Quando documentar não é suficiente: obras, datas, reflexões e construções teóricas / Ruth Verde Zein

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É preciso respeitar os documentos. Mas os documentos não falam por si mesmos: aguardam ser interpretados. E nunca é demais lembrar, como bem apontou Marina Waisman, que “se bem os objetos da reflexão provém da realidade, a problemática que comportam não se revela neles de um modo direto e evidente; será a reflexão que há de descobrir ou revelar problemas e questões que subjazem na realidade fática, pois o ato de formular questões ou perguntas se apoia em conceitos, em ideias; com base neles é que se produzem as descobertas; e logo será a práxis que responderá – positiva ou negativamente – às perguntas ou exigências formuladas pela reflexão”.[1]

Os documentos, incluindo-se as obras de arquitetura – que são também documentos da maior importância e densidade para nosso campo de estudos – aguardam pacientemente por nossas reflexões. Mas jamais serão esgotados por elas: a qualquer momento um outro olhar lhes trará nova vida. Os mesmos documentos, iluminados por outras perguntas, sugerirão precisões e revisões, de singelas a revolucionárias. Mas para que isso ocorra é preciso se permitir fazer novas perguntas. Sem a dúvida sistemática não há ampliação ou revisão de campo; mas ela só pode consistentemente ocorrer se aceitarmos que nem tudo está claro, dito e definido. E sem nos darmos ao trabalho de voltar às origens – à documentação – e novamente interrogá-la.

Parece haver uma ideia subjacente e prevalente permeando quase todas as historiografias canônicas da arquitetura moderna, em especial daquelas que tratam de outras modernidades não europeias. Trata-se de uma ideia cuja presença é sutil e difícil de apontar, já que subjaz na base de muitas assunções, sendo dada por sentada, e não sendo muito discutida por se acreditar evidente. Trata-se da noção de “transposição cultural” - de ideias, modelos, formas, etc.. No caso dos estudos sobre as nossas arquiteturas ocorrendo sempre e necessariamente segundo um eixo imaginário, originado no norte e repercutindo no sul. Aceita tal ideia, de imediato se estabelece um corolário implícito: a noção de que os fatos, obras, discursos, tendências e debates arquitetônicos necessariamente ocorrem primeiro lá e depois aqui. A partir desse corolário, e para confirmá-lo, se constroem explicações - reais ou supostas - de como e porque isso é assim; e finalmente, se validam essas explicações adotando-se a crença de que elas mesmas seriam a causa eficiente e necessária para que as coisas sejam assim mesmo (em um círculo vicioso tão bem fechado que quase ninguém se dá conta disso).

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Sobre este autor
Cita: Ruth Verde Zein. "Quando documentar não é suficiente: obras, datas, reflexões e construções teóricas / Ruth Verde Zein" 02 Dez 2012. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/01-84215/quando-documentar-nao-e-suficiente-obras-datas-reflexoes-e-construcoes-teoricas-slash-ruth-verde-zein> ISSN 0719-8906

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