
«Falamos ainda do ‘nascer’ e do ‘pôr’ do sol. Fazemo-lo como se o modelo copernicano do sistema solar não houvesse substituído irreversivelmente o ptolomaico. Metáforas vazias, figuras erodidas de discurso, habitam nosso vocabulário e gramática. Elas são pegas, tenazmente, nas andaimadas e recônditos de nossa fala comum. Lá elas vagam como velhos trapos ou fantasmas de desvão.»
Assim George Steiner começa seu livro Presenças Reais: falamos ainda do pôr-do-sol. Que paradoxo este entre o saber e o querer, entre conhecimento e vontade, entre verdade e beleza. Não nos interessa o porquê de que seguimos falando do pôr-do-sol, senão o fato de que seguimos falando. Sim, seguimos falando, todos os dias. Ainda. E, sim, seguimos sabendo que o sol é imóvel e é o centro do sistema solar. Um não altera o outro. Eis o paradoxo. Que a certeza de um não supere a beleza do outro nos parece o ponto. Que o objetivo e absoluto de um não negue o subjetivo e o relativo do outro nos abre as portas para escrever este ensaio.
