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Poesia: O mais recente de arquitetura e notícia

Poesia e Arquitetura: O Pequeno Príncipe, capítulo XXI / Antoine de Saint-Exupéry

Poesia e Arquitetura: Blue / Jorge Teillier

Verei novos rostos
Verei novos dias
Serei esquecido
Terei recordos
Verei sair o sol quando sai o sol
Verei cair a chuva quando chove
Passearei sem assunto
De um lado a outro
Entediarei meio mundo
Contanto a mesma história
Sentarei a escrever uma carta
Que não me interessa enviar
Ou a olhar as crianças
Nos parques de jogo

Sempre chegarei à mesma ponte
A olhar o mesmo rio
Irei ver filmes tontos
Abrirei os braços para abraçar o vazio
Tomarei vinho se me oferecem vinho
Tomarei água se me oferecem água
E me enganarei dizendo:
“Virão novos rostos
Virão novos dias”.

Poesia e Arquitetura: Indolente / Raymond Carver

As pessoas que eram melhores que nós estavam confortáveis.
Elas viviam em casas pintadas com vasos sanitários.
Dirigiam carros cujo ano e marca eram reconhecíveis.
Os que eram piores eram pesarosos e não trabalhavam.
Seus carros estranhos ficavam em pátios empoeirados.
Os anos passam e tudo e todos são substituídos.
Mas uma coisa ainda é certa: Eu nunca gostei de trabalhar.
Minha aspiração era sempre ser indolente.
Eu via o mérito nisso.
Eu gostava da ideia de sentar numa cadeira em frente à sua casa por horas,
fazendo nada mais que usar um chapéu e beber coca-cola.
O que há de errado nisso?
Fumando um cigarro de vez em quando.
Cuspir.
Fazer coisas de madeira com uma faca.
Onde está o dano aí?
Às vezes chamar os cães a caçar coelhos.
Experimente isso algum dia. Alguma vez acenar a um menino gordo e louro como eu e dizer,
‘Eu não te conheço?’
E não, ‘O que você vai ser quando crescer?’

Poesia e Arquitetura: Quero me perder / César Vallejo

Poesia e Arquitetura: No Bosque / Friedrich Hölderlin

Mas é que em choças habita o homem, e se cobre
de envergonhados indumentos, pois também ele tem sua
intimidade e atenção; e do fato que ele se deva ao espírito,
assim como faz a sacerdotisa com o fogo divino,
isto é o que constitui seu entendimento.

E por isso que carece de arbitrariedade e de
uma força superior, e para cumprir com os divinos
lhe foi designado ao homem o mais perigoso dos bens,
a linguagem, para que o homem ao criar, destruir e
decair, retorne desde aquele à mãe e mestra eterna,
e para que produza o que a ele haja sido legado desde esta,
o seu mais divino, que aprenda dela
a forma do amor que todo sustenta.

Poesia e Arquitetura: Primeiro Poema / Hugo Mujica

Se põe o sol atrás da janela da cozinha.
O chá está quase pronto.

Poesia e Arquitetura: Olhei os muros da pátria minha / Francisco de Quevedo

Olhei os muros da pátria minha,
se um tempo fortes, já desmoronados,
da carreira da idade cansados,
por quem caduca já sua valentia.

Saí ao campo, vi que o sol bebia
os arroios do gelo desatados,
e do monte queixosos os gados,
que com suas sombras furtou sua luz ao dia.

Entrei em minha casa, vi que enxovalhada
de anciã habitação era espólios;
meu báculo mais curvo e menos forte.

Vencida pela idade senti minha espada
e não achei coisa em que pôr os olhos
que não fosse relembrança da morte.

Poesia e Arquitetura: Alturas de Machu Picchu / Pablo Neruda

Pedra na pedra, o homem, onde esteve?
Ar no ar, o homem, onde esteve?
Tempo no tempo, o homem, onde esteve?
Foste também o pedacinho roto
de homem inconcluso, de águia vazia
que pelas ruas de hoje, que pelas pegadas,
que pelas folhas de outono morto
vai machucando a alma até a tumba?
A pobre mão, o pé, a pobre vida…
Os dias da luz esfiapada
em ti, como a chuva
sobre as bandeirinhas da festa,
deram pétala a pétala de seu alimento escuro
na boca vazia?
Fome, coral do homem,
fome, planta secreta, raiz dos lenhadores,
fome, subiu tua linha de arrecife
até estas altas torres desprendidas?

Eu te interrogo, sai dos caminhos,
mostra-me a colher, deixa-me, arquitetura,
roer com um palito os estames de pedra,
subir todos os escalões do ar até o vazio,
rascar a entranha até tocar o homem.

Machu Picchu, puseste
pedra na pedra, e na base, farrapos?
Carvão sobre carvão, e no fundo a lágrima?
Fogo no ouro, e nele, temblando a vermelha
goteira do sangue?
Devolve-me o escravo que enterraste!
Sacode das terras o pão duro
do miserável, mostra-me os vestidos
do servo e sua janela.
Diz-me como dormiu quando vivia.
Diz-me se foi seu sonho
rouco, entreaberto, como um buraco negro
feito pela fatiga sobre o muro.
O muro, o muro! Se sobre seu sonho
gravitou cada piso de pedra, e se caiu sob ela
como sob uma lua, com o sonho!
Antiga América, noiva submergida,
também teus dedos,
ao sair da selva para o alto vazio dos deuses,
sob os estandartes nupciais da luz e do decoro,
mesclando-se ao trovão dos tambores e das lanças,
também, também teus dedos,
os que a rosa abstrata e a linha do frio, os
que o peito sangrento do novo cereal trasladaram
até a tela de matéria radiante, até as duras cavidades,
também, também, América enterrada, guardaste no mais baixo
no amargo intestino, como uma águia, a fome?

Poesia e Arquitetura: Matéria de Poesia / Manoel de Barros

Poesia e Arquitetura: Arquitetura Funcional / Mario Quintana

Não gosto da arquitetura nova
Porque a arquitetura nova não faz casas velhas
Não gosto das casas novas
Porque casas novas não têm fantasmas
E, quando digo fantasmas, não quero dizer essas
Assombrações vulgares
Que andam por aí…
É não-sei-quê de mais sutil
Nessas velhas, velhas casas,
Como, em nós, a presença invisível da alma… Tu nem sabes
A pena que me dão as crianças de hoje!
Vivem desencantadas como uns órfãos:
As suas casas não têm porões nem sótãos,
São umas pobres casas sem mistério.
Como pode nelas vir morar o sonho?
O sonho é sempre um hóspede clandestino e é preciso
(Como bem sabíamos)
Ocultá-lo das outras pessoas da casa,
É preciso ocultá-lo dos confessores,
Dos professores,
Até dos Profetas
(Os Profetas estão sempre profetizando outras coisas…)
E as casas novas não têm ao menos aqueles longos,
Intermináveis corredores
Que a Lua vinha às vezes assombrar!

Poesia e Arquitetura: Os domínios perdidos / Jorge Teillier

Poesia e Arquitetura: Não vive já ninguém... / César Vallejo