A cidade entubada também precisa de cura

A cidade entubada também precisa de cura

Quando a realidade nos exige respostas complexas e inéditas, um dos métodos mais interessantes para buscar respostas é o da biomimética, que consiste em fazer perguntas para a natureza em busca de inspiração. Neste sentido, vale a pena perguntar: como a natureza lida com situações emergenciais, onde o comportamento de um organismo precisa ser modificado rapidamente?

Entendendo aqui a cidade como um organismo e a pandemia como um situação emergencial, podemos fazer paralelos interessantes com a reação do corpo em perigo.

Quando o corpo humano se vê em uma situação de perigo, assume uma série de funções involuntárias com o objetivo de deixá-lo preparado para lidar com a situação emergencial. Ele recebe uma descarga de hormônios que aumentam sua sensibilidade e reflexo. Seus membros inferiores e superiores ficam mais irrigados para ganhar força e agilidade, sua frequência cardíaca aumenta, sua pupila se dilata para ampliar o campo de visão e a respiração fica ofegante, dando-lhe oxigênio extra para lutar ou fugir. Esta preparação também pode provocar muitas reações adversas como palidez e dor no estômago. Isso porque o corpo muda suas prioridades por um determinado instante, desequilibrando nossas funções comuns. A palidez, por exemplo, ocorre porque o corpo prioriza a irrigação dos membros, reduzindo a quantidade de sangue na pele.

É isso que chamamos de estresse, uma maravilhosa inteligência do corpo que possibilitou a sobrevivência de nossos antepassados frente a situações de vida ou morte, lutando contra inimigos ou fugindo de animais ferozes. Mesmo hoje em dia, podemos nos valer do estado de estresse em situações pontuais para conseguir realizar atividades urgentes com foco e energia. Mas, infelizmente, nos dias de hoje ele acabou se tornando mais um problema do que uma benesse. Isso porque o estresse contemporâneo nem sempre está relacionado a situações extraordinárias, mas a problemas corriqueiros do nosso estilo de vida que deixam o corpo em alerta constante, como a pressão no trabalho ou a falta de dinheiro. Dessa forma, o corpo acaba experimentando de forma duradoura uma alteração física que era para ser vivida apenas por um período curto de tempo e isso pode gerar consequências gravíssimas a nossa saúde.

A pandemia comprometeu o funcionamento das nossas cidades porque o que dá sentido à sua existência é seu movimento constante. É ele que possibilita a interação entre as pessoas, fazendo da cidade um local de oportunidades para diferentes tipos de habitantes. Mais do que a casa, é a proximidade entre elas. É a possibilidade de se deslocar pelas ruas, de ir para diversos locais no mesmo dia, de se encontrar nos espaços públicos, de compartilhar das mesmas infraestruturas.

Certamente, sairemos desta pandemia um tanto mais paranóicos e isso pode nos levar a uma visão de cidade futurista bastante distópica.

No entanto, não podemos esquecer que o vírus se vale do nosso comportamento contra nós. É através daquilo que nos faz humanos que ele se multiplica e portanto, o caminho não é obedece-lo, pois isso seria ir de encontro aquilo que somos. Tomemos como exemplo o HIV. Ele se propaga através do sexo e isso nos leva a duas formas de detê-lo: reduzir ao máximo a atividade sexual ou, ciente de sua ameaça, transar de forma segura. Conservadores e religiosos muitas vezes defenderam a primeira opção (pelo menos, da boca pra fora), classificando a AIDS como um castigo frente ao “pecado da promiscuidade”. Mas, tudo indica que o HIV é somente mais um dos muitos parasitas que existem na natureza e, nos culpar pelo dano que ele causa, dá margem para culparmos a pobre amendoeira por ter sido sufocada até a morte pela erva daninha. Se houver algum significado para além do processo evolutivo, faria mais sentido interpretar que o HIV é a prova de que somos seres transantes e o Corona é a prova de que nós adoramos ficar juntos fisicamente.

Infraestrutura urbana. Foto de Alex, via Unsplash
Infraestrutura urbana. Foto de Alex, via Unsplash

A pandemia não pode ser encarada como o “novo normal”. Ao mesmo tempo, não podemos ignorá-la nem perder a oportunidade de aprender com ela. Outras virão e nós precisamos estar mais preparados. Nossas cidades se mostraram ineficientes nesta batalha e a principal forma que utilizamos para reduzir a dimensão dessa tragédia foi ir de encontro aquilo que é sua razão de existir, impedir a interação entre as pessoas.

A pandemia deixou claro que nosso corpo urbano não tem a agilidade do nosso corpo humano para lidar com situações de perigo. Seu metabolismo não é tão ágil e, por isso, tivemos que deixá-la “entubada”, com apenas funções vitais sendo executadas, enquanto tentamos curá-la.

Uma das diferenças entre o corpo humano e o urbano é que o design da natureza é muito mais flexível e multifuncional do que os que nós costumamos criar. Cada equipamento urbano costuma ser concebido para realizar apenas uma única função e, quando esta não se faz necessária, ele se torna um desperdício de espaço, matéria prima e energia. Os auditórios e estádios, por exemplo, passam muito mais tempo parados do que em uso. Muitas escolas costumam ficar fechadas fora dos períodos de aula. As fábricas, quando seus produtos não tem vazão, são um estorvo. As avenidas, projetadas para ficarem lotadas na hora do hush, constituem a maior parte de nosso espaço público e são subutilizadas no resto do dia.

Assim, quando existe uma necessidade urgente de leitos hospitalares, a China se vangloria de ter construído um hospital inteiro em 20 dias, um enorme esforço e custo e que agora já está sendo desativado. Um pouco menos dispendioso são as adaptações de estádios a espaços de eventos em hospitais de campanha mas, claramente, são soluções paliativas, não previstas. Estes espaços não estão preparados para receber equipamentos de UTI, por exemplo, tornando a sua adaptação para terapia intensiva ainda mais complexa. Será que a cidade não poderia ser projetada para que o uso dos espaços e dos equipamentos urbanos fossem mais flexíveis, reduzindo sua ociosidade, dando conta de necessidades cotidianas, mas também das emergenciais, possibilitando transformações ágeis e baratas, assim como o corpo humano transfere o fluxo sanguíneo de um lugar para o outro do corpo em questão de segundos? 

Neurônios. Cortesia de Questtonó
Neurônios. Cortesia de Questtonó

Será que a única forma de combater uma pandemia é parar a cidade? Uma teoria levantada por alguns políticos, figuras midiáticas e quase nenhum especialista, foi a de que, ao invés disso, seria possível fazer um isolamento vertical, ou seja, isolar somente o grupo de risco (idosos e pessoas com comorbidades), testar maciçamente a população, e isolar os contaminados. De fato, esta seria uma solução muito menos impactante para a sociedade, pois permitiria que boa parte da força de trabalho e das atividades econômicas pudessem se manter ativas. No entanto, ela se mostra completamente inverossímil, quando falamos das cidades atuais, especialmente nos países em desenvolvimento.

Isso porque, de acordo com o Ministério da Saúde, somente a hipertensão, que é uma das comorbidades, atinge um quarto dos brasileiros que vivem em cidades. Pessoas acima de 60 anos são quase 15% segundo o IBGE. Ou seja, sem levar em consideração o resto das comorbidades existentes, já estamos falando de um terço da população. Como isolar um grupo deste tamanho? Nem ocupando todos os hotéis e prédios desativados daríamos conta e o custo desse isolamento seria inimaginável. Quem propõe algo deste tipo não fez as contas, não elaborou claramente esta logística e, tão pouco levou em consideração que, no Brasil, poucos idosos moram sozinhos. A grande maioria vive em casas cheias de parentes.

No entanto, a teoria de isolamento vertical, que hoje é uma falácia egoísta, pode ser um caminho real no futuro mas, para isso, precisamos estar preparados e não pegos de sopetão.

Muito se falou sobre as tecnologias empregadas na China e Coreia que usaram os dados captados pelos celulares, câmeras e aparelhos que medem a temperatura dos cidadãos, para conseguir mapear onde estão os doentes, isolá-los e acompanhar as pessoas que tiveram contato com eles. Esta é, sem dúvida, uma lógica que aponta o caminho futuro para o combate a pandemias em metrópoles sem ter que criar um isolamento social tão severo como este que estamos presenciando no mundo todo. Mas ele ainda é impreciso para dar conta, pouco disseminado em escala mundial e polêmico. Impreciso porque ainda não temos um nível de monitoramento da nossa saúde em tempo real que nos permita saber se estamos infectados antes que a doença apresente sintomas, impedindo o diagnóstico de assintomáticos. Pouco disseminado porque não são muitos os governos e cidades que adotaram completos sistemas de vigilância, como os asiáticos. Polêmico porque está relacionado a um das grandes discussões contemporâneas: a privacidade de dados. O filósofo Byung-Chul Han descreveu a forma como o governo sul coreano usou dados para controlar a pandemia:

Neurônios. Cortesia de Questtonó
Neurônios. Cortesia de Questtonó

“Com os dados do telefone celular e do material filmado por vídeo é possível criar o perfil de movimento completo de um infectado. São publicados os movimentos de todos os infectados. Casos amorosos secretos podem ser revelados. Nos escritórios do Ministério da Saúde coreano existem pessoas chamadas “tracker” que dia e noite não fazem outra coisa a não ser olhar o material filmado por vídeo para completar o perfil do movimento dos infectados e localizar as pessoas que tiveram contato com eles.”

Na China este sistema de vigilância por dados contou até com drones que seguiam as pessoas que furavam a quarentena. Não é difícil imaginar a ameaça a liberdade individual que esta política de vigilância pode ser. “Espero que após a comoção causada por esse vírus não chegue à Europa um regime policial digital como o chinês. Se isso ocorrer, como teme Giorgio Agamben, o estado de exceção passaria a ser a situação normal. O vírus, então, teria conseguido o que nem mesmo o terrorismo islâmico conseguiu totalmente.”, complementa Byung. No entanto, não podemos negar sua eficácia dessa vigilância em situações como esta, apesar dela ainda não suplantar a necessidade do lockdown, fato que foi divulgado erroneamente em diversas fake news de quem quer acabar com o isolamento. 

Mas aqui vale fazer novamente um paralelo com o corpo em situações de emergência. As câmeras de vigilância e celulares são o equivalente aos nossos sentidos: olhos que veem uma cena de perigo, ouvidos que escutam uma notícia preocupante, a pele que sente o calor de um incêndio nas proximidades. Estes dados coletados são processados no cérebro que declara emergência, liberando substâncias químicas. Portanto, ele processa as informações e toma uma atitude, mas não controla todo o processo, contando com atividades autônomas de diversos sistemas. O sistema circulatório transfere seu contingente para as zonas prioritárias, o respiratório passa a trabalhar mais. O cérebro processa os dados, mas depende de sistemas autônomos para funcionar. Ele não monitora cada glóbulo branco, por exemplo, mas estes seguem combatendo celular intrusas diariamente. Da mesma forma, podemos pensar que a cidade mais eficiente para uma pandemia, não precisa ser um estado policialesco que centraliza as informações e controla os comportamentos. 

“Monitoramento centralizado e punições severas não são a única maneira de fazer as pessoas cumprirem diretrizes benéficas. Quando as pessoas são informadas dos fatos científicos e quando as pessoas confiam nas autoridades públicas para lhes contar esses fatos, os cidadãos podem fazer a coisa certa, mesmo sem um Big Brother vigiando seus ombros. Uma população motivada e bem informada é geralmente muito mais poderosa e eficaz do que uma população ignorada e policiada.” (Yuval Noah Harari).

A cidade adaptada a pandemia não é aquela que entende a situação de estresse como a normalidade, mas aquela que está preparada para o estresse de modo a lidar com ele de forma rápida e eficiente, assim como nosso corpo faz. Do contrário, criaremos um cidade doente, assim como os indivíduos modernos ficam doentes quando estão sob estresse constante.

Para isso, precisamos evoluir em 3 caminhos:

Flexibilidade: A capacidade do corpo urbano se adaptar para responder rapidamente a emergência. Não precisamos de UTIs ociosas, mas de um plano rápido de expansão de UTIs. Não precisamos de milhares de respiradores ociosos, mas de fábricas mais flexíveis que possam se adaptar rapidamente para a produção de respiradores e projetos de respiradores pensados para serem produzidos rapidamente. Precisamos fabricar, ou ter como fabricar rapidamente, máscaras de proteção. Ficou evidente que um país não é de todo soberano quando depende da importação do outro lado do mundo de um artigo tão simples e importante quanto este. Precisamos pensar em como o transporte coletivo e o comércio podem manter certo nível de atividade de maneira segura adaptando-se às situações de distanciamento social e também como profissionais de diferentes áreas podem já estar preparados para ajudar em situações de emergência.

Dados: Somente com mais dados um cidadão poderia saber se está em perigo ou colocando outras pessoas em perigo. Somente com mais dados poderíamos descobrir quem é assintomático e também filtrar melhor o grupo de risco de forma a poder dar o devido apoio e reduzi-lo a um número onde seja factível isolar, se isso ainda for necessário. Dados abertos e acessíveis a todos podem tornar o cidadão um agente em prol da solução.

Conscientização: Um cidadão tem direitos e deveres e sua disponibilidade para exercer suas obrigações está diretamente ligada a quanto ele sente que seus direitos são atendidos. Por isso, o direito a cidade é parte da solução. É preciso dar autonomia, informação e condições dignas para que um indivíduo possa ser um agente ativo no combate a uma situação emergencial assim como, somente em um corpo saudável o sistema imunológico funciona de forma eficiente. Um cidadão é capaz de aprender novas condutas cotidianas sem repressão, apenas por consciência do perigo que pode oferecer a si mesmo e aos outros. Muitos hábitos enraizados no nosso cotidiano não eram comuns aos humanos. Lavar a mão, usar camisinha, escovar os dentes. Novos hábitos estão sendo construídos e isso é fundamental. Álcool gel nos estabelecimentos comerciais. Normalizar o uso de máscaras, não só numa situação de pandemia, mas para ser usada por quem está gripado. É preciso conscientização para que aprendamos a se proteger do vírus, ao invés de se curvar a ele.

Existem muitos casos de sucesso acontecendo nestes 3 caminhos apontados. Como exemplo, cito o avanço dos métodos ágeis de projetar e fabricar, a disseminação do uso de dados e estatística para avaliar tomadas de decisões, bem como para informar a população, utilizando elaborados infográficos para explicar temas complexos como exponencialidade e o tal achatamento da curva. Esta crise está contribuindo para acelerar esse avanço mas está claro que nossa sociedade e nossas cidades ainda estão longe de atenderem adequadamente a estes caminhos. Enquanto isso, nos resta ficar o máximo possível isolados e atentos para aprender com a crise, pois ela aponta caminhos, nem que seja pelos nosso erros.

Temos a oportunidade de criar corpos urbanos muito melhores, capazes de evoluir com situações de estresse, aumentando sua saúde, ou sucumbir a um estado de estresse constante que vai adoecê-la ainda mais.

A pandemia não pode ser o novo normal, tão pouco a cidade que existia antes dela.

Via Instituto a Cidade Precisa de Você. Esse ensaio faz parte da campanha #saudadedarua. Confira mais sobre no instagram @acidadeprecisadevoce.

Barão Di Sarno é designer, futurista e ativista. É sócio-fundador da Questtonó, consultoria de inovação e design e vice-presidente do Instituto A Cidade Precisa de Você. 

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Sobre este autor
Cita: Barão Di Sarno. "A cidade entubada também precisa de cura" 02 Mai 2020. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/938637/a-cidade-entubada-tambem-precisa-de-cura> ISSN 0719-8906

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