Eliel Saarinen e a cristalização de uma Finlândia: a Estação de Helsinki

Eliel Saarinen e a cristalização de uma Finlândia: a Estação de Helsinki

Kenneth Frampton, importante crítico arquitetônico, caracteriza um conjunto de obras do século XIX como sendo da “Nova Tradição”: com sua origem situada entre 1900 e 1914, como “um estilo historicista conscientemente modernizado” (1997, p. 255). Propõe esses edifícios como resposta a dois significativos eventos históricos: por um lado, o incipiente modernismo Europeu, tendendo à estética da máquina, ao funcionalismo, à abstração formal; por outro, a consolidação de Estados nacionais que ocorria neste mesmo continente. 

Relação da Estação com o entorno Fonte Finna. Foto Pyykkö A, Valokuvaaja, 1980.Trilhos da Estação e prédio dos Correios à direita, 1983. Fonte jukkajoutsi.comFachada principal da estação em 1922. Fonte Helsingin SanomatInterior da Estação Fonte Helsingin rautatieasema, Högström Hilkka. Foto Eric Sundstrom, 1915.+ 12

É o caso de diversos países nesse período: a Alemanha com a ascensão do Nazismo, a Itália com o Fascismo, a União Soviética, o governo inglês na Índia, etc. São regimes que estão se estabelecendo, e, assim como a história mostra repetidas vezes, a arquitetura serve como meio de representação de poder e ideologia do Estado. Mas, a “tendência modernista a reduzir a forma à abstração fez disso uma maneira insatisfatória de representar o poder” (Frampton 1997, p. 255). Essas nações nascentes buscaram então uma linguagem adequada a expressar seu poder de Estado moderno sem a imprecisão interpretativa da abstração formal, o que em parte explica a sobrevida de “abordagens historicistas na construção” (Frampton 1997, p. 255).

A arquitetura, por sua vez, mostra-se linguagem particularmente adequada a isto: enquanto herança do passado, é documento-monumento; simultaneamente, por seu caráter de construção simbólica do presente, propõe novas construções para o imaginário coletivo (Mello 2020, p. 600-601). Ou seja, a “Nova-Tradição” busca no passado a forma adequada de projetar um presente e um futuro para o Estado e aqueles que o compõe. A Finlândia é uma dessas nações nascentes.

No final do século XIX e começo do século XX, a Finlândia está imersa na criação de uma identidade nacional para esse novo Estado autônomo. A despeito de permanecer um Grão Ducado russo até a independência oficial com a Revolução Bolchevique de 1917, o sentimento nacionalista no período está em ascensão. Como sintetizou A. J. Lagus, professor de Filosofia da Universidade de Turku: “suecos não somos, russos nunca seremos, então sejamos finlandeses” (Lavery 2006, p. 56). Não mais parte do reino Sueco, e com certa independência, na prática, do czarismo russo, o sentimento nacionalista finlandês começa a se moldar.

Isso envolveu diversas medidas, como o direito a um parlamento independente, a consolidação do finlandês como língua oficial ensinado nas escolas, a criação de uma moeda nacional etc. A Kalevala, um poema épico de tradição oral, foi o “foco do revivalismo nacionalista cultural finlandês na literatura, artes visuais e música” (Davies 2017, p. 37). Todavia, este poema influenciou a arquitetura Nacional Romântica apenas indiretamente. A nova arquitetura finlandesa se embasou na “tradição de construção vernacular baseada em edifícios simples em madeira”, mas estava “extraordinariamente aberta a influências do exterior” (Davies 2017, p. 37), com a pequena e unida comunidade de arquitetos finlandeses certamente familiarizados com o Art Nouveau/Jugendstil, e os desenvolvimentos do aço e concreto.

Observa-se esse grande esforço da criação de uma nova arquitetura sintetizado em vários edifícios do período, tais quais: A catedral de São João em Tampere (1899), o pavilhão finlandês para a exposição universal de Paris de 1900, o Museu Nacional Finlandês em Helsinque (1916) etc. Mais relevante para o trabalho, em 1904, Eliel Saarinen projeta a Estação Central de Helsinque.

Obra e cidade - Estação Central de Helsinque, Helsinque, Finlândia

No século XIX, a estação ferroviária era uma novidade no mundo. Pevsner afirma que a primeira estação ferroviária de função moderna – ou seja, com motor a vapor puxando vagões sobre trilhos – é inaugurada em setembro de 1830, conectando Liverpool a Manchester, no Reino Unido (1979, p. 225). É ilustrativa a reação de Fanny Kemble – atriz, parte de uma famosa família de atores ingleses - ao experienciar a novidade: “‘Conto de fadas algum chegou a ser metade da maravilha’ e ‘quando fechava meus olhos, a sensação de estar voando era... estranha além de descrição’” (Pevsner 1979, p. 225); a estação ferroviária era uma maravilha tecnológica do mundo moderno, e havia de ser desenvolvida como tal. Inclusive, por não o fazer inicialmente, o primeiro projeto de Saarinen para a estação (1904) foi alvo de críticas.

A Estação em 1950. Fonte gazeta.ru
A Estação em 1950. Fonte gazeta.ru

Esse se “conformava à norma do gótico pitoresco, incluindo uma torre e pináculo” (Davies 2016, p. 37). Com esse projeto, Saarinen foi acusado - como sintetizou seu rival Sigurd Frosterus - de “recusar ‘nosso estilo finlandês moderno’ por um ‘romantismo acéfalo’” (Davies 2017, p. 38). Saarinen reelabora o projeto, chegando a um produto final que, segundo Ringbom, é de um estilo mais “‘racional’ ou ‘contido’ que aquele do Nacional Romanticismo” (Selonen et al. 2016, p. 8), mas sem abrir mão de um resgate de elementos da cultura finlandesa e da influência Art Nouveau. Pevsner, na mesma linha, afirma que o edifício se insere dentre os exemplos do “estilo moderno”, enfatizando seu plano “ousado”, com a torre posicionado fora do eixo de simetria, e suas formas “ainda mais ousadas”, enfatizando ser um projeto de clara influência da Secessão de Viena (1979, p. 232) - esse último movimento sendo em geral agrupado sob os art-nouveaus europeus, ou como descendente do arts and crafts britânico (Conroy 1979); ou seja, a estação constitui uma arquitetura reativa ao academicismo beaux-art, eclética e de aspirações modernas. Essa inaugura em 1919, e segue sendo um dos grandes feitos dessa busca, ou diálogo, formal entre a tradição e a vontade de ser moderno.

Planta da Estação Fonte Proposta de proteção da Estação central de Helsinque pelo Conselho Nacional de Antiguidades, 2016.
Planta da Estação Fonte Proposta de proteção da Estação central de Helsinque pelo Conselho Nacional de Antiguidades, 2016.
Guardiões da entrada. Foto Jean Marc Charles, 1998.
Guardiões da entrada. Foto Jean Marc Charles, 1998.

Pode-se observar isso nas imagens ao lado: A planta ameaça simetria axial a partir da entrada principal, todavia, a ala leste introduz uma tensão com sua assimetria, se estendendo mais que a oeste, e se ramificando; a posição da torre enfatiza essa assimetria. Os guardiões da entrada também evidenciam o diálogo: grandes estátuas de figuras míticas, em eterna vigília, iluminado a praça, oriundas da mitologia nacional, mas representadas não ao realismo classista, mas “otimizadas”, limpas da maioria dos detalhes de modo a configurarem hermas. Na foto interna também vê-se o embate: observamos pilastras e arcos sem adornos, mas ao mesmo tempo trabalhados de forma escultural, como os sucessivos recuos; o mesmo vale para as concavidades esféricas no teto: assim como as pilastras e arcos, servem função estrutural (diminuir o peso do telhado, no caso das concavidades), mas, sua expressividade não se dá plenamente pela exposição clara, didática, da estrutura, mas sim através do tratamento escultural dessa.

Interior da Estação Fonte Helsingin rautatieasema, Högström Hilkka. Foto Eric Sundstrom, 1915.
Interior da Estação Fonte Helsingin rautatieasema, Högström Hilkka. Foto Eric Sundstrom, 1915.
Fachada principal da estação em 1922. Fonte Helsingin Sanomat
Fachada principal da estação em 1922. Fonte Helsingin Sanomat
Estacao Karlsplatz Stadtbahn de Otto Wagner. Fonte Wien Museum. Foto Lisa Rastl, sem data.
Estacao Karlsplatz Stadtbahn de Otto Wagner. Fonte Wien Museum. Foto Lisa Rastl, sem data.

Por fim, a influência da Secessão de Viena parece evidente, especialmente justapondo a Karlsplatz de Otto Wagner à estação de Saarinen: a primeira parece um recorte feito em ferro da segunda, e exibe todas as tensões antes mencionadas – apesar de poder se tratar de uma coincidência formal: a luneta e o galpão constituem um arquétipo, um símbolo da estação de trem, muito repetido na história (Pevsner 1979, p. 228- 232). Feita essa breve exposição, podemos afirmar que como objeto arquitetônico, a estação de Saarinen reflete seu contexto histórico. Por se tratar de arquitetura estatal (construída pela à época pelas Ferrovias Estatais Finlandesas, hoje grupo VR – ainda do Estado), que sua implantação também seja simbólica. É o que se verá a seguir.

espacialização 2019
espacialização 2019

O edifício de Saarinen tem uma implantação não só pragmática - o melhor local para uma ferrovia - mas também representativa. Conforma uma praça delimitada por sua fachada leste, junto do Teatro Nacional Finlandês, e um dos edifícios da Galeria Nacional Finlandesa (Ateneum); e, em sua fachada oeste, com o Prédio dos Correios e outro edifício da Galeria Nacional Finlandesa (Kiasma). Algumas quadras ao sudeste, observa-se a Universidade de Helsinque, a prefeitura, a Catedral de Helsinque – também delimitando uma praça. A noroeste, o Parlamento também se encontra a curta distância. Todos estão conectados através de vias arteriais. Chegando, saindo ou atravessando Helsinque, de carro ou trem, esses locais tornam-se ponto de convergência de tráfego, e assim, local privilegiado para o ver, e consequentemente, à representação do Estado.

Trilhos da Estação e prédio dos Correios à direita, 1983. Fonte jukkajoutsi.com
Trilhos da Estação e prédio dos Correios à direita, 1983. Fonte jukkajoutsi.com

Figura-se então um eixo monumental em Helsinque, onde a estação, quer pela importância da função ou pelo tamanho oceânico, é figura central. Ou seja, em sua interação com a metrópole, a obra de Saarinen, junto do resto dos edifícios oficiais, criam espaços, praças, oficiais, civis: São, por excelência, o espaço do público e da democracia. Circunscritos por programas desse tipo, tornam-se espaço da cultura finlandesa, do que é ser Finlandês. Temos nesses espaços vazios metropolitanos destituídos de qualquer obstáculo: ponto privilegiado para se ver, literalmente, a grandeza econômica, política e cultural desse Estado.

A Estação Ferroviária Central de Helsinque de Saarinen – como objeto arquitetônico e como implantação urbana - cristaliza uma Finlândia e o que se esperava que fosse um finlandês.

Referências bibliográficas
CONROY, Sarah Booth. Secession. Washington Post, 1979. Disponível em: https://www.washingtonpost.com/archive/lifestyle/1979/01/14/secession/f2846362-5dd6-4d4f-b183-0dce330171a9/. Acesso em 31/10/2020 às 15:05.
DAVIES, Colin. National Romanticism, the new tradition and the beaux-arts 1893 -1923. In_____. A New History of Modern Architecture. London: Laurence King Publishing Ltd, 2017. p. 36-49
FRAMPTON, Kenneth. Arquitetura e Estado: ideologia e representação 1914-43. In____. História Crítica da Arquitetura Moderna. São Paulo: Martins Fontes, 1997. p. 255- 270.
LAVERY, Jason. The Creation of Autonomous Finland (1809 - 1890). In_____. The History of Finland. London: Green Wood Press, 2006. p. 51-70.
MELLO, Joana. A construção do nacional: Ricardo Severo e a Campanha de Arte Tradicional. Varia Historia, Belo Horizonte, v. 35, ed. 68, p. 527-629, mai/ago. 2020.
PEVSNER, Nikolaus. Railway Stations. in____. A History of Building Types. Princeton: Princeton University Press, 1979. p. 225-234.

Sobre este autor
Cita: Thomas Butler. "Eliel Saarinen e a cristalização de uma Finlândia: a Estação de Helsinki" 25 Dez 2020. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/953913/eliel-saarinen-e-a-cristalizacao-de-uma-finlandia-a-estacao-de-helsinki> ISSN 0719-8906

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