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Instituição Arquitetônica: Escrito-Leitura 12 / Juan Borchers

Instituição Arquitetônica: Escrito-Leitura 12 / Juan Borchers
Instituição Arquitetônica: Escrito-Leitura 12 / Juan Borchers, Natureza vs. Ordem Artificial. © Juan Borchers
Natureza vs. Ordem Artificial. © Juan Borchers

1

Este escrito-leitura será breve, será denso e ralo. Esta afirmação: se considero o caso de um projeto “abstrato” ei de podê-lo excisar numa hipótese e numa tese; onde a ´tese’ é um condição NECESSÁRIA para que se verifique a ‘hipótese’. Tal que um projeto abstrato não há de expressar nenhum pensamento. O pretendê-lo conduz a uma ALEGORIA e é pelo que os projetos das escolas de arquitetura não passam de vagas alegorias sem interesse real por pretendê-lo.
Um projeto “abstrato”, como um espelho deve refletir a arquitetura transcendentalmente; é o que chamarei qualidade universitária.

2

Uma obra de arquitetura como a Basílica de São Pedro em Roma, ou outra obra de arquitetura, não será nunca uma qualidade universitária e é um contra-sentido pretendê-lo. Por grande que seja não haverá nunca uma teoria, nem regra. Não é possível remontar de uma obra ao projeto que deu por resultado essa mesma obra; tal que um “levantamento” de uma obra não será nunca o projeto dessa mesma obra do qual é seu “levantamento”. A planta que se obtivesse, será insubstancial. No fato, uma obra realizada segue sendo invisível para a maioria como arquitetura.
Isto o generalizo para todas as obras de arquitetura realizadas, sejam estas antigas ou contemporâneas.

Este fato me permite assinalar o que segue: o exercício profissional em si não fundamenta nenhuma qualidade universitária; e o melhor profissional carece fundamentalmente dela; teoreticamente é insubstancial. De fato, os maiores arquitetos não foram profissionais, porém tampouco foram professores de arquitetura. León Bautista Alberti, um humanista e arquiteto realmente de ofício e técnica e mentalidade, não era um profissional de arquitetura nem um professor de arquitetura, senão um arquiteto. É um enorme erro crer que a substância universitária é o resultado de uma prática profissional culminada, e é ademais a razão da decadência da arquitetura nas escolas. Um profissional adquire maus hábitos, usa as regras, as adequa, como também um comerciante e um político usam a matemática e a história, porém a ninguém lhe ocorrerá levá-lo à cátedra de matemática nem de história; tão hábil como possa havê-lo sido Rotschild nas finanças, Churchill em política, não têm significação universitária; sua entronização na universidade significará a corrupção das ideias. Tampouco um professor de física é essencialmente um físico e aqui reside outro erro das escolas onde se ensina arquitetura. Picasso é um pintor e ademais um artista extraordinário, porém nenhum professor de pintura.
Quero advertir às escolas de arquitetura da Universidade do Chile e as da Universidade Católica sobre a falsidade de suas postulações possíveis. O tempo da existência requer o profissional de arquitetura. O “tempo” da existência não é o tempo da essência, por isso a existência requer o profissional onde os professores são morosos, a existência lhes aparece opaca. Ainda o tempo do ser requer o arquiteto: Fídias ou Michelangelo ensinando na Belas Artes é um contra-sentido. Para o arquiteto, a arquitetura é enteléquia, o que não o é para o professor de arquitetura nem para o profissional de arquitetura. O arquiteto como vocação não está submetido a um tempo abstrato, senão que é tempo ele mesmo; CRIA tempo: introduz um tempo que ainda não existe: dá a hora.
Foi, grosso modo, a base rude da minha argumentação quando fui convidado como observador no ano 1947 pelo Instituto de Arquitetura e Urbanismo de Tucumán, primeiro em seu gênero na América do Sul, Jorge Vivanco diretor.

3

A distinção rigorosa entre COISA e OBJETO não é habitual. O comum das pessoas considera todas as coisas como objetos. Diz ‘o solo serve para sustentar o homem’, ‘o sol para alumbrar o homem’, ‘a árvore para dar sombra ao homem’; porém as coisas levam uma existência independente do homem. Por outro lado os seres vivos não são coisas nem objetos senão sujeitos ativos espontâneos que executam ações independentes: assim o cavalo NÃO está feito para que o homem o use como cavalgadura, nem outro homem serve para outro homem. O entender isso bem dá base para resolver de uma vez por todas a posição ARQUITETO-CLIENTE.
O objeto é o fixo; a configuração o cambiante, o variável. Assim o objeto numa ‘mesa’ não é seu desenho (este o cobre, o oculta): os objetos são a substância da arquitetura, se não o fosse seria impossível traçar uma PLANTA de uma obra de arquitetura má ou boa, verdadeira ou falsa.
Chamo OBJETO a uma coisa que executa uma ação apropriada ao serviço do homem: uma cadeira serve para sentar-se, é um objeto; porém, bem entendido, um homem pode ignorar como sentar-se numa cadeira tanto como outro lançar o bumerangue. Um homem pode trepar uma árvore, escalar uma montanha, porém nem a árvore nem a montanha são objetos.
A cor amarelo e a cor azul se não estão separadas convertem-se na cor verde, isso é um FATO; dois sons que não estão separados no tempo fazem um acorde, isso é outro fato; se em geometria nego a recíproca de uma proposição direta reproduzo a proposição direta em substância: isso é um fato assim mesmo, porém é um FATO LÓGICO: é sempre verdadeiro.
Uma gota de água tem forma de esfera; uma faca de aço tem forma alargada e fio: a faca e a gota são corpos, porém água e aço são a substância da gota e da faca. Os objetos formam a substância da arquitetura; porém, bem entendido, uma mesa pode ser de madeira, de mármore ou outro material; o material ali não constitui o objeto, é em certa forma o acidental, tampouco sua forma tal ou qual: o objeto é o fixo, o subsistente independente de sua configuração, que é cambiante e variável. Que sua configuração seja cambiante e variável é um FATO como a cor azul nos aparece através de vários azuis mas não de nenhum vermelho; tal que a configuração do objeto não é qualquer configuração e sua configuração forma sem mais o FATO CONCLUSO.
O hidrogênio é uma substância, o oxigênio é uma substância, a água composta de hidrogênio e oxigênio é uma substância; porém hidrogênio e oxigênio são substâncias simples, e a água uma composta de hidrogênio e oxigênio. As três têm propriedades distintas uma da outra, porém enquanto a água pode descompor-se em hidrogênio e oxigênio, o hidrogênio e o oxigênio não podem descompor-se e quando isso ocorre digo que são substâncias “elementares” ou brevemente “elementos” químicos. Todos os compostos podem ser representados pelos símbolos dos elementos que os constituem; assim a água por H2O, a água oxigenada por H2O2. Que o hidrogênio e o oxigênio se combinem é um fato; a circunstância de que o hidrogênio e o oxigênio desapareçam para transformar-se em outra nova: água, é um fenômeno químico. Um fato não pode ser modificado por nossa vontade, mas podemos provocar um fenômeno.
Retas, semirretas, planos, etc. são elementos em geometria; os pontos são elementos simples. Ponto, reta, plano são coisa geométrica. Não há objetos geométricos como não há os químicos, e há fenômenos químicos e não há fenômenos geométricos; que duas retas situadas num mesmo plano se cortem não constitui um fenômeno.

Fato, coisa, objeto, elemento, símbolo, signo são expressões que usarei. Com elas definirei outras: desenho, planta, projeto. Arquitetura e arquitetônico as disporei como homólogas à história e histórico, geografia e geográfico, música e musical, pintura e pictórico, técnica e técnico.

«As formas, na natureza, estão regidas pelas leis naturais: árvore, concha marinha, animal, mineral, são formas determinadas pela natureza, expressões múltiplas de uma harmonia natural.
Os engenheiros utilizando no cálculo leis abstraídas das leis da natureza produzem em suas obras um reflexo da harmonia natural; suas obras pertencem a essa ordem natural.
A obra de arquitetura significa desde seu nascimento uma ruptura com a ordem natural, suas formas são expressão de outras que as leis da natureza e ao extremo em flagrante discordância com elas. Chamo a essa nova ordem: ORDEM ARTIFICIAL.
Insere-se entre o mundo circundante e o homem e significa uma emanação de leis que o homem apreende em si; as chamo LEIS MENTAIS. Tendem a liberar o homem –em seu total– da sujeição ao determinismo natural proporcionalmente.
As leis naturais, estáticas e invariáveis, por si mesmas, não serão nunca fundamento da arquitetura, tão pouco como as da ótica ou as da acústica, não o são nem da pintura nem da música.
Designando por M o meio circundante natural e por O o organismo humano; a ordem artificial tomará a figura de dois termos médios X e Y e algebricamente a relação:

O : X = Y : M

Τά δέ στερεϓ μία μέν ούδέ πότε, δύο
δέ άεί μεσότητες συναρ μόττουσιν [Ρ]

A confusão entre escala de proporções e escala humana, tal como aparece no “modulor” de L.C., significa a perda da escala humana e seu sintoma o erro no cubo do Palácio do Governador durante o projeto em Chandigarh: se trata de duas coisas diferentes que atuam conjuntas no dimensionamento e não cabe confundi-las em uma única e só escala de proporções como aparece no modulor: frente às três dimensões há de concorrer, porém separada, a escala humana como um fator complexo (a + bi).
Poder pensar, bem, isto, é fundamental para entender o que significa a arquitetura entendida como uma ordem diferente da natural, o plano numérico operacional há de estender-se mais além dos números reais.»

«SÓLIDA, erguida como um animal,
canelada por fortes ranhuras, nenhum cubo
senão um pilar que, como uma muda, esbelta-se
à medida que ganha em altura, uma única coluna
deixada sobre as ruínas do Tempo,
que quando um templo, viu
seguidores sem alma, implorando.
Ela mira além dos mares azuis,
observando suas marés, e as marés dos homens,
mantendo a dignidade e a atmosfera do passado,
embora gralhas solitárias morem lá.
Contudo os adoradores de outrora, sobrevivem.»
Ruins at Paestum
J.J.

4

A ARQUITETURA está determinada pelos fatos arquitetônicos, como analogamente a história pelos fatos históricos; tal um plano por três pontos distintos não situados em linha reta, e do fato que possa existir um ponto fora do plano fica determinado o espaço. Se cabe conceber a arquitetura como algo coerente com unidade interna, há de estabelecer-se uma ordem tal como ficam definidas outras ordens, p. ex. a ordem geométrica que serve de fundamento às obras de matemática mas que não são as obras mesmas; da mesma maneira que há obras de pintura mas há fato pictórico. Inquirindo esta ordem fundamental vim estabelecer que a arquitetura pertence ao que chamei e defini como ORDEM ARTIFICIAL. Uma ordem nova que tem características específicas que a diferenciam de toda outra ordem seja esta artística ou científica. Pois penso que assim, as obras que em todo tempo apareceram referidas a uma ordem onde possam justificar sua existência não aparecerão como sem sentido ou semicoerentes, ou atos estranhos, sujeitos a tendências em grande parte absurdos referidos a hábitos injustificáveis; pois se não, para que todo o sistema plástico da assim chamada arquitetura grega, egípcia, hindu ou amerindiana que excedem as necessidades imediatas e aparecem como exagerações sobre o imediatamente útil e prático?

Pouco a pouco, da astrologia imperante se ordenou uma astronomia; da astronomia se ordenou uma geografia, que, pragada de matérias impróprias, foi se desprendendo delas até se organizar em si mesma; enquanto outras matérias, que antes estavam nela englobadas, se autonomizavam. Este duplo processo parece normal em todas as disciplinas: um de desprendimento e outro de decantação. Falando em termos breves: desde 1914 se inicia o processo de decantação entre arquitetura e engenharia que não foi ultimado e pendula para as disciplinas artísticas só em casos individuais, num estado ainda confuso de uma semi engenharia e uma semi arte plástica sem poder realizar uma metamorfose inteira: eu creio que por haver ficado estabelecida ainda como obra de ordem “natural”. Minha proposição é de concebê-la dentro de uma ordem totalmente nova que defini como ordem artificial, e examinar à luz dessa ordem os meios de expressão que usamos.

5

A PLANTA é um FATO (não um objeto estético). Na planta os objetos correspondem aos elementos da planta. A combinação dos elementos da planta representa uma conexão das coisas; esta conexão é a estrutura da planta e a maneira como as coisas se combinam como elementos da planta é a configuração da planta. A planta é uma abstração; implica de antemão uma relação de configuração entre a linguagem e a arquitetura que não cabe ser dada posteriormente; o que têm em comum é a estrutura lógica. A relação de configuração consiste na coordenação dos elementos da planta e das coisas. Os FUNDAMENTOS de um sistema arquitetônico devem ficar dados por certos ELEMENTOS combinados entre si por RELAÇÕES FUNDAMENTAIS E POSTULADOS (princípios fundamentais) que determinam as conexões dos elementos e as relações fundamentais. A exigência essencial é a ausência de contradição no sistema. Que todo projeto possa ser deduzido do sistema estabelecido de uma maneira lógica e consequente pertencerá ao sistema arquitetônico em questão e o conjunto de todos eles constituirá um sistema logicamente fechado correspondente a uma ordem determinada. À coerência lógica da planta deve corresponder uma coerência estética na concepção; e ambas corresponder à ordem arquitetônica, que supõe uma ordem artificial. A planta assim entendida é um modelo da realidade. Para saber se é falsa ou verdadeira uma planta há que referi-la à realidade.
A realidade em arquitetura é a existência e a não existência conjunta dos fatos arquitetônicos conclusos.
O uso equívoco da linguagem que substitui com frequência a palavra “realidade” pela palavra “existência” faz que se qualifique de irreal e a negar toda existência a formas de existência não submetidas à lei de causa e efeito; pois o nexo de causa e efeito se refere unicamente a acontecimentos ligados como antecedente e consequente.
Nada diz que a planta da Torre de Pisa por si mesma corresponde a uma obra de arquitetura ou, o que é o mesmo, só pela planta não é possível saber se uma obra é ou não é uma obra de arquitetura, porém entre ela e a arquitetura deve haver algo comum que permita que possa ser uma planta de arquitetura e não de outra coisa; deve conter projetada a lei de desenvolvimento tal como num organismo vegetal está o que faz a diferença entre um álamo e um olmo. De maneira análoga que em química a fórmula do butano se expressa por C4H10: porém à mesma fórmula correspondem dois corpos de idêntica composição química porém de propriedades físicas e químicas distintas, e estas diferenças significam diferente maneira de vínculo dos átomos ou fórmula de estrutura; assim, segundo uma se liquidifica a –0,3° e segundo a outra a –13,4°C.
A totalidade de todas as relações configuradoras deve estar depositada na planta que pressupõe um contínuo e ordenado câmbio, é o que chamo “coordenação” e esta lei de conservação da unidade deve estar contida já na planta em forma de condensação abstrata.
O estilo de uma obra (que não são os estilos) é uma forma, e uma forma não se pode cortar com uma faca, como não se pode cortar uma melodia; tampouco se pode obter como um agregado de elementos justapostos; esta lei unitária já deve estar abstraída na planta.
Uma planta esteticamente não há de ter nenhum significado. Uma planta esteticamente “feia” pode corresponder muitas das vezes a uma obra de arquitetura e esteticamente “bela” muitas das vezes a uma obra de engenharia; é precisamente o contrário do que se crê.
Uma planta correspondendo à arquitetura entendida como uma ordem artificial se despojará de todo caráter estético do qual não está ainda despojada por sua posição ambígua de obra natural e sua aderência ao desenho caligráfico. Outro traço que conserva o caráter estético da planta é a noção de espaço que é o suporte da perspectiva como técnica visual, porém não da arquitetura. O espaço como substância da arquitetura, espécie de morfoplástica, perderá gradualmente seu significado assim mesmo e no mesmo sentido.

Desde que iniciei os estudos de arquitetura me apliquei a conceber a PLANTA; incluindo-a no total do que bem ou mal se chamou urbanismo, porém considerando-a como propriamente arquitetura. Constituiu propriamente meu trabalho de exame e reflexão permanente: vim a entendê-la como GRUPO de SUBSTITUIÇÕES, por deixá-la num certo estado. A planta é o lugar das reflexões mais densas e ininterrompidas e, para dizê-lo em imagem, é a pedra filosofal da arquitetura; uma verdadeira ALQUIMIA.

A “planta” em uso pelos arquitetos é um trabalho de bosquejo linear com pretensões estetizantes sem interesse e banal.

Quando cursava estudos de arquitetura, à geometria elementar foram agregadas a geometria descritiva e a geometria analítica (houve mais, mas cito breve). Os estudantes de arquitetura raramente chegaram a possui-las como disciplinas e menos a desenvolvê-las, menos ainda dá-lhes significação nas tarefas de atelier e a estabelecer coordenação.
É tão raro o estudante de arquitetura que ao mesmo tempo tenha sido um estudante excelente em humanidades em todas as matérias e ao mesmo tempo inteiro nas de arquitetura, que explica a mediania dos projetos na realidade; pois a matemática é o MODELO que se insere entre o mundo sensível e a ideia, e a arquitetura, desde sempre, desde seu nascimento, possui esse modelo como o corpo possui um esqueleto.
Falta disso, a arquitetura entre nós não tem contextura.
Quero advertir que este vazio não se suprirá por cursos de “plástica” nem de “educação visual” ou outro, tal como a ortopedia não supre a liquidação do esqueleto no corpo do homem. Os arquitetos que puderam ser chamados tais eram mentes matemáticas e, o que é mais ainda, desde sua origem a arquitetura apareceu com esse modelo abstrato.
Sobre isto poderia falar um mundo. É um dos FATOS CONCLUSOS da arquitetura; é portanto um FATO ARQUITETÔNICO concluso. Assim como na massa líquida do ovo está contido o esqueleto do pássaro e não se palpa nem se vê nele; assim a matemática está contida no fato arquitetônico desde sua aparição no mundo, analogamente como a cor branco na neve; assim emerge. Tal que não é por um vago azar que a arquitetura pôde se desenvolver, e culminar (o que é mais), senão quando os que a fizeram possuíram em si mesmos isto como fato concluso também. E quando não foi assim ou se estagnou ou degenerou nas elucubrações da uma sensibilidade impotente ou nas divagações inoperantes ou no usuarismo comercial ou no receituário praticista ou no pitoresco estético. Há ovos mortos. Há arquitetos mortos. Há artes mortas como há religiões mortas, como há línguas mortas carregadas da aparatosidade dos funerais; das pretensões inconfessáveis, de IRREDENTISMO.
Há sempre homens que não podem nascer em uma época; que estão rejeitados em posição trágica; há sempre ideias que não podem emergir e estão em status quo. A arquitetura está entre nós em mal estado. É tempo de refletir, é um imperativo MORAL. Como um ovo morto, a casca é a única máscara que cobre sua falta de destino e a casca não é o organismo. Tal como à orla do mar o mar joga as conchas dos caracóis mortos; a concha resta porém o organismo não está e os arquitetos parasitam as conchas, exangues restos.
Declaro absolutamente falsos em arquitetura todos os cursos de “plástica”, “educação visual” e outros sui generis, como são igualmente falsos em pintura e em escultura por ademais; tanto como o serão a construção de conchas de animais marinhos ex profeso para fazer nascer os que não existem, ou inventar fatos históricos maquete; são exercícios declamatórios, vazio sem conteúdo, e às vezes pretensiosos e opulento.
A concepção da arquitetura como uma ordem artificial não fará senão acentuar o caráter de abstração da planta, tanto que esta se converterá numa MATRIZ e não num desenho geométrico. Exigirá do arquiteto uma capacidade de abstração real, o que não é o mesmo que uma combinação de elementos geométricos de desenho linear regulados por um sentimento estético, senão uma capacidade matemática certa e uma concepção estética verdadeira.

6

O PROJETO é o signo perceptível aos sentidos como projeção de um possível estado de coisas. O DESENHO do projeto é outro signo mediante o qual se expressa o pensar arquitetônico e o projeto mesmo é o desenho em relação projetiva com a arquitetura. Assim a projeção é o que pertence ao projeto e não ao projetado; só diz da possibilidade do projetado. O projeto assim entendido não é a obra de arquitetura porém de alguma maneira há de haver alguma relação entre um e outra, porém tal relação não é uma externa senão interna e, menos, pitoresca; aqui se insere o lugar das regras. Chamo brevemente PROGRAMA àquilo que faz com que um projeto caia em arquitetura e não em outra parte; assim entendido não é o motivo ou o tema como se crê.
O que motiva um projeto pode provir de qualquer parte
; seu enunciado não diz um projeto de arquitetura; o hábito mental de um arquiteto não bastará para dar-lhe sentido.
No DESENHO do projeto seus elementos estão combinados de um modo determinado: é algo articulado e como tal é um FATO.
O que separa o desenho do projeto do projeto mesmo é homólogo ao que separa o desenho de uma escada do objeto; porém mais claro ainda, a palavra “MESA” da mesa mesma. O projeto está significado pelo desenho e a possibilidade de um projeto se baseia no princípio da representação dos objetos por signos; o desenho é um signo. Tal como uma ‘escada de mão’ não é um mero conjunto de peças de madeira senão que estas estão ordenadas segundo um esquema, e o esquema é uma série de signos diretivos que se ordenam em nós ao recorrer um objeto com a mirada e os recolhemos em outro sistema de signos diretivos novos tal que sem estas regras não haveria objeto. Que o desenho é um fato está oculto, na forma comum do bosquejo; tal como o bosquejo de uma maçã oculta que este é um mero signo resultado de uma combinação de linhas muito determinada, algo articulado; no fato não é combinação de linhas senão certa combinação o que mostra que tal bosquejo é UM FATO.

7

O PROJETO é uma planta da realidade: é um modelo da realidade tal como a pensamos. Não parece que um jornal impresso seja uma planta da realidade da que trata: é uma planta do acontecer do dia. A realidade é fixada pelo projeto naquilo que é ou naquilo que não é, a descreve completamente. O projeto é a descrição de um fato arquitetônico concluso. Entender um projeto diz, se é verdadeiro, saber o que sobrevém; já que nos entendemos em arquitetura com os projetos.
O projeto diz algo só enquanto é uma planta: nele vem construído em conjunto um estado de coisas como num experimento em física: a cada signo corresponde uma coisa; unidos entre si, o todo representa um fato arquitetônico concluso. Se para conhecer se uma planta é verdadeira há que referi-la à realidade, no projeto é a realidade a que é referida ao projeto: esta é a forma de união entre o projeto e a planta; um projeto é verdadeiro enquanto é uma planta da realidade: (o conjunto inteiro dos fatos arquitetônicos que existem e dos que não existem). Se não se admite que o projeto tem um sentido independente dos fatos, se cai na crença que a verdade ou falsidade são relações da mesma ordem que as que há entre o signo e o que o signo designa (que por ademais é o que ocorre habitualmente e o juízo se estanca nisto).
A palavra “MAÇÔ é o signo com o qual designo a maçã; a maçã é o designado (seja falada ou escrita). O bosquejo da maçã é outro signo pelo qual designo uma maçã e assim mesmo uma maçã é o designado. Porém eu mordo uma maçã para saber se é doce ou ácida; me sento numa cadeira para saber se é cômoda: a relação entre o signo e o designado não diz da realidade de um objeto.
Da mesma maneira que a descrição de um objeto o descreve segundo suas propriedades externas, assim o projeto há de descrever a realidade arquitetônica segundo suas propriedades internas; isto é aquelas propriedades que de não possui-las um objeto resulta impensável.

Um projeto representa os fatos arquitetônicos conclusos enquanto existem e enquanto não existem também; isto é TODA A REALIDADE ARQUITETÔNICA e não só a existente: se não, não seria um projeto senão uma copia ou reprodução.
Nesta maneira de concebê-lo, a noção de projeto adquire sua total densidade de significado e coincide com a palavra de abertura ao que pode sobrevir. Portanto a POÉTICA.
No sentido de minha exposição a perspectiva foi poética, e também posso concluir segundo meu sistema que como tal seu conteúdo está esgotado. Assim mesmo o funcionalismo foi uma poética e as obras melhores do passado imediato foram seus resultados.

O projeto representa a existência e a não existência dos fatos arquitetônicos conclusos: é sua descrição. O desenho é a parte do símbolo perceptível pelos sentidos. A expressão é cada uma das partes do projeto que caracteriza seu sentido; a expressão é um símbolo. Tal como a química tem seu simbolismo, a arquitetura deveria ter o seu. Vou introduzir uma nova noção: o projeto elementar. Como em geometria posso em lugar do termo “ESFERA” dizer “uma classe de pontos separados de um certo ponto por uma mesma distância” onde a expressão complexa “esfera” posso reduzi-la às noções elementares de: classe de “pontos”, relação de três pontos “em linha reta” e relação de duas coplas de pontos “separados pela mesma distância”. O projeto elementar, é o projeto mais simples possível, afirma a existência de um fato concluso; seu signo característico é que nenhum outro projeto elementar pode estar em contradição com ele; é o desenho mais simples que significa arquitetura da mesma maneira como em “relação de dois pontos separados pela mesma distância” é a designação mais simples que significa geometria onde aparecem termos como “ponto”, “reta”, “distância” que são coisa geométrica porém não fatos geométricos, porém “relação de três pontos em linha reta” designa um FATO CONCLUSO geométrico. Se um projeto elementar é verdadeiro o fato concluso existe; se não o é, não existe. Os projetos elementares são os argumentos que decidem a verdade de um projeto e NÃO as funções. E em entender muito bem isto vejo possível sair do equívoco em que se está em arquitetura, em sua dimensão IRREMEDIADA. Não, a aranha não faz sua “teia” sobre medida para caçar a mosca; a forma da teia não está em função da mosca, e disto haveria que sair. Quero só advertir que não bastará ouvi-lo senão que há que saber bem de que se trata.
Neste escrito-leitura vou assinalar muito breve, sem definir, isto: a arquitetura é uma linguagem da imobilidade substancial. O que não é a pintura, nem a escultura.
De alguma maneira uma obra de arquitetura aparece ali onde está, e não em outra parte; isto lhe dá um caráter de fixidez imanente que não cabe alterar. Um silo em tanto que obra de engenharia pode estar em qualquer parte e a imobilidade da escultura é teórica; numa estátua há sempre uma proporção de alegoria, sua fixidez é outra e naturalmente não pode traduzir-se de mármore a bronze, de bronze a madeira, de um tamanho a outro, porém sim de um sítio a outro, de um lugar a outro, e quanto mais se fixa num sítio e lugar tanto mais toma os caracteres da arquitetura, porém só os caracteres.
Não vou entrar neste escrito-leitura mais além do que me propus previamente, o farei em outro, neste só quero introduzir certos signos de indicação; porém assim vou afirmar que todas as artes são linguagens concretas quaisquer que possam ser suas diferenças específicas e que isto se vê mais claro quanto mais se lhe esvazia de conteúdo científico caminhando ao essencial e que isto traz como consequência a supressão da divisão bem arbitrária entre artes plásticas e não plásticas; pois as artes não são em si nem uma nem outra e em sua essência são estranhas ao espaço e ao tempo: como não são nem belas nem feias. Algo assim não quer dizer mescla, amálgama; senão o contrário, especificação com sentido e radical.
Que um culto haja fixado um lugar e nesse lugar haja aparecido por assim chamá-lo “templo” ou “tumba”, não quer dizer que se tal obra foi de arquitetura que esta seja nem “templária” nem “mortuária” como se cai facilmente associando como causa e efeito. Uma catedral quando foi obra de arquitetura não diz arquitetura religiosa ou outra. Se algo assim tivesse sido, isto haveria bastado e não foi o caso. A arquitetura é outra coisa; e é tão obra de arte uma tela que representa uma cena “importante” que outra que mostra só duas maçãs e um limão: o motivo, o tema, a cena, é o banal em arte. Tanto como a crença que uma paisagem impressionante decide uma arte impressionante por falar enfaticamente fatigado. E aqui restamos!: esta excisão a chamarei DIACRISIS e a seu contrário (não contraditório) SINCRISIS, e para ficar comprometido direi o que segue: o que faz do Parthenon um templo mais perfeito como obra de arquitetura não é seu valor religioso (Atenas já é bastante ateia nesse momento), tampouco suas proporções nem demais coisas das que se sobrecarregou essa obra tópico, o que a faz assombrosa como arquitetura é, para usar meus próprios termos, o grado de diacrisis que representa.

Referência:
Juan Borchers, “Cosa General”, em: Institución Arquitectónica, Editorial Andrés Bello, Santiago, Chile, 1968, pp. 29-53.

Primeira edição em português. © Tradução: Igor Fracalossi.

Sobre este autor
Igor Fracalossi
Autor
Cita: Igor Fracalossi. "Instituição Arquitetônica: Escrito-Leitura 12 / Juan Borchers" 20 Nov 2014. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/751062/instituicao-arquitetonica-escrito-leitura-12-juan-borchers> ISSN 0719-8906