Como as ciências sociais estão ajudando a transformar o espaço construído

Como as ciências sociais estão ajudando a transformar o espaço construído

Como uma disciplina cada dia mais especializada, a arquitetura está assumindo um caráter cada vez mais colaborativo, marcada por uma transdisciplinaridade que atravessa todas as suas diferentes fases e processos. Neste contexto, as ciências sociais adquiriram um papel mais importante do que nunca. À medida que arquitetos e arquitetas se tornam mais conscientes de seu papel e responsabilidade para com a sociedade de modo geral, decisões que antes provinham de meros desejos, anseios e especulações formais, estão cada vez mais fundamentadas na experiência e expertise profissional dos arquitetos, arquitetas e suas equipes multidisciplinares. A seguir, discutiremos a crescente influencia das ciências sociais na arquitetura, desde a antropologia e a psicologia até a futurologia.

Rush University Medical Center New Hospital Tower  by Perkins+Will . Image © Steve Hall / Hedrich BlessingMoving Kiruna. Image Courtesy of Jessica Nilden3XN's Sydney Fish Market. Image Courtesy of MIRMaggie’s Leeds Centre by Heatherwick Studio. Image © Hufton+Crow+ 7

Procurando respostas simples para projetos complexos

Moving Kiruna. Image Courtesy of Jessica Nilden
Moving Kiruna. Image Courtesy of Jessica Nilden

A atual paisagem social de nossas cidades demanda um maior envolvimento e engajamento das comunidades locais em nossos processos de projeto e intervenções no espaço urbano. Ainda assim, esta não é uma tarefa fácil e tampouco simples, principalmente porque as atribuições de um arquiteto não são suficientes para abarcar toda a complexidade da questão. Este foi o caso do projeto de realocação da população da cidade sueca de Kiruna, um antigo povoado estabelecido junto a uma jazida de ferro e que começou a sofrer com as consequência das atividades de mineração. O projeto ganhou muita atenção na mídia ao longo dos últimos anos, muito pela sua complexidade técnica e humana, abrangendo desde questões sociais, culturais, de identidade, memória e pertencimento, a problemas ambientais, econômicos e políticos. Neste contexto, a estratégia desenvolvida pela equipe do escritório White Arkitekter foi baseada em um amplo e vasto trabalho de pesquisa e coleta de dados elaborado por uma equipe multidisciplinar liderada pela antropóloga Viktoria Walldin. As estratégias de realocação da cidade foram então delineadas considerando a opinião dos cidadãos, resultando no estabelecimento de um conjunto de ferramentas capazes de incentivar e sistematizar o envolvimento da comunidade local nos processos de projeto e tomadas de decisões. Como resultado disso, a equipe de projeto estabeleceu um dialogo com a comunidade, a qual contribuiu decisivamente no desenvolvimento da proposta final para o novo plano diretor de sua futura cidade.

Promovendo uma compreensão holística do espaço

Maggie’s Leeds Centre by Heatherwick Studio. Image © Hufton+Crow
Maggie’s Leeds Centre by Heatherwick Studio. Image © Hufton+Crow

A psicologia ambiental é, de fato, a disciplina que estuda o comportamento humano em suas interrelações com os espaços onde a vida humana transcorre, fornecendo dados precisos que podem ser utilizados em nossos projetos, permitindo que arquitetos e arquitetas tomem decisões mais congruentes e apropriadas sobre configurações espaciais, materiais, cores, iluminação e muitos outros elementos relacionados à arquitetura. A psicologia ambiental surgiu por primeira vez na década de 1960 como resultado da crescente preocupação da arquitetura com a saúde e o bem estar dos usuários. Inicialmente, ela foi aplicada para analisar e avaliar as características de espaços de aprendizagem e ambientes hospitalares, uma ferramenta utilizada por arquitetos e arquitetas para entender melhor como melhor projetar programas arquitetônicos específicos. Mais recentemente, a psicologia ambiental passou a ser utilizada também para investigar como os espaços arquitetônicos afetam a nossa saúde mental, levando os arquitetos a explorarem novos conceitos e metodologias científicas em seus projetos. Nesse sentido, o Centro de Desenho Urbano e Saúde Mental surgiu como uma resposta ao crescente interesse por parte dos profissionais da industria da construção civil, promovendo o desenvolvimento desta área de estudo na arquitetura e estabelecendo um diálogo entre os projetistas e os formuladores de políticas públicas com o objetivo comum de promover a saúde e o bem estar das pessoas.

Informando os Processos de Projeto

3XN's Sydney Fish Market. Image Courtesy of MIR
3XN's Sydney Fish Market. Image Courtesy of MIR

Incorporar as ciências sociais nos processos de projeto nos permite melhor compreender a importância do design centrado no usuário. O departamento de pesquisa do escritório de arquitetura 3XN, o GXN, emprega uma equipe multidisciplinar de arquitetos, antropólogos e cientistas sociais, e está encarregado de explorar novas formas de moldar o comportamento das pessoas através dos espaços construídos, apropriando-se de novos conceitos e estratégias que surgem desta simbiose entre as ciências sociais e a arquitetura. Desta forma, a equipe de pesquisa do GXN desenvolveu uma série de ferramentas específicas, as quais podem ser aplicadas no desenvolvimento de estratégias de projeto centradas no usuário. O Projeto para o Mercado do Peixe de Sydney, desenvolvido pela 3XN, foi desenvolvido considerando o resultado da pesquisa desenvolvido pelo departamento de pesquisa em ciências sociais do escritório, enquanto o projeto de uso misto Church + Wellesley, foi desenvolvido pela equipe do 3XN através de um processo colaborativo envolvendo a comunidade local, o qual foi conduzido pelos pesquisadores do GXN.

Moldando o Futuro do Espaço Construído

ARPA by (ab)Normal & Ludwig Engel for Oslo Architecture Triennale 2019. Image Courtesy of Oslo Architecture Triennale
ARPA by (ab)Normal & Ludwig Engel for Oslo Architecture Triennale 2019. Image Courtesy of Oslo Architecture Triennale

O pensamento especulativo é um elemento intrínseco à arquitetura; entretanto, ao longo das últimas décadas, esta abordagem ganhou vida própria, estabelecendo-como um elemento integral da prática da arquitetura. Ludwig Engel, futurólogo e urbanista responsável pelo projeto ARPA na Trienal de Arquitetura de Oslo de 2019 e pelo Pavilhão 2038 /The New Serenity para a Bienal de Arquitetura de Veneza deste ano, é o cofundador do Interdisciplinary Forum Neurourbanism, um grupo de trabalho de professores universitários, cientistas e profissionais das áreas de psiquiatria, planejamento urbano, psicologia, neurociência, arquitetura, sociologia, filosofia e etnografia, o qual explora e desenvolve projetos voltados para o futuro das cidades, com foco no bem estar físico e mental dos usuários. A equipe multidisciplinar do Neuroubanism procura desenvolver ferramentas que possam auxiliar arquitetos e fazedores de políticas públicas a tomarem decisões mais certeiras, eficientes e sustentáveis em seus projetos, promovendo a qualidade de vida e a saúde física e mental dos usuários no espaço construído.

Sem dúvida, as ciências sociais apresentam uma enorme contribuição para a disciplina da arquitetura, nos permitindo enxergar a realidade com outros olhos, ora reforçando a nossa intuição ora colocando por terra falsas suposições. A integração das ciências sociais na arquitetura e seus processos, portanto, contribui para o estabelecimento de uma prática de projeto baseada no conhecimento empírico e não em meras suposições abstratas, resultando assim, em uma prática profissional mais adequada às reais necessidades das pessoas e suas comunidades.

Este artigo é parte do Tópico do ArchDaily: Arquitetura Multidisciplinar. Mensalmente, exploramos um tema específico através de artigos, entrevistas, notícias e projetos. Saiba mais sobre os tópicos mensais. Como sempre, o ArchDaily está aberto a contribuições de nossos leitores; se você quiser enviar um artigo ou projeto, entre em contato.

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Sobre este autor
Cita: Cutieru, Andreea. "Como as ciências sociais estão ajudando a transformar o espaço construído" [How Social Sciences Shape the Built Environment] 08 Jun 2021. ArchDaily Brasil. (Trad. Libardoni, Vinicius) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/962790/como-as-ciencias-sociais-estao-ajudando-a-transformar-o-espaco-construido> ISSN 0719-8906

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