Parques urbanos deveriam fazer parte do sistema de saúde pública

A cada ano, a Trust for Public Land (TPL) emite o ParkScore, que classifica os sistemas de parques das 100 cidades mais populosas nos Estados Unidos. Este ano, a organização também explorou os resultados positivos para a saúde das cidades com as melhores pontuações, analisando mais de 800 programas e práticas inovadoras que integram parques e sistemas de saúde.

Os resultados dessas análises estão reunidos em um novo relatório chamado O poder dos parques na promoção de saúde. Este relatório oferece estratégias inovadoras para tornar os parques uma parte mais formal dos programas de saúde comunitária. As abordagens inclusivas e equitativas apresentadas podem ajudar a garantir que mais comunidades experimentem os benefícios físicos e mentais para a saúde proporcionados por espaços verdes públicos.

A TPL descobriu que, nas 25 cidades com as melhores classificações no ParkScore, as pessoas têm, em média, 9% menos chances de sofrer de problemas de saúde mental e 21% menos chances de serem fisicamente inativas do que aquelas em cidades com classificações mais baixas. Esses padrões se mantêm mesmo após o controle de raça/etnia, renda, idade e densidade populacional.

Em 26 cidades, esforços estão em andamento para aprofundar as conexões entre parques e sistemas de saúde. Nessas cidades, uma instituição de saúde está financiando, fornecendo pessoal ou encaminhando pacientes para programas de saúde em parques como parte dos esforços para melhorar a saúde dos pacientes e da comunidade.

A TPL deseja ver ainda mais cidades fazendo essas conexões. "Administradores de parques e profissionais de saúde devem considerar os parques como parte de uma estratégia holística de saúde pública", disse o Dr. Howard Frumkin, vice-presidente sênior da TPL, co-editor da Making Healthy Places (Fazendo Lugares Saudáveis) e um dos co-autores do relatório.

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Parque Estadual Shirley Chisholm. Imagem cortesia de The Dirt

Inúmeros estudos realizados por pesquisadores de arquitetura paisagística e outros cientistas demonstraram os benefícios para a saúde de passar tempo em espaços verdes, mesmo que seja apenas 20 minutos. A Dra. MaryCarol Hunter, e William Sullivan, entre outros, fizeram muito para quantificar esses benefícios.

Esses estudos descobriram que a exposição à natureza nas cidades pode melhorar níveis hormonais, frequência cardíaca, humor, capacidade de concentração e outras medidas fisiológicas e psicológicas, conforme relata a TPL.

Benefícios específicos incluem pressão arterial mais baixa, melhores resultados de nascimento, redução do risco cardiovascular, menos ansiedade e depressão, melhor concentração mental, desenvolvimento infantil mais saudável, qualidade do sono aprimorada e muito mais.

Outras pesquisas demonstraram os benefícios de longo prazo de passar tempo na natureza em relação a peso corporal, risco de doenças cardiovasculares e expectativa de vida.

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Parque do centro de Palm Springs. Imagem cortesia de The Dirt

"Se tivéssemos um remédio que proporcionasse tantos benefícios quanto os parques, todos estaríamos tomando", disse Frumkin. "E eles fazem todas essas coisas sem efeitos colaterais adversos e com custo mínimo."

No entanto, as desigualdades nos parques, e consequentemente nas questões de saúde, também são reais. A TPL afirma que, nos bairros onde a maioria dos moradores se identifica como negros, hispânicos e latinx, índios americanos/nativos do Alasca ou asiático-americanos e nativos das ilhas do Pacífico, o acesso a parques é, em média, 43% menor do que nos bairros predominantemente brancos. Desigualdades semelhantes no espaço dos parques existiam em bairros de baixa renda em todas as cidades.

"Mais de 100 milhões de pessoas em todo o país, incluindo 28 milhões de crianças, não têm um parque a uma caminhada de 10 minutos de suas casas. Na Califórnia, 42% dos pais de baixa renda relatam que seus filhos nunca participaram de atividades ao ar livre."

Este relatório reúne uma série de descobertas científicas que mostram claramente por que todas as comunidades precisam de acesso próximo a parques de alta qualidade. Com parques inclusivos distribuídos de forma mais equitativa em toda a cidade, os programas de saúde podem alcançar melhor as comunidades historicamente desatendidas.

Essas descobertas podem ajudar arquitetos paisagistas, planejadores, formuladores de políticas, desenvolvedores e defensores da comunidade a defenderem mais parques e os novos programas de saúde pública que podem amplificar seus benefícios:

  • Parques localizados nas proximidades de residências estão relacionados a taxas mais baixas de obesidade e ao aprimoramento da saúde tanto em jovens quanto em adultos.
  • A implementação de programas supervisionados, como aulas de ginástica, teve um impacto significativo no aumento da atividade física nos parques. Cada atividade supervisionada adicional resultou em um aumento de 48% no uso dos parques e um aumento de 37% no tempo dedicado à atividade física de intensidade moderada a vigorosa.
  • Um estudo do períodico Preventive Medicine, de 2014, baseado em cinco anos de dados sobre o índice de massa corporal (IMC) das pessoas e nas características dos parques nas proximidades da cidade de Nova York, identificou que um maior acesso aos parques locais e uma maior limpeza desses parques estavam associados a um menor IMC entre adultos.
  • Uma pesquisa publicada no International Journal of Environmental Research and Public Health, que avaliou crianças de 6 a 12 anos em Valência, Espanha, constatou que o acesso a parques e playgrounds estava "significativamente associado" ao aumento da atividade física, especialmente durante a semana, e contribuiu para a redução do IMC em geral.
  • Em um estudo de 2022 publicado na revista Health & Place, que investigou as taxas de depressão e ansiedade entre idosos durante a pandemia, foi descoberto que aqueles com acesso a parques em seus bairros eram muito menos propensos a relatar sintomas de depressão ou a apresentar resultados positivos para ansiedade em comparação com aqueles que não tinham acesso a esses parques.
  • Um estudo realizado em 2023 na Filadélfia e publicado na revista PLOS ONE revelou que as pessoas que residiam mais próximas de espaços verdes relataram melhor saúde física e menos estresse em comparação com aquelas que viviam mais distantes. Além disso, durante a pandemia, visitar esses espaços verdes estava associado a uma melhoria na saúde física e mental, além de reduzir a solidão.

No seu relatório, a TPL também descreveu os benefícios dos parques em relação ao clima e como eles podem reduzir os impactos prejudiciais do calor extremo na saúde. Ao reunir os "dados de temperatura com a mais alta resolução" disponíveis nos EUA, eles identificaram uma "grande diferença de temperatura entre bairros que têm parques próximos e aqueles que não têm".

Ao analisar "imagens térmicas de satélite de 14.000 cidades", os pesquisadores da TPL descobriram que áreas localizadas a uma "caminhada de 10 minutos de um parque podem ser até 6 graus mais frescas do que bairros fora dessa faixa".

O relatório fornece exemplos das principais parcerias entre parques e saúde em cidades, descrevendo como agências públicas, organizações comunitárias sem fins lucrativos e provedores de serviços de saúde se uniram para utilizar espaços públicos de parques a fim de melhorar os resultados de saúde.

“Na cidade de Nova York, por exemplo, um programa chamado Shape Up NYC oferece aulas gratuitas de tudo, desde ioga a Zumba e Pilates em locais de fácil acesso: bibliotecas, conjuntos habitacionais, centros recreativos e, claro, parques. Em Columbus, Ohio, médicos de um hospital local prescrevem programas de condicionamento físico de 11 semanas, fornecidos gratuitamente pelo departamento de parques da cidade, para pacientes que lutam contra obesidade e pressão alta.” - TPL 

Um conjunto de 14 recomendações descreve então como os parques e os sistemas de saúde podem se integrar de maneira mais eficaz. Muitas dessas recomendações podem orientar o trabalho de planejamento e projeto realizado pelos arquitetos paisagistas.

Uma recomendação que merece destaque é a seguinte: "Assegurar que todos vivam a uma distância de 10 minutos a pé (aproximadamente 800 metros) de um parque". A TPL enfatiza que a proximidade é crucial, abrangendo aspectos como "qualidade, atividade e segurança". Além disso, "iniciativas criativas para a criação de espaços que incorporam a identidade local por meio de elementos culturais, como arte pública e sinalização bilíngue", também desempenham um papel fundamental.

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Parque Central. Imagem cortesia de The Dirt

Mais recomendações:

  • “Priorizar o investimento em parques em comunidades historicamente carentes
  • Desenvolver conexões para transporte público e visitas guiadas, como programas para jovens
  • Levar os parques às pessoas por meio de pop-ups e ofertas móveis
  • Oferecer programas de condicionamento físico e bem-estar completos ou como testes  [em parques] explicitamente projetados para iniciantes.
  • Incentivar os visitantes do parque a experimentar algo novo com ofertas de baixo comprometimento, como atividades esportivas (por exemplo, recreio para adultos) ou aluguel de equipamentos gratuitos ou de baixo custo.
  • Facilitar aos grupos comunitários a utilização de parques e instalações recreativas como principais locais de encontro.
  • Encaminhar, prescrever ou hospedar pacientes com programas de saúde em parques e instalações recreativas.
  • Patrocinar programas de bem-estar, ligas esportivas e outras aulas de saúde como parte de qualquer benefício gratuito de associação de condicionamento físico.
  • Maior investimento em parques na saúde comunitária.
  • Trabalhar com parques e agências recreativas para mapear e identificar déficits nos parques como parte das Avaliações das Necessidades de Saúde Comunitárias.
  • Continuar parcerias com parques e agências recreativas para alcançar as principais populações de pacientes com serviços de saúde e educação.
  • Fazer parcerias com parques e agências recreativas para avaliar o impacto das iniciativas dos parques nos principais resultados de saúde dos pacientes e da comunidade.”

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Sobre este autor
Cita: Green, Jared. "Parques urbanos deveriam fazer parte do sistema de saúde pública" [Urban Parks Should Be a Greater Part of the Healthcare System] 02 Out 2023. ArchDaily Brasil. (Trad. Simões, Diogo) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/1007390/parques-urbanos-deveriam-fazer-parte-do-sistema-de-saude-publica> ISSN 0719-8906

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