“Não consigo ver a arquitetura sem a sociedade”: entrevista com Pedro Campos Costa

“Não consigo ver a arquitetura sem a sociedade”: entrevista com Pedro Campos Costa

No País dos Arquitectos é um podcast criado por Sara Nunes, responsável também pela produtora de filmes de arquitetura Building Pictures, que tem como objetivo conhecer os profissionais, os projetos e as histórias por trás da arquitetura portuguesa contemporânea de referência. Com pouco mais de 10 milhões de habitantes, Portugal é um país muito instigante em relação a este campo profissional, e sua produção arquitetônica não faz jus à escala populacional ou territorial.

Neste episódio da quarta temporada, Sara conversa com Pedro Campos Costa sobre o projeto para o Consulado Geral de Portugal no Rio de Janeiro. Ouça a conversa e leia parte da entrevista a seguir.

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Sara Nunes - Estamos hoje no atelier do Campos Costa Arquitetos, que é um atelier, uma galeria de arquitectura e onde funciona também a Rádio Antecâmara. É uma rádio dedicada à arquitectura – da qual sou ouvinte do podcast, por exemplo “Tela Habitada”, que junta arte e arquitectura e do podcast “Fora de Pé” que fala de arquitectos, no fundo, como eu, que também fazem outras coisas. Aconselho os nossos ouvintes a ouvirem. Pergunto-te, Pedro como nasceu esta vontade de fazer uma rádio sobre arquitectura?

Pedro Campos Costa - Já expliquei um pouco em off uma das razões, mas vou começar por aquela que é a razão física. A história do nascimento da rádio tem a ver com o espaço. Nós mudámo-nos, em Agosto de 2020, durante a pandemia, para este espaço novo que era [antigamente] uma fábrica de pão e uma padaria. Era um espaço que eu procurava, já há bastante tempo, também para fazer uma relação com a rua, uma parte pública não só expositiva, especulativa... até porque eu faço muitos projectos especulativos. Portanto, era uma coisa que eu procurava já há alguns anos. E, durante a pandemia, o espaço da padaria transformou-se numa galeria e numa rádio. Nós já tínhamos mais ou menos a ideia da rádio por causa das montras. [Pretendíamos], fazer programas da rádio nas montras... as pessoas a passarem... Ou seja, [criar] uma relação com a comunidade. Acabou por se desenvolver a partir daí. Outra parte da história tem a ver um pouco com um trauma que eu há pouco expliquei em off. Quando eu fui convidado a dar aulas, em Évora, com o arquitecto Paulo Matos tivemos um ano... isto foi antes da pandemia, mas foi mesmo um bocadinho antes... ou foi durante... Já não me lembro bem. Acho que se passou de um lado para o outro. [Recordo] que tivemos ali um período sem e um período com isolamento que, obviamente, não ajuda. Os alunos estavam muito desmotivados, como é normal. E uma das coisas que, quando dou aulas, também me desmotiva é não conseguir motivar.

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© Leonardo Finotti

Como há pouco eu dizia... talvez em arquitectura seja um pouco indiferente, mas a motivação, para mim, é essencial porque sem paixão e sem interesse por estas disciplinas não se consegue fazer nada. São [disciplinas] muito exigentes. É preciso muito tempo ou tem de se perder muito tempo. É muito difícil ensinar arquitectura. Acho que não se ensina sequer arquitectura. Eu acho que o track... ou seja, o arranque, para o aluno, tem de ser a paixão. Sem a paixão acho que é difícil ser arquitecto. E eu não consegui transmitir isso. A determinada altura, depois de já ter dado as notas, perguntei-lhes o que é que eles seguiam no Instagram visto que, evidentemente, os livros... já está mais do que comprovado que é difícil que eles tenham esse tipo de cultura. Eles, depois de muita resistência – foi preciso eu mostrar todas as páginas que eu sigo e que eles gostaram imenso – lá me mostraram o que é que seguiam. E, de facto, era difícil. Quando não se tem referências e quando não se tem um pouco de cultura, torna-se difícil a comunicação. Isso perturba a comunicação entre nós. Não é só usarmos outras ferramentas, mas é também [perceber] que conteúdos existem nessas ferramentas. Quando fiz a rádio, pensei: «Tem de se fazer uma coisa que eles possam ouvir e que se possa divulgar com muita facilidade e acompanhar.»

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© Leonardo Finotti

SN - E o que é que tens aprendido com esta tua prática de fazer rádio? Ou seja, [com] esta prática de fazer rádio, o que é que transportas para a tua prática profissional? Já disseste que há essa vontade quase de criar uma biblioteca para que os outros possam aprender. Mas, e tu, o que é que aprendes?

PCC - Eu aprendo imenso, mas eu aprendo sempre com tudo aquilo que eu faço no sentido em que... Agora voltando um bocadinho atrás... Tanto o “As Duas Linhas” como o “Sete Círculos” e agora [também] o “Sem Pontos”, que irá ser [lançado] para o ano - são tudo livros com preocupações que eu tenho sobre o território. E, lá está, a rádio também era uma preocupação que eu tinha sobre o grau cultural da arquitectura, ou aquilo que é de mais fácil acesso. É [um meio para] tentar potenciar um acesso a um determinado tipo de cultura, de conhecimento, que não chega facilmente às pessoas. E porque é que não chega facilmente às pessoas? Porque não tem de chegar. Evidentemente os jornalistas ou os media comuns estão focados naquilo que é mais genérico. E é normal. Isto é uma coisa muito específica. Muitos dos podcasts que tu... aliás, os dois que tu disseste até poderiam ser podcasts mais genéricos e poderiam ser transmitidos na TSF, etc. Isso foi uma surpresa muito agradável. Eu aprendi imenso não só ao nível cultural, mas também obviamente no contacto com outros colegas. Ouço muitas histórias muito interessantes. Para mim é fantástico porque estou sempre a aprender, como é evidente.

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SN - Hoje vamos estar à conversa sobre um projecto que nos vai levar até ao Brasil - é o Consulado Geral de Portugal no Rio de Janeiro. A minha mãe é brasileira e lembro-me de na minha infância ir, muitas vezes, ao Consulado resolver uma série de papéis. Principalmente na altura em que a minha mãe ainda não tinha nacionalidade portuguesa e que estavam a tratar também da dupla nacionalidade (minha e dos meus irmãos). De qualquer maneira, eu tenho aqui uma dúvida. Se calhar vais-me ajudar... não sei a diferença entre uma embaixada e um consulado. Existe diferença?

PCC - Existe. A embaixada é a representação máxima do país. Neste caso, [a Embaixada] de Portugal, no Brasil, é em Brasília. E os consulados são agências para fazer os tais papéis que tu dizes. Não têm uma representação política... também têm... mas é neste caso uma delegação da embaixada. Há um Consulado no Rio de Janeiro e um Consulado em São Paulo, por exemplo no Brasil. Não sei se há em mais sítios. Acho que não.

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© Duda Oliveira

SN - Por exemplo, como no Brasil, imagino que há a Embaixada do Brasil aqui em Lisboa. No Porto existe o Consulado. Não existe uma Embaixada.

PCC - Exactamente.

SN - Outra coisa... muitas vezes, ouvimos nas notícias que algumas pessoas se refugiam em embaixadas. Não sei se em consulados isso também acontece.

PCC - Acontece porque é território nacional. Isto é, nacional do país que está a representar.

SN - Pois, era exactamente isso que eu ia perguntar. O consulado é um edifício em que o território dele é português.

PCC - O território é português. Aqui a história é bastante simples de contar no sentido em que é uma espécie de extensão à residência do cônsul, que é o Palácio de São Clemente, em Botafogo. O Palácio de São Clemente é um palácio do princípio do século XX, se não me engano. Portanto, é um edifício relativamente recente. Não está tombado (como dizem os brasileiros). Ou seja, não está no património, não está protegido. Tem um grande valor simbólico não só para os habitantes do Rio de Janeiro, mas também para os portugueses. Houve portugueses emigrantes que ofereceram o edifício. Há uma relação muito simbólica com o edifício. Aquela operação era uma operação complicada. Naquela altura, o Ministério dos Negócios Estrangeiros queria sair de onde estava por várias razões económicas. Porque pagavam bastante, etc... queriam compactar... saía-lhes mais barato fazerem um edifício novo, serem proprietários desse edifício do que estarem a alugar.

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© Leonardo Finotti

E, de facto, naquela operação urbanística, a nossa ideia foi continuar a ser muito invisível. Fazer uma continuação de um jardim que é um jardim incrível, por detrás do palácio, e fazer a continuação daquele embasamento do palácio, fazendo com que ele ficasse quase invisível. Portanto, a ideia vencedora deste consulado é... nós fizemos uma espécie de edifício invisível (podemos dizer). Ele tem uma fachada para a rua – já podemos falar sobre isso porque é uma fachada particular e existem muitas histórias sobre esta fachada –, mas depois para dentro do próprio palácio, para os jardins, para a entrada do palácio, etc. é simplesmente um muro que continua o embasamento do edifício.

Ouça a entrevista completa aqui e reveja, também, a terceira temporada do podcast No País dos Arquitectos:

Nota do editor: A transcrição da entrevista foi disponibilizada por Sara Nunes e Melanie Alves e segue o antigo acordo ortográfico de Portugal.

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Sobre este autor
Cita: Romullo Baratto. "“Não consigo ver a arquitetura sem a sociedade”: entrevista com Pedro Campos Costa" 14 Dez 2022. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/993712/nao-consigo-ver-a-arquitetura-sem-a-sociedade-entrevista-com-pedro-campos-costa> ISSN 0719-8906

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