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Ver através: uma conversa sobre fotografia com Germán del Sol

Ver através: uma conversa sobre fotografia com Germán del Sol
Ver através: uma conversa sobre fotografia com Germán del Sol, Ayquina, Calama. Image © Guy Wenborne
Ayquina, Calama. Image © Guy Wenborne

Cada vez que converso com Germán não traço nenhuma rota a seguir. Nunca defino uma pauta para a conversa. Essa é a graça, não tenho perguntas feitas; apenas conversamos. Ou melhor, apenas escuto. Esse dia, como de costume, nos encontramos em seu escritório ao meio-dia. Germán sabe do meu interesse pela literatura e pela arquitetura; me perguntou se eu havia visto no jornal um material sobre Nicanor Parra. Disse a ele que eu era muito mal para as notícias e que não leio jornal nem vejo televisão. Germán fez um sinal de que entendia... “as notícias são o que mais te mata”, porém logo completou dizendo que uma vez por semana, talvez, é possível encontrar algo de bom, como esse texto sobre Parra. Conversamos vários minutos sobre literatura, sobre um esquema que havia feito seu filho sobre um livro de Todorov, e sobre outras coisas. Logo lhe propus que nos centrássemos na fotografia y sua relação com a arquitetura, o tema que, contra nosso costume, agora tínhamos como determinado.

Igor Fracalossi: Germán, como você encara as fotografias que você mesmo faz?

Germán del Sol: As que faço por meu próprio gosto devem ser das coisas mais divertidas que faço, as que mais me divertem... mais que andar a cavalo, mais que um churrasco, sobretudo ir tomar fotos de coisas que são sugestivas. Como é lógico, tenho várias linhas de interesse, porém há duas que me interessam muitíssimo, que são as que me servem –como disse várias vezes– como motivo de inspiração para a arquitetura.

Para mim, a arquitetura é algo que vem de dez mil anos atrás, pelo menos: na América estamos fazendo arquitetura faz oito mil ou dez mil anos, e para quê dizer na Europa. E a condição humana, a questão essencial do ser humano –até onde sei– não mudou nada: o que importava aos chinchorros e importa a nós é mais ou menos o mesmo. Essa preocupação fundamental é todo o que não se sabe e, sobretudo, o que se sabe do “depois da morte”. A vida como uma tensão entre o nascimento e a morte, e que há que levar com muita dignidade. Isso é extremamente importante, porque a dignidade se vê –você pode vê-la– naquilo que os arqueólogos chamam cultura material.

Na cultura chinchorro, você vê o cuidado que se punha nos objetos. Não interessa que fossem poucos e modestos, mas o cuidado com que estão feitos os objetos é o mesmo que hoje em dia se põe nos objetos de que está feita nossa cultura material. Talvez desgraçadamente, dá no mesmo que nossa cultura material termine em celulares e automóveis. Porém os celulares feitos com cuidado, por exemplo os da Apple, e os carros, sei lá, as Ferrari’s e Porsche’s, estão feitos com o mesmo cuidado, se pode dizer, o mesmo impulso dos chinchorros há oito mil anos. Há uma constante: ser humano significa cuidar coisas, mas não pelas coisas, senão porque elas refletem a dignidade que tem a vida. E também cuidar os mortos, porque disso não se sabe nada. Há milhares de maneiras de pensar ou de se ocupar do que está mais além; a resposta, como não sabemos bem nem sabemos qual é a correta, não importa.

Tudo isso me faz pensar que a arquitetura e seus elementos estão distribuídos por todas as partes: o que dá lugar à vida, esses lugares que você olha e diz: “sob esta parreira, ou nessa casa, ou nesse palácio, ou nessa praça quero estar”. Existem por todos os lados, você os encontra na curva de um caminho em qualquer parte. São o que eu chamo de signos de vida. Isso é o que eu tento fotografar e são coisas que depois nós usamos para trabalhar. Utilizamos porque aos arquitetos não corresponde decidir o que fazer. Essa não é a questão da arquitetura, porque alguém te diz “me faz uma casa, me faz uma praça, me faz um palácio, ou me faz uma rua ou me faz um parque”. Então quando te dizem me faz uma praça, você vai a essa foto e olha as praças que você viu, as praças que são as mais fecundas ou as que mais desejaria para você mesmo, e essas praças, como te digo, podem estar em qualquer parte. Para mim aparecem em Chinchorro, cerca do Vale Sagrado, também estão no México, em Teotihuacán, também estão na Grécia, num povoado onde uma velha senhora todos os verãos pinta de branco o espaço entre as pedras, e se pintam as casas inteiras brancas, continuamente. Então o povoado vai sendo cuidado e, embora não haja ninguém, esse reflexo de uma preocupação o mantém vivo. Também passa no norte do Chile, o povoado de Isluga está cuidado, não está como o que nós deixamos na cidade abandonado, como esses terrenos abandonados que são puro lixo e ratos. Não, Isluga está vazia mas está bem, está cuidada e lá não vive ninguém. Para isso servem as fotos.

As fotos eu acompanho com comentários, não de minhas reflexões nesse momento sobre o que vi, mas o que me dizem as pessoas com quem encontro. São coisas que muitas vezes não entendo, incluindo por exemplo Alberto Cruz; eu me reunia com ele e anotava o que me dizia. Não entendia nada, mas anotava. E depois voltava a ler, voltava a ler, até que um dia entendia; mas a princípio não entendia nada. É como esse conto do homem que uma vez, quando pedi que me trouxesse um metro para medir o terreno, me disse “não, veja, o metro é muito impreciso”. Então, ri e anotei, mas não entendi o que queria dizer, primeiro só pensei “que engraçado esse homem”. Embora depois você entende. Por isso é poético, porque tudo isso te aparece, e o que aparece logo vai cambiando.

Se você pusesse uma etiqueta nas fotos, então essa praça nunca te vai fazer pensar algo distinto, já ficou fixa como, não sei, “praça vazia”. Mas então depois você olha e, claro, está vazia de coisas, mas não está vazia de sugestões. Isluga atua muito longe de onde o povoado está construído, porque atua na imaginação das pessoas que antes pastorava ou fazia comércio, mas que agora vive em Calama e trabalha em mineração. Mas são uns mineiros que em suas cabeças não somente têm a mina e sua casa no desastre que pode ser Calama, senão que além disso têm seu lugar em Isluga. É como dizer que você tem uma casa na praia, aonde nunca vai, mas quando já deixe de trabalhar e por fim esteja em paz, vai correr para sua casa na praia. Ou seja, você tem um lugar onde sonhar, por isso fica aberto e, como fica aberto, é poético.

Então, embora toda fotografia seja algo concreto, fixo, imutável, através dos comentários você tenta que suas fotografias mudem.

Não, não ponho comentários. Ao não pôr subtítulos, ao pôr somente “Isluga”, “Isluga, Chile” ou “Ciudadela de Teotihuacán”, sei lá, isso permite vê-las de novo muitas vezes. Algumas das minhas fotos já estão velhas, e não sei o que fazer para renová-las, porque são fotos que tirei há muitos anos quando a câmera não era boa. Então você diz: “que pena, como as ajeito?” e não há como ajeitar. Há fotos que vêm sugerindo coisas durante vinte ou trinta anos, outras não. Outras passam. Aí você vê o que é mais e o que é menos poético: o que é mais poético segue atuando sempre. O que é menos poético se esgota, são coisas que eram bonitas ou interessantes, mas que não davam mais de si do que se podia ver.

Ademais hoje as fotos têm uma coisa, que muitos criticam, mas que para mim parece muito bom. Agora você pode fazer muitas tomas, porque a câmera tem uma grande memória. Antes você tinha que levar rolos, levava seis, dez carretéis, e tinha que cuidá-los: fazia “pam”, e depois esperava um tempo, outra coisa boa e “pam”, agora você faz “pam-pam-pam”. E de repente, entre tomas que você pensa que não tinham nenhum interesse, aparecem coisas boas e inesperadas.

Estamos falando sempre de arquitetura, de obras ou elementos que são esses signos de vida. Ponho “signos de vida” porque são às vezes mais simples que a arquitetura: pode ser um letreiro no caminho, feito com alguma graça –tenho montanhas de fotos de letreiros no caminho– ou poderiam ser essas coisas que põem aos mortos no caminho, as animitas. Agora, não é porque sejam animitas que são mais sugestivas que outras. Para mim, essas são as mostram o cuidado das pessoas por aquelas que amam –e portanto por elas mesmas– e por isso são elementos de arquitetura. Mas não em si mesmos, e aí está o difícil de compreender: não é que eu vá a incluir animitas numa obra minha. Não. O que vou olhando é como se manifesta esse cuidado, que é o que me interessa, e como posso aplica-lo à arquitetura. Então as fotografias se convertem em elementos de trabalho e, embora sejam figurativas, porque têm forma, são abstratas. Nunca essas fotos se traduzem diretamente nas obras; são elementos que funcionam em outro nível. Isso é o que eu faço nas minhas conferências: a relação do que fizemos com algumas fotos que inspiraram isso, onde se vê a relação, que é óbvia, entre o que vimos e o que fizemos. Não há nada que explicar.

De onde tiramos isso? Isso é o que faz que a arquitetura tenha uma relação primeiro com a origem e também tenha uma relação com a cultura e com a natureza dos lugares, porque está tirada de observações de elementos que existem, mediante fotografias. Os arquitetos tem feito muita propaganda ao croqui, ao lápis, mas, sabe?, é muito difícil que eu faça um croquis. O croqui eu faço com a máquina de fotos, e faço muito mais rápido. Não me interessa que esteja bem desenhado, nem me exibir com o desenho nem com minha interpretação: o que me interessa simplesmente é o que estou observando. É como agora. Você está me gravando, então eu posso dizer, como exige Parra: “tudo tem que estar escrito a lápis”. Talvez você escreva a lápis depois, mas a gravação é um meio que te permite trabalhar mais rápido. Com o lápis, você iria escolhendo já desde o começo. Se você grava, pode dar volta e pensar bem: depois escolhe. Com a foto é igual: eu escolho aqui, na volta da viagem. Porque quando você viaja há momentos em que se está cansado, é tarde e já não se vê muito, e assim mesmo você tira fotos de novo.

E essas fotos de repente são uma surpresa –feitas num momento em que você não estava nada entusiasmado–, enquanto outras fotos que você achava as mais fantásticas, que iriam servir para tudo, numa segunda mirada resultam só mais ou menos. Nesse sentido, a fotografia é um elemento de trabalho, para mim, essencial.

Essa é a linha das imagens de objetos inertes, mas que manifestam a vida através disso que te explico. Depois está a fotografia de gente, que não é a fotografia melancólica das crianças –crianças pobres olhando pela janela, de uns vidros meio sujos, fotografias que fazem todos os fotógrafos– mas fotografia de gente em seu meio. São fotos em que se veem as pessoas num lugar que realmente as acolhe, mas que para mim são fotos que foram menos fecundas, me deram menos ideias, foram menos inspiradores, provavelmente porque a conclusão já está tirada. Não basta ser uma foto de um grupo de pessoas sob as árvores de uma praça para dar a sensação de que a praça acolhe.

Porém, por exemplo, há uma foto de Guy Wenborne tirada do ar, num dos seus livros, que é uma maravilha –porque num época, Guy veio com isso de fazer fotos com o pai num avião–. É a foto de uma procissão em Ayquina, um povoado que está metido numa quebrada ao norte de San Pedro de Atacama. Na quebrada há água e aí estão os cultivos, e acima está a pampa do deserto, o descampado do Atacama. Creio que as pessoas vêm com a Virgem do Carmen, saíram da igreja e subiram a quebrada, e vão caminhando pela pampa num lugar onde há –típico nas entradas dos povoados no norte– rastros, caminhos de terra com rastros em todas as direções, uma bagunça de rastros. E no entanto, como seguramente o padre vai na frente com a Virgem e todos o seguem com esse mesmo propósito, se produz com as pessoas como uma seta muito clara, que avança numa direção em meio do que é o nada. O que é que essa foto me mostra e por que eu a mostro? Essa é outra questão essencial da arquitetura: a direção, o propósito de algo, que tem que se manter, tem que se sustentar durante a obra. E não é qualquer coisa. Não é que uns vão para lá e uns vão para cá. Quando os propósitos são os mesmos se arma uma ordem, mas que não é a ordem organizada por estruturas físicas. Não é que eles vão nessa direção porque essa é a direção da rua, nem porque haja umas valas ou porque seja um caminho no meio da selva ou no meio dos potreiros e a única passagem, mas vão nessa direção porque seu interesse está adiante e isso os leva. Essa foto sempre tem me inspirado a pensar, e isso é o que trato de mostrar com ela: que a ordem da arquitetura está tirada da vida e não ao contrário.

* Extrato da entrevista realizada a Germán del Sol em setembro de 2013 por Igor Fracalossi.

Créditos
ARQ+1. Germán del Sol + Guy Wenborne. Arquitectura - Fotografía.
Editor: Patricio Mardones. Editor associado: Eduardo Castillo.
Ediciones ARQ, 2013

Cita: Igor Fracalossi. "Ver através: uma conversa sobre fotografia com Germán del Sol" 03 Set 2015. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/772179/ver-atraves> ISSN 0719-8906