A imagem é familiar: uma fachada composta por camadas de brise-soleil, a luz suavizada em sombras padronizadas, interiores mantidos frescos sem o auxílio de máquinas. Manifesta-se como uma inteligência visível, uma arquitetura que compreende o sol. No entanto, essa imagem raramente é examinada de perto. Os mesmos dispositivos que atenuam o calor também organizam o acesso, distribuem o conforto e dependem de formas específicas de trabalho. O que parece ser apenas uma resposta climática é, também, uma decisão sobre quem recebe alívio do calor e de que maneira. O modernismo tropical, frequentemente reduzido a uma linguagem visual de sombra e porosidade, emerge, em vez disso, como um conjunto de práticas situadas onde clima, trabalho e poder são negociados de forma distinta em cada contexto.
Na escala do elemento, o modernismo tropical começa como um problema técnico. Em climas quentes, a radiação solar não é incidental, mas constante, exigindo que os edifícios mediem a luz, o calor e o ar antes que alcancem o interior. Arquitetos como Maxwell Fry e Jane Drew abordaram isso com uma precisão que resiste a qualquer leitura desses elementos como decorativos. Os dispositivos de sombreamento são calibrados de acordo com os ângulos solares, a orientação e as variações sazonais. Os brises-soleil são dimensionados para bloquear o sol alto enquanto admitem a luz difusa; os beirais se estendem o suficiente para evitar o ganho direto de calor nas horas de pico; as aberturas são alinhadas para incentivar a ventilação cruzada. Pesquisas de meados do século testaram ainda mais essas estratégias, medindo reduções de temperatura e melhorias no fluxo de ar. Nesse sentido, a linguagem do modernismo tropical não é simbólica; ela é performativa: cada projeção, vazio e tela faz parte de um sistema ambiental.
Antes de qualquer desenho ou decisão formal, já pulsava, no lugar onde hoje se encontra a Praça do Mercado, no Parque Realengo, Rio de Janeiro, um espaço em permanente movimento. Barracas improvisadas, encontros informais, música, crianças correndo e adultos reunidos sob coberturas provisórias compunham uma paisagem viva, desenhando uma arquitetura efêmera.
Blur Building, Lago Neuchâtel, Yverdon-les-Bains, Suíça, 2002. Imagem cedida por Diller Scofidio + Renfro.
A arquitetura é tradicionalmente narrada a partir da permanência do sólido. Definimos a disciplina pelo peso da verga, pela massa do pilar e pela resistência da parede. Mesmo quando a leveza é evocada, ela costuma ser entendida como um gesto de subtração: o afinamento de uma seção ou a redução precária de uma carga. Existe, porém, uma história paralela, menos visível e mais difícil de isolar, na qual o principal material da construção não é aquilo que ocupa o espaço, mas aquilo que se move através dele.
Tratar o ar como meio significa ultrapassar a lógica binária do invólucro. O limite entre o interior e o mundo deixa de ser uma linha de separação absoluta e passa a se tornar um campo de filtragem e pressão. A edificação passa a ser compreendida como uma válvula térmica, uma sequência de gradientes em que umidade, velocidade e calor deixam de ser apenas “condições” de fundo a serem controladas por sistemas mecânicos e passam a constituir as próprias substâncias moldadas pela arquitetura.
A arquitetura japonesa contemporânea vem demonstrando como adaptar as necessidades em evolução dos moradores modernos a uma rica tradição construtiva e um legado artesanal. A madeira sempre foi a alma da arquitetura japonesa. Em muitos projetos residenciais recentes, esse material transcende seu papel estrutural para se tornar o acabamento principal de várias superfícies — que vão desde pisos e tetos até o mobiliário e demais elementos arquitetônicos. Esses ambientes encontram um delicado equilíbrio entre elegância e aconchego.
O uso de acabamentos naturais e não pintados destaca a honestidade inerente do material, ao mesmo tempo que celebra o caráter único de cada peça, seus veios naturais e a diversidade da composição geral. Enquanto algumas casas apresentam madeiras sóbrias e de tons escuros para criar uma atmosfera sóbria, outras utilizam madeiras mais claras, como o pinho, para promover uma sensação leve, arejada e etérea. Essa versatilidade prova que a madeira pode se adaptar a qualquer estética, do rústico ao ultra-minimalista.
Nas cidades contemporâneas, a densidade urbana e o aumento do valor da terra frequentemente impõem uma escolha entre edifícios cívicos de grande escala e espaços públicos abertos. Tradicionalmente, as praças eram tratadas como áreas ao redor da implantação do edifício, mas essa lógica foi transformada com a introdução dos pilotis pelo movimento moderno do início do século XX. Embora a intenção original fosse criar uma sensação de leveza que permitisse a circulação e a luz fluírem sob a estrutura, as exigências contemporâneas — como cargas sísmicas, rotas de evacuação e altas taxas de ocupação — tornam colunas esbeltas insuficientes para atender às demandas dos atuais edifícios cívicos de grande porte.
No entanto, a busca pela leveza arquitetônica não é exclusivamente contemporânea. Após a introdução dos pilotis, diversos projetos de meados do século XX passaram a explorar a ilusão de suspensão como forma de alcançar transparência cívica. Em 1953, o Congresso Nacional de Honduras, em Tegucigalpa, projetado por Mario Valenzuela, aplicou esses princípios ao contexto legislativo. O edifício consiste em uma câmara sólida elevada sobre uma série de colunas delgadas. Como o terreno está situado em um platô ao final de uma rua em declive, o vazio resultante vai além da circulação: ele enquadra vistas da cidade, criando a impressão de que o volume pesado está suspenso com leveza sobre o tecido urbano.
A enchente não chega como surpresa. Ela retorna, seguindo os mesmos rios transbordados e os mesmos céus de monção, soltando o solo e invadindo casas que nunca foram pensadas para resisti-la de forma definitiva. As paredes são desamarradas antes de serem perdidas, os materiais são recolhidos antes de serem levados pela correnteza, e as estruturas são reconstruídas com uma familiaridade que sugere que isso não é destruição, mas sequência. Em paisagens onde a água volta todos os anos, sobreviver é definido pela capacidade de recomeçar.
Nas planícies inundáveis de Bangladesh, da bacia do Brahmaputra e do Delta do Mekong, a inundação é uma certeza sazonal. Relatórios de instituições como o Banco Mundial e o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas costumam enquadrar as enchentes a partir da exposição ao risco e dos danos, medindo o sucesso pela resistência e pela durabilidade. Ainda assim, em territórios submersos anualmente, esses parâmetros descrevem apenas parte do problema. O próprio solo oscila entre estados sólidos e líquidos. Construir como se ele fosse fixo significa projetar contra a própria condição que o define.
Em 1962, o arquiteto Buckminster Fuller imaginou uma cidade flutuante que libertaria a humanidade da dependência da Terra. O projeto hipotético consistia em enormes esferas geodésicas aéreas que levitariam naturalmente no ar quente aquecido pelo sol e que seriam ancoradas no topo das montanhas. Propondo abrigar milhares de pessoas, as Cloud Ninede Fuller tinham como objetivo aliviar a política de propriedade da terra, a escassez de moradias e auxiliar na preservação da natureza.
Passado mais de meio século, seguimos distantes de concretizar a ideia de Fuller. Criar uma estrutura verdadeiramente flutuante na superfície da Terra permanece, até o momento, um ideal inatingível. Enquanto os suportes ainda se impõem como necessidade, manipulamos sua posição, sua intensidade, sua quantidade, desenvolvendo acrobacias para, ao menos, nos aproximarmos da ideia de vencer a gravidade, esse desejo que há tanto tempo fascina a humanidade.
Uma premiação de arquitetura atua como um dispositivo de legitimação, capaz de indicar quais abordagens, materiais e estratégias passam a ocupar uma posição central no discurso disciplinar. Ao reunir projetos com programas, escalas e condicionantes distintos, essas iniciativas tornam visíveis prioridades e direções emergentes no campo. Nesse sentido, o Design Awards da Shaw Contract tem se consolidado como uma plataforma global de reconhecimento no design de interiores e um termômetro das transformações que atravessam a disciplina, ao promover uma reflexão sobre o papel do design na construção de ambientes mais responsáveis, inclusivos e sustentáveis.
Chilean Atacama Desert. Image by European Southern Observatory with known IDsCC-BY-4.0European Southern Observatory Images ESO files uploaded by OptimusPrimeBot licensed under the Creative Commons Attribution 4.0 International license
A arquitetura já não pode ser pensada como um objeto isolado, alheia às redes técnicas que sustentam a vida contemporânea, — um cenário que exige diferentes leituras e abordagens. É nesse contexto que em março, o tema mensal do ArchDaily recaiu sobre A Tecnosfera: Arquitetura na Intersecção da Tecnologia, Ecologia e Sistemas Planetários, tópico amplo e inevitavelmente complexo. A partir do conceito de tecnosfera, cunhado pelo geólogo Peter Haff para descrever o conjunto de artefatos produzidos pela humanidade, delineia-se um panorama em que a vida contemporânea se mostra profundamente entrelaçada a máquinas, dados e redes de energia.
Se antes o projeto se articulava principalmente a condições locais ou regionais, hoje ele é atravessado por cadeias que começam na extração de recursos, passam por sistemas industriais e se estendem por infraestruturas planetárias muitas vezes invisíveis e que operam de forma contínua e interdependente.
Três projetos brasileiros foram escolhidos como vencedores do Prêmio Obra do Ano 2026 pelo público do ArchDaily Brasil. Após três semanas de votação pública, mais de 700 projetos foram reduzidos a 15 finalistas, encerrando o processo com três grandes vencedores que representam o melhor da arquitetura lusófona.
https://www.archdaily.com.br/br/1040700/conheca-os-projetos-vencedores-do-premio-obra-do-ano-2026-do-archdaily-brasilArchDaily Team
O trabalho já não acontece em um único lugar. Ele se desloca, se fragmenta e se adapta. Pode começar em um escritório, seguir para uma cabine acústica, passar por um espaço compartilhado e terminar em casa. Nesse percurso, o notebook se torna um elemento constante. À medida que o trabalho se torna mais móvel, as configurações espaciais também passam a acompanhar essa condição.
A Cosmogonia do Capitalismo (Racial). Imagem cedida por Dele Adeyemo.
Exu matou um pássaro ontem com a pedra que só jogou hoje. O provérbio iorubá narra, ao mesmo tempo, uma história de reparação e de ancestralidade, ao dobrar de forma lúdica as convenções de espaço-tempo e acessar o passado por meio de ações no presente. A frase oferece uma entrada poética para tradições mais amplas da África Ocidental e para a prática do artista e arquiteto escocês-nigeriano Dele Adeyemo. Nomeado um dos vencedores do ArchDaily 2025 Next Practices Awards, seu trabalho articula ecologia, espiritualidade, dança e território, investigando como práticas culturais corporificadas podem gerar possibilidades espaciais alternativas, tanto dentro quanto em oposição à arquitetura do capitalismo racial.
Nascido na Nigeria e criado no Reino Unido, Adeyemo visita Lagos há muitos anos. A partir dessa relação, desenvolveu um amplo corpo de pesquisa sobre práticas coletivas de movimento que antecedem o capitalismo e oferecem inteligências espaciais distintas, muitas vezes imaginativas, operando em paralelo aos sistemas dominantes. O ArchDaily conversou com Dele sobre suas práticas artísticas e pedagógicas, e sobre como ele identifica sofisticação projetual onde arquitetos frequentemente percebem carência.
O setor da construção civil enfrenta hoje um paradoxo incontornável: a necessidade urgente de soluções sustentáveis para o futuro das cidades colide com o esgotamento do próprio termo "sustentabilidade", muitas vezes reduzido a um selo comercial vazio. Diante desse cenário, a Arquivo — uma das vencedoras do prêmio Next Practices 2025 do ArchDaily — emerge como uma facilitadora e uma mediadora entre os diferentes agentes no campo da construção a partir da desmontagem – ou ainda, des-construção – e o reuso de elementos construtivos. Etimologicamente, se "construir" deriva do latim construere ("amontoar, reunir"), o prefixo "des-" impõe uma inversão conceitual: não se trata de destruir, mas de desmontar com inteligência para compreender a lógica das partes.
O anúncio do Prêmio Obra do Ano 2026 está próximo, com apenas dois dias restantes para o encerramento da etapa final de seleção. Os três vencedores serão divulgados no dia 16 de abril, após três semanas de votação pública. Os 15 finalistas compõem um retrato do estado atual da arquitetura segundo a opinião do público, que tem votado em suas obras favoritas.
Veja os 15 finalistas e faça parte de uma rede imparcial de jurados responsável por eleger os projetos mais relevantes do último ano construídos em países de língua portuguesa. Nesta etapa final, cada pessoa pode votar em um projeto por dia até o dia 15 de abril às 19h00 (horário de Brasília).
https://www.archdaily.com.br/br/1040553/ultimos-dias-para-votar-nos-finalistas-do-premio-obra-do-ano-2026-do-archdaily-brasilArchDaily Team
Ao longo das últimas duas semanas, a comunidade do ArchDaily Brasil nomeou mais de 14 mil projetos, resultando em 15 finalistas que representam algumas das obras arquitetônicas mais emblemáticas publicadas no último ano. Em sua 10ª edição, o Prêmio Obra do Ano existe para reconhecer o melhor da arquitetura nos países de língua portuguesa, a partir da escolha dos próprios leitores. Os finalistas compõem um retrato do estado atual da arquitetura, seja em projetos residenciais, urbanos, culturais e outros programas.
Representando Brasil e Portugal, os 15 projetos refletem as necessidades de seus contextos específicos por meio de soluções criativas propostas por arquitetos locais. De reformas de interiores a intervenções urbanas de grande escala, passando por residências unifamiliares e projetos comunitários, a seleção é heterogênea, mas unida por um traço comum: o reconhecimento do público, que busca ver suas próprias aspirações representadas.
https://www.archdaily.com.br/br/1040405/os-15-finalistas-do-premio-obra-do-ano-2026-do-archdaily-brasilArchDaily Team
Construir sobre a água significa abrir mão de uma parte da construção que é, literalmente, a base da maior parte do nosso ambiente construído: a própria fundação. Em um ambiente cercado por água, as correntes e a oscilação do nível da superfície são variáveis que simplesmente não podem ser ignoradas, e justamente por isso a característica mais emblemática comum a esses projetos é a sua adaptabilidade.
A arquitetura tem sido tradicionalmente descrita como uma disciplina voltada ao espaço, à forma e à materialidade. No entanto, essa compreensão se mostra cada vez mais limitada diante das condições que moldam a construção contemporânea. Os edifícios já não surgem de uma relação estável entre lugar, programa e matéria. Em vez disso, são produzidos dentro de uma densa rede de sistemas tecnológicos que operam em escalas territoriais, ecológicas e temporais. Redes de energia, infraestruturas de dados, processos de extração e cadeias logísticas globais passam a influenciar a arquitetura de maneira tão decisiva quanto o clima ou o contexto urbano.
Sob essa perspectiva, a arquitetura deixa de ser um objeto isolado e passa a ser entendida como um momento dentro de um campo técnico mais amplo. Cadeias de suprimento, sistemas de dados, manutenção automatizada e redes energéticas não estão “por trás” do ambiente construído — elas o constituem. De certo modo, determinam o que pode ser construído, o que é economicamente viável, como os edifícios se comportam ao longo do tempo e que tipos de resíduos produzem. Quando a arquitetura é analisada principalmente pela forma, corre-se o risco de ignorar os sistemas que condicionam sua produção e seu pós-uso.