Rafael Altamirano

NAVEGUE POR TODOS OS PROJETOS DESTE AUTOR

Cinema e Arquitetura: "Equilibrium"

O pouco conhecimento sobre esse filme por parte do público geral talvez se deva ao fato de que foi um fracasso de bilheteria em seu país de origem e posteriormente a pouca iniciativa para o exibir no exterior. Em muitos países, injustamente, nem chegou a estrear. Somente o formato caseiro e o boca-a-boca souberam render tributo a um trabalho, que apesar do seu escasso orçamento, resulta brilhante em termos de imagem e embasamento teórico.

O filme nos leva a um mundo pós-guerra, por causas que desconhecemos mas que se tornam óbvias nas primeiras cenas, sobreviveu a uma terceira guerra mundial e se vê em meio a necessidade dramática de prevenir a todo o custo um novo conflito. E como meio drástico de controlar a população,  se cria um governo totalitário que por meio de uma droga, inibe os sentimentos das pessoas, tornando-as verdadeiras máquinas.

Cinema e Arquitetura: "Akira"

Dentro do cinema de animação japonês, existe um antes e um depois da estreia e posterior difusão de "Akira", a qual impõe um alto, se não perfeito, nível de qualidade de animação por meios tradicionais e converte o país nipônico em uma proposta séria diante da crítica internacional. Em muitos países fora do Japão, esse foi um dos primeiros filmes a chegar em cartaz no cinema e mais tarde na televisão, introduzindo a toda uma geração uma cultura diferente e chamativa.

Mas além do fenômeno midiático que resultou ser em seu momento, "Akira" é uma obra de arte que por si só resulta ser universal e atemporal. Enquanto nos apresenta um futuro distópico depois de uma terceira guerra mundial e uma sociedade em crise devido ao período de recuperação pós-guerra, nela encontramos os problemas e fenômenos que tem enfrentado a civilização humana em todas as sociedades e épocas. Crise econômica, superpopulação, marginalização, totalitarismo militar, corrupção e mais uma longa lista que parece se repetir em toda a vontade de construir uma cidade perfeita

Cinema e Arquitetura: "Old Boy"

Um sopro de ar fresco foi o resultado do lançamento de Old Boy, no começo da década do novo século, tanto para o cinema relacionado com vingança como para a indústria em si mesma, como demonstrou que não apenas Hollywood pode fazer obras primas e que com poucos recursos e um grande talento pode nascer a verdadeira inspiração. Old Boy se converteu numa clara referência ao cinema pós-moderno e uma obra cult do cinema oriental. 

Integra-se ao mundo da arquitetura graças à linguagem visual tão clara e delimitada que orquestra uma abstração potente que com escassos elementos arroja um subtexto, como em camadas, nos permite entender melhor as motivações e ações dos personagens. Esta abstração não é coincidência, já que o próprio diretor demonstra uma grande perícia para escolher os planos de suas locações, habilidade talvez nata já que é filho de um maestro da arquitetura, o própria ao haver dedicado grande parte de sua juventude a ser crítico de cinema. 

Cinema e Arquitetura: "Cidade De Deus"

Em nosso contexto atual e ao longo da história da humanidade, a questão da pobreza sempre foi objeto de estigma social e, ao mesmo tempo, espacial. Todos nós reconhecemos suas características, longe dos centros econômicos, geralmente localizadas na periferia da cidade, com pouco ou nenhum serviço, condições precárias de habitação e cuja população é discriminada como se fossem portadores de uma peste.

O filme aborda estas questões, especialmente como o próprio nome indica, o caso de "Cidade de Deus", projeto urbano feito pelo governo brasileiro a fim de criar uma cidade "embrião" para a população de origem africana do Rio de Janeiro .

Cinema e Arquitetura: "Cube"

Espaços escuros, claustrofóbicos, um labirinto cheio de armadilhadas ambientado dentro de uma ficção científica atípica, com um mistério matemático e o perigo se aproximando em cada oportunidade como nos filmes clássicos de terror, é assim que se passa "Cube", filme de baixo orçamento mas de grandes ideias que nos transporta a um universo muito papável onde a maior ameaça é o próprio espaço.

"Cube" é uma prisão, um laboratório de estranhos propósitos composta pela sucessão em três dimensões de um número elevado de cubos perfeitos, os quais, como se fosse um cubo "Rubik", se sobrepõem entre si de tempos em tempos. Essa estrutura pode ser associada a arquitetura fractal, que como um caleidoscópio nos mostra uma visão infernal da qual os protagonistas não podem escapar diante da sua aparente infinita repetição.

Cinema e Arquitetura: "Blade Runner"

Humildade e um grande sentimento de insignificância é o que se gera ao escrever sobre Blade Runner, filme culto e que traz uma grande reflexão, de múltiplas interpretações, as quais têm sido abordadas com grande maestria por muitos outros autores difíceis de superar. Essa resenha, humilde e respeitosa almeja criar em suas breves páginas uma aproximação a este grande imaginário, convidando ao leitor a maravilhar-se e perder-se em sua mitologia.

A imagem de Blade Runner nasce da ideia de representar o conceito de Megalópolis, cidade descomunal cuja extensão parece infinita e que não termina no horizonte. Cidade decadente, composta por um grande conglomerado de arranha-céus que nascem de subúrbios superpovoados e de chaminés industriais, as quais cospem fogo, como fosse o próprio inferno. Metáfora por todos os lados, com ruas cheias de poluição, violência, ruído, invasão publicitária, ingredientes de uma metrópole caótica a qual não é mais um exagero das características que definem a cidade atual.

Cinema e Arquitetura: "O Quinto Elemento"

Existem inúmeros exemplos de como pode ser a cidade do futuro, desde cidades em ruínas até megalópolis que se expandem ao longo de todo o continente e cuja extensão se perde no horizonte. Especialmente este tipo de cidade distópica, é difícil imaginar e representar devido a sua extensão descomunal, percorrendo pontos identificáveis, desde a topografia que a dê noção de escala, um ponto de comparação claro ao espectador. A cidade vista em "The Fifth Element” rompe totalmente com o paradigma clássico da megalópolis horizontal e nos apresenta uma cidade cujo desenvolvimento resulta vertical.

A explicação a tal crescimento encontramos nas 'entrelinhas' dentro da trama do filme, e por parte do grande trabalho criativo que o diretor necessitou para dar coerência ao universo da película, trabalhando durante longos anos com os mestres das histórias em quadrinhos francês Jean Claude Mezieres e Jean Giraud “Moebius”.

Nova York se converteu na capital do mundo, que superpovoada conquistou todos os cantos do planeta, excedendo sua capacidade horizontal para expandir-se, restando a verticalidade como a única forma de crescimento.

Cinema e Arquitectura: "Gattaca"

Retrofuturo e Minimalismo Aséptico. Gattaca (1997) é um filme curioso, que se destaca entre os outros do gênero da ficção científica e dentro do mundo do cinema em geral, por apresentar um equilíbrio excepcional entre "mensagem" e "forma" através da apresentação escassa - quase mínima - de elementos dentro de sua ambientação, carregados de simbolismos, que enfatizam o discurso que os personagens mostram magistralmente em cada cena.

Nos transporta à um futuro cuja estética é evidentemente retro futurista e parecida mais aos filmes e séries televisivas dos anos quarenta. Os automóveis não são as máquinas super potentes e extravagantes que cruzam os céus ou cheias de tecnologia, mas sim peças de grande design retiradas de museus. Os personagens vestem trajes de alta alfaiataria pelas ruas, alguns deles levam chapéus, vestindo uma estética muito impessoal e quase atemporal.

Cinema e Arquitetura: "Dark City"

Uma das propostas mais pós-modernas que tive a oportunidade de desfrutar e talvez um dos trabalhos mais honestos em relação ao seu roteiro é Dark City, filme cheio de experimentação, inovadora para seu tempo mas que não contou com a sorte diante do público e da crítica em seu tempo. Hoje em dia foi feito justiça à sua imagem, e foi convertido em um filme cult, em grande parte, pelo ponto de inflexão que foi "The Matrix" quanto à sua concepção de cinema pós-moderno.

Cidade sem luz, congelada numa noite interminável onde nunca nasce o sol, mas ao mesmo tempo cidade escura pelo fato de que ninguém está ciente do desenvolvimento da cidade. As pessoas não se impressionam pela imagem de mudança da cidade, devido ao fato de estarem submetidas a um controle mental, mas ainda pode ver esse comportamento em nossa sociedade pós-moderna atual, em que ninguém parece se surpreender e fazer parte da rápida transformação da cidade.

Cinema e Arquitetura: "Filhos da Esperança"

Artigo por Rafael Altamirano, arquiteto.

O futuro para  humanidade não existe. De todos os cenários possíveis, é talvez este o mais desolador e deprimente. Perdemos a capacidade para reproduzir e com ele, nossa missão biológica e social de transmitir tudo o que somos à seguinte geração. Nossas grandes obras, nossas cidades, nossa arte, não têm sentido. Em menos de cem anos não existirá ninguém que lembre quem fomos nem nada que fizemos.