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Através das Lentes: Ficção Científica & Arquitetura

Através das Lentes: Ficção Científica & Arquitetura
Através das Lentes: Ficção Científica & Arquitetura, Fotograma do Marin Center de Frank Lloyd Wright no filme Gattaca. Cortesia de Columbia Pictures.
Fotograma do Marin Center de Frank Lloyd Wright no filme Gattaca. Cortesia de Columbia Pictures.

Pode-se pensar que, de todos os gêneros de filmes, a ficção científica seria o menos provável a apresentar edifícios reais. É evidente que os diretores de arte sempre buscam evitar conexões com elementos tão ligados à realidade, no entanto, existe, de certo modo, uma tradição em utilizar a arquitetura moderna como base para a criação de mundos cinematográficos fictícios.

A ficção científica apresenta uma peculiaridade: sua audiência acredita nos mundos que lhe são apresentados. Movimentos de câmera bem pensados, perspectivas e os materiais certos contribuem para isso. Além disso, a escolha de edifícios modernos reais - ao invés de cenários inteiramente construídos - contribui para a autenticidade e atmosfera destes filmes.

Saiba mais sobre o uso da arquitetura moderna em filmes de ficção científica como Blade Runner, Gattaca, Aeon Flux e outros, após o intervalo...

No passado, os cenógrafos tinham que optar entre construir um cenário temporário ou encontrar um local existente adequado às exigências do roteiro. Em todos os casos, sempre houve contradições:  um cenário bem feito é, em geral, muito caro e a escala costuma ser limitada, por outro lado, filmar em locação é sempre problemático devido às limitações de tempo e necessidade de permissões. Além disso, pensar como construir um ambiente futurístico é sempre um problema a ser resolvido.

Felizmente, os profissionais do campo da arquitetura se encarregam deste problema diariamente e, ocasionalmente, aparecem com uma solução tão radical e pouco convencional que é, na realidade, adequada para Hollywood. Este foi o caso da comédia de ficção científica de Woody Allen, O Dorminhoco, que apresentava uma solução estrutural revolucionária criada por Charles Deaton.

Casa Experimental de Charles Deaton (chamada de casa "esculpida"), que aparece no filme de 1973 de Woody Allen, O Dorminhoco. Imagem via Flickr CC User Jerry Lewis.
Casa Experimental de Charles Deaton (chamada de casa "esculpida"), que aparece no filme de 1973 de Woody Allen, O Dorminhoco. Imagem via Flickr CC User Jerry Lewis.

Esta casa experimental (ele chamava de casa "esculpida") apresenta uma atmosfera minimalista que é associada à edifícios do futuro. A forma branca esculpida da casa sugere um nível de racionalidade estrutural, integração programática e avanços em termos de materiais que não haviam ainda sido alcançados pela indústria, e isso tornava inviável construir uma cópia dela em estúdio. A solidez de sua estrutura permanente proporcionava credibilidade ao cenário, algo que seria dificilmente alcançado com  miniaturas em escala.

Ennis House / Frank Lloyd Wright. Images © Flickr Users Troy Holden (left) and curls q (right)
Ennis House / Frank Lloyd Wright. Images © Flickr Users Troy Holden (left) and curls q (right)

Em 1982, Ridley Scott lançou Blade Runner - um filme cuja densidade opressiva das construções iniciou uma nova era na direção de arte e abriu caminho para toda uma geração de novos gráficos para jogos de computador - que se baseava na distinta linguagem arquitetônica da Casa Ennis de Frank Lloyd Wright (um edifício apresentado tantas vezes na televisão e no cinema quanto qualquer uma destas estrelas da calçada da fama de Hollywood), e usava a textura criada pelos blocos da casa (de inspiração Maia) para transmitir a atmosfera de uma civilização decadente. Já o filme Gattaca,  muito popular, também faz uso de uma obra de Wright - desta vez o Marin County Civic Centre - apresentado como a sede de uma corporação aeroespacial futurista. Uma escolha surpreendente, visto que tal obra fora concluída em 1957.

AD Classics: Marin Civic Center / Frank Lloyd Wright. Image © Flickr User CC kara brugman
AD Classics: Marin Civic Center / Frank Lloyd Wright. Image © Flickr User CC kara brugman

Evidentemente, o (relativamente) recente aparecimento das tecnologias de animação significa que há agora uma série de alternativas digitais disponíveis aos diretores de arte para a criação de mundos fictícios - o que possibilita a redução da dependência das estruturas físicas nos filmes. Apesar do vento soprar neste sentido, ainda se vê a predominância da arquitetura moderna nos filmes de ficção científica.

Aeon Flux, lançado em 2006, utilizou o Baumschulenweg Crematorium, em Berlin (também visto em Cloud Atlas de 2012) e o Tierheim Animal Shelter para criar um lar para uma sociedade utópica futurista - bela e calma vista de fora, porém muito problemática por baixo da superfície. A simplicidade da característica destes edifícios foi enfatizada pela equipe de produção, buscando criar uma sensação de calma artificial nesta sociedade cuidadosamente fabricada. A ausência de agitação e desordem cria uma inquietação desconcertante. Novamente, a autenticidade proporcionada por estas estruturas construídas dá credibilidade ao mundo de Aeon Flux.

Crematorium Baumschulenweg / Shultes Frank Architeckten. Image © Mattias Hamrén
Crematorium Baumschulenweg / Shultes Frank Architeckten. Image © Mattias Hamrén

A arquitetura contemporânea pode ainda ser vista em filmes de grande orçamento que fazem pleno uso de tecnologias de computação gráfica. O lançamento de Michael Bay de 2011, Transformers 3, apresenta o belo Art Museum de Milwalkee, de Santiago Calatrava  cercado por animações colossais de cenas de ação. O elegante espaço escultórico proporciona um balanço estético em relação à horrível parafernália mecânica dos Autobots e, sem dúvida, os brises soleil móveis dão uma aula de elegância a Optimus Prime.

Estas obras únicas da arquitetura contemporânea se alinham facilmente à visão do futuro pois é precisamente para ele que estas foram projetadas. Elas são o resultado do incessante questionamento daquilo que é convencional e da expansão dos limites da arquitetura. Além disso, proporcionam aos filmes em que aparecem um nível de autenticidade e realismo que convence e engaja a audiência. Embora na maioria dos casos estas obras estejam ligadas a um futuro não promissor - dos ambientes sombrios de Blade Runner ao mundo estéril e ameaçador de Aeon Flux - a regular referência à arquitetura moderna na ficção científica também pode ser vista como uma homenagem. Isto mostra que o design contemporâneo é visto como parte do futuro que e a profissão da arquitetura tem um papel reconhecido na construção do futuro.

Caso tenha interesse em saber mais sobre Cinema e Arquitetura, clique aqui, e veja uma pequena resenha sobre diversos filmes que de alguma forma envolvem a Arquitetura.

Cita: Charlotte Neilson. "Através das Lentes: Ficção Científica & Arquitetura" [Through the Lens: Sci-Fi & Architecture] 29 Abr 2013. ArchDaily Brasil. (Trad. Delaqua, Victor) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/111059/atraves-das-lentes-ficcao-cientifica-and-arquitetura> ISSN 0719-8906