Acredito que as Bienais, assim como talvez um dia foram os CIAMs, representam um espaço importante de discussão, troca, intercâmbio de ideias entre arquitetos no mundo. São nestes momentos que se compartilha e solidifica o entendimento sobre os problemas urbanos com os quais estamos lidando. E que são questionados os paradigmas vigentes. E acordados novos caminhos e soluções. Nos CIAMs, foi solidificado o problema da cidade burguesa. Foi acordado que era preciso rejeitar e romper por completo com a cidade herdada, abrindo inclusive mão de sua história. Foi feito o compromisso de domar a cidade e molda-la pela razão, pelo espaço funcional. O colapso das nossas cidades se deve em grande parte a forma como esta proposta de cidade moderna foi levada adiante. Estamos hoje lidando com suas consequências. Não restam dúvidas sobre quais são os problemas que afligem nossas populações urbanas: mobilidade, habitação, saneamento. Falta de acesso à qualidade de vida. A cidade máquina, fluída, eficiente e funcional falhou para a maioria. 
Quando Alejandro Aravena propõe para a Bienal de 2016 uma escuta intersetorial, transversal, de baixo para cima, ele propõe um novo paradigma para pensarmos a cidade. A seleção do curador brasileiro, Washington Fajardo, dá uma bela mostra sobre como isto está sendo feito no Brasil. Com diálogo entre diferentes (algo tão rico e, neste momento em particular, tão raro). No caso do Ciclo Rotas, muitos pensando juntos sobre mobilidade no centro do Rio, promovendo uma cidade mais limpa, de baixo carbono, mais segura, com espaço distribuído de forma justa. Uma forma mais humana para qualificar "cidade eficiente". Acima de tudo, uma cidade pensada de baixo para cima. Por nós, para nós. Oxalá a proposta de Aravena tenha a mesma força política que os CIAMs tiveram um dia. "

Ciclo Rota - Clarisse Cunha Linke - Direção executiva do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP)

"Levar o Parque Madureira à Bienal de Veneza é sem dúvida, muito gratificante, já que esta é hoje considerada um dos principais eventos de Arquitetura no mundo. Os projetos escolhidos para o Pavilhão do Brasil dão a conhecer como estamos trabalhando - a Arquitetura e o Design,  em função das pessoas, do seu bem estar, da convivência social e da nossa cultura - uma vez que a Arquitetura, não vale nada, absolutamente nada, se não for feita para as pessoas.
Localizado em uma região muito carente de áreas verdes, com um percentual de urbanização na ordem de 97% e menos de 1m2 de área verde habitante, o Parque nasceu centrado em um projeto  de educação Sócio Ambiental, premissa da PCRJ para esta área, promovendo a requalificação urbana e melhorando as conexões da cidade.
A sociedade participou demonstrando, através de assembleias e outras consultas, a existência de demandas específicas, que foram estruturadas nos seguintes segmentos: lazer, cultura, meio-ambiente e esporte. A velocidade da apropriação do parque pela sociedade, não só de entorno, é uma indicação de como este processo participativo foi e é importante para o seu sucesso.
Privilegiamos a inserção de equipamentos urbanos de qualidade e a utilização de materiais de grande durabilidade, que ao mesmo tempo viessem trazer a população um sentimento de cuidado e atenção para com os mesmos, quero dizer - isto foi feito com carinho e atenção para vocês. O reflexo disto é o grau de orgulho e pertencimento que seus usuários demonstram, em especial na maneira em como o usam.
Bem melhor que descrever é viver. Fica o convite para quem nunca foi, venha viver o Parque Madureira! "

Ruy Rezende – Arquiteto autor do projeto

"A PISEAGRAMA realiza desde 2011 debates e publicações sobre questões relativas a espaços públicos e cidades no Brasil. Integrar o pavilhão brasileiro na bienal de Veneza de 2016 permitiu ampliar o alcance desse debate."

PISEAGRAMA

 "Respostas a uma crise ecoam dos projetos e dos questionamentos trazidos pela curadoria de Aravena e dos Pavilhões Nacionais na 15a Bienal de Veneza de Arquitetura.
A mostra "Juntos" de Washington Fajardo traz um debate atual. Os projetos expostos expressam novos modos de fazer, colocando em pauta a função social do arquiteto. Na seleção de Fajardo, assim como na de Aravena, vê-se um ponto de convergência: arquitetura como ferramenta de luta.
Destacam-se os projetos colaborativos, horizontais, interdisciplinares, que trabalham com metodologias participativas, a partir de demandas reais e insurgentes. Processos "de baixo para cima", que independentemente da escala, têm grande reverberação. Processos em prol da superação de problemas através do engajamento e instrumentalização de uma comunidade. Em todos os trabalhos apresentados na mostra "Juntos" encontramos eco desse caminho, cada um a sua maneira e proporção.
A participação do Vila Flores nesta Bienal é importante para o projeto que se encontra em processo, porém representa muito mais para a Associação Cultural que resiste na base da cooperação cotidiana e de sua constante reorganização."

Maria Cau Levy e Vitor Pena, Goma Oficina

 "A XV Bienal de Veneza pretende reagir à uma lacuna histórica entre arquitetura e sociedade civil.
É inspirador participar deste momento de inflexão conduzido, principalmente, por arquitetos latino americanos. Com a direção de Alejandro Aravena, a mostra apremiou Paulo Mendes da Rocha e Solano Benitez.
Após a euforia econômica, quando pouco fez para tratar dos temas emergenciais, o atual momento de crise faz pensar como é possível atuar com poucos recursos na precariedade do terceiro mundo, na condição dos refugiados, desabrigados, entre outros ambientes.
As curadorias latino americanas, quase como regra, dedicaram suas expografias aos projetos de pequena escala o que faz pulverizar a responsabilidade sobre a mudança de paradigma.
As centenas de projetos que buscaram soluções pontuais para resolver problemas locais, ao serem expostos num mesmo ambiente, transformam a bienal numa rede de muita resiliência e poder de transformação.
Sem contrariar as expectativas, Grécia, principal porta de entrada dos refugiados na Europa, e Alemanha, principal país de acolhida, tratam deste tema fundamental e urgente.
Hoje há aproximadamente 60 milhões de pessoas em deslocamento forçado pelo mundo, 1 milhão na Europa, o que torna este campo de atuação amplo e necessário para além das fronteiras europeias.
A expectativa sobre este momento impar na história, é que a arquitetura se torne indispensável e intrínseca às  transformações fundamentais na vida das pessoas."

Terra e Tuma

"É uma grande honra que um projeto que começou com a atitude de duas pessoas brilhantes, o músico, Mauro Quintanilha, e o gari, Paulo César de Almeida, decididos a transformar um lixão de sua comunidade num espaço verde e saudável tenha evoluído tanto ao ponto de ser reconhecido para estar na Bienal de Veneza.
A integração entre comunidade e arquitetura tem sido algo transformador nas nossas vidas. Em 2012, o encontro durante a Rio+20 entre Pedro Henrique de Cristo, Mauro e Paulo começou a transformar decisivamente o Sitiê e em 2013, com a adição de Caroline Shannon de Cristo e a fundação do +D estúdio por Pedro e ela, essa colaboração alcançou um novo nível.
A integração entre toda inteligência contextual da equipe original do Sitiê, Mauro, Paulo e demais, e a técnica e imaginação do +D, Pedro e Carol, fez o Parque e Instituto crescer 772% em 3 anos, ser premiado com o SEED Design Awards em 2015, ser parte de exibições em Harvard, na Bienal de Roterdam deste ano e ser reconhecido como Parque e Instituto referência mundial. Entretanto o reconhecimento de ser um dos projetos selecionados para o pavilhão do Brasil na principal bienal de arquitetura no mundo nos fortalece para alcançar novos patamares e nos alegra por ser uma distinção especial."

Pedro Henrique de Cristo, Parque e Instituto Sitiê 

"O tema tratado pelo Alejandro Aravena, Reporting from the front, se desdobra em várias temáticas que vão desde a informalidade, habitação, a violência, guerra, beleza, métodos construtivos, etc. Um amplo leque que por momento parece se perder da questão social mas que mostra ao mesmo tempo uma arquitetura jovem em uma montagem cenográfica impressionante. Cada arquiteto aqui trabalhou em uma área de aproximadamente cem metros quadrados, na construção de uma instalação sensitiva de seu trabalho, compondo uma habitada por dezenas de pequenas construções, maquetes de grande escala e vídeos de grande projeção. Protótipos como os de Solanas Benítez, de NLÉ arquitetura, Norman Foster são inesquecíveis e lúdicos, direcionando a exposição a qualquer tipo de público. Neste show de arquitetura fica, no entanto uma sensação de projetos que vêm de fora para dentro e que não ilustram experiência difíceis de campo típicas de projetos sociais, e é neste sentido o que pavilhão brasileiro acerta trazendo a exposição pequenas praticas de melhorias urbanas, que muitas delas nem são projetos mas que ilustram a luta de moradores da cidade tentando construir um mundo melhor. Ver neste sentido, o Selo de Qualidade, projeto no qual trabalhei, exposto neste contexto foi uma grande emoção. Por demais a cenografia lúdica do pavilhão com todo o seu conteúdo impresso em cartazes portáteis, era lúdica e generosa. Outros pavilhões marcaram também a visita como o da Espanha pela qualidade dos projetos expostos, ou o da Alemanha que abriu as paredes do seu prédio para marcar o acolhimento do país aos imigrantes. E por fim projetos atípicos e mais autorais como o de Kerez para o pavilhão da Suíça que em busca de uma forma inexistente constrói um abrigo de gesso gigante, disforme e complexo, nos fazendo questionar no que é de fato relevante na arquitetura entre o belo, o habitar, se proteger e contemplar."

Nanda Eskes - INSTITUTO CASA - Convergências de Arte Sociedade e Arquitetura

“Vejo a participação do Circuito da Herança Africana na Bienal de Veneza como um enorme voto de confiança no projeto – em termos de desenho, além de viabilidade política e financeira da proposta. O circuito é um dos dois protagonistas do pavilhão brasileiro – o outro é Parque Madureira – um projeto inaugurado em 2012 em um bairro que é um coração pulsante da cultura afro-brasileira no Rio de Janeiro. Os dois projetos têm paralelos, e espero que a movimentação da Biennale atraia a atenção à necessidade de investimento no projeto do Circuito da Herança Africana.”

Sara Zewde – Designer, Circuito da Herança Africana 

JUNTOS: Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza 2016

Cita: Romullo Baratto. "Participantes do Pavilhão do Brasil falam sobre a Bienal de Veneza" 02 Jul 2016. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/790564/participantes-do-pavilhao-do-brasil-falam-sobre-a-bienal-de-veneza> ISSN 0719-8906