O site de arquitetura mais visitado do mundo
i

Inscreva-se agora e organize a sua biblioteca de projetos e artigos de arquitetura do seu jeito!

Inscreva-se agora para salvar e organizar seus projetos de arquitetura

i

Encontre os melhores produtos para o seu projeto em nosso Catálogo de Produtos

Encontre os produtos mais inspiradores do nosso Catálogo de Produtos

i

Instale o ArchDaily Chrome Extension e inspire-se a cada nova aba que abrir no seu navegador. Instale aqui »

i

En todo el mundo, arquitectos están encontrando maneras geniales para reutilizar edificios antiguos. Haz clic aquí para ver las mejores remodelaciones.

Quer ver os melhores projetos de remodelação? Clique aqui.

i

Mergulhe em edifícios inspiradores com nossa seleção de 360 ​​vídeos. Clique aqui.

Veja nossos vídeos imersivos e inspiradores de 360. Clique aqui.

Tudo
Projetos
Produtos
Eventos
Concursos
Navegue entre os artigos utilizando o teclado
  1. ArchDaily
  2. Notícias
  3. O rural era verde; veio uma cabra e o comeu

O rural era verde; veio uma cabra e o comeu

O rural era verde; veio uma cabra e o comeu
O rural era verde; veio uma cabra e o comeu, “We want houses on pilotis because we have lived far too long with our feet stuck in the mud and the muck”. Image Cortesia de Álvaro Domingues
“We want houses on pilotis because we have lived far too long with our feet stuck in the mud and the muck”. Image Cortesia de Álvaro Domingues

O texto a seguir faz parte da segunda edição do jornal Homeland: News from Portugal, publicação que representa Portugal na 14ª Bienal de Veneza de 2014.

Queremos o mesmo tipo de liberdade que tem o homem da cidade; salva-nos da fuligem da velha lareira, sinal da nossa condição primitiva: as nossas faces grelhadas pelo fogo, as costas geladas pela humidade da casa; queremos radiadores e mataremos quem nos vier com aquela conversa do amor ao campo pitoresco e com tagarelices poéticas acerca “das nossas vetustas lareiras e tardes pacatas em frente ao fogo”, sem saber nada sobre isso! Queremos casas sobre pilotis. Sim! Porque já estivemos demasiado tempo com os pés metidos em esterco e lama, demasiado tempo em chão de terra batida que nos aleijou com reumático. Dá-nos janelas, janelas largas, para termos sol na nossa casa. Leva o esterco da frente da nossa mesa. Dá-nos os meios para sermos limpos e saudáveis como as pessoas da cidade…”

Bem ao estilo do modernismo utópico de Le Corbusier, eis a solução higiénica, racional, moderna de acabar com a velha agricultura; uma solução sobre pilotis, evidentemente, invertendo e radicalizando a própria condição do agricultor enquanto cultivador da terra com as mãos e os pés na terra. Da poesia profunda da “condição primitiva” do camponês, nada resta neste relato: nem do agricultor enquanto bom selvagem (ao jeito de Rousseau); nem do povo mítico dos campos que Jules Michelet, algumas décadas depois de Rousseau, celebrava enquanto entidade quase sobrenatural, fora do embrutecimento e da privação da sua pobre condição material; nem do romantismo alemão de J.G. Herder, louvando a simplicidade, a generosidade, a verdade do volkgeist como qualidade essencial de um povo e referente cultural genuíno, por oposição ao saber letrado, refinado, rebuscado e “artificial” do modelo cultural herdado do iluminismo francês.

Todo o discurso de Corbusier está nos antípodas desta “descoberta do povo” associada à construção ideológica dos nacionalismos e à exacerbação das identidades nacionalistas durante o séc.XIX, ao “primitivismo” (enquanto proximidade à natureza e défice de contacto com a educação e o conhecimento eruditos), ao “comunitarismo” (enquanto criação colectiva, partilhada, e não centrada no indivíduo, como nos círculos da alta cultura) e ao “purismo” (próprio do campesinato, imerso na natureza, menos influenciado por culturas cosmopolitas e próximo das tradições primordiais dos seus grupos sociais de pertença e respectivos territórios). 

O genius loci é a expressão dessa colisão mística onde coincidem, a terra, a língua, a tradição, a identidade, a espontaneidade, a autenticidade, a raíz,… a alma de um povo, em suma, os camponeses. Na língua francesa, o sentido das palavras pays, paysan, paysage, demonstram claramente esta associação entre uma identidade geográfica (pays), uma condição sócio-cultural (paysan) e um território de pertença (paysage). Os camponeses seriam os jardineiros da paisagem, como escreve Alain Roger para nos falar da artialização da paisagem, da sua estetização e da sua manipulação enquanto dispositivo de produção de mitologias sobre os campos e os camponeses.

Em total ruptura com este tipo de construção de factos e ficções sobre a ruralidade, a modernidade constrói a sua utopia de futuro, liberta do passado, e fundada nas suas racionalidades tecno-científicas que encaminhariam os humanos para o espírito novo do progresso sem retorno. Claro que o camponês era uma figura do passado, do embrutecimento, do obscurantismo e do mundo mágico do natural e do sobrenatural. Havia que polir essa rusticidade, era necessário reciclar o camponês para uma condição de empresário-agrónomo, mecanizado e mercantilizado. 

No entanto, os mecanismos de massificação decorrentes da modernização agrícola – universalidade, racionalidade, homologação ...-, provocariam, ao mesmo tempo, diversos e contraditórios julgamentos: uma nova mitologia sobre o cleantech (hoje enunciado em termos de eco-tech, após a entrada triunfal da mistificação ambiental); uma sucessão de desastres resultantes dos efeitos não esperados da hiper-tecnologização intensiva da agricultura; os pesadelos dos transgénicos e da manipulação de uma natureza sintética e…, um grande desencantamento acerca daquilo que Max Weber entendia ser o mundo encantado das sociedades pré-modernas, agora metido na gaiola cibernética da racionalidade moderna com a estreiteza das suas visões do mundo tecnológico, científico, capitalista… - desmagificado, numa palavra. 

O azedume anti-moderno reuniu tudo isto numa imensa nostalgia do regresso aos campos (elíseos). O “jardim da Europa à beira-mar plantado” que era Portugal para a retórica da propagando do Estado Novo, passou nos últimos 40 ou 50 anos por modificações e acelerações brutais. Empurrados pela fome e pelo mau viver, os camponeses emigraram; uns ainda foram voltando mas agora Portugal é um país de velhos e o despovoamento prossegue a largos passos. 

As marcas e as memórias desse Portugal Rural vão-se decompondo com a desruralização e o seu rastro de efeitos colaterais: o despovoamento, o envelhecimento, o abandono da produção agrícola e dos campos, o desaparecimento de certos estilos de vida, saberes e práticas culturais – o interior, no dizer mais frequente sobre estas coisas. Os poucos que vão ficando vivem de uma economia assistida entre pensões, reformas, poupanças, ou remessas de familiares e quem pode sai porque são escassos os empregos, e a miragem do bucolismo e dos paraísos perdidos é mais de quem está de fora e pensa que o rural e natureza são lugares para passar férias e turismo.

Não há forma de arranjar futuro para o passado mitificado do país dos agricultores pobres mas honestos. Perdidos os seus jardineiros, as paisagens rurais do velho Portugal entraram num ciclo de metamorfose profunda onde a maioria só vê degradação e feísmo. Nem as paisagens (hiper)modernizadas pelas agriculturas intensivas fogem a este desencanto: são monótonas, assépticas, plásticas e, desconfia-se que, envenenadas; além do mais criam pouco emprego e muito mal pago. Há quem seja recrutado na Tailândia para trabalhar aqui por menos de 500 euros/mês. 

Dada a intensa estereofonia a que o assunto se presta, não interessa muito questionar o que é a ruralidade, a pós-ruralidade e outras ficções. Pergunte-se, antes, para que serve e a quem se dirige o discurso nostálgico sobre a terra, a agricultura biológica (há alguma que não o seja, tirando a FarmVille electrónica do Facebook?), os novos rurais, o turismo rural e outras ruralidades. 

No início, a produção agrícola era para matar a fome dos homens; depois, o pão e o vinho, o leite e o mel, também passaram a alimentar os deuses. Agora tudo são “mercados” e a agricultura em brasileiro chama-se agro-negócio e produz energia verde. Tanta retórica!

Também o rural era verde: veio uma cabra e comeu-o!

Sobre este autor
Álvaro Domingues
Autor
Cita: Álvaro Domingues. "O rural era verde; veio uma cabra e o comeu" 21 Out 2014. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/755737/o-rural-era-verde-veio-uma-cabra-e-o-comeu> ISSN 0719-8906