Estudantes brasileiros são finalistas em concurso internacional para a Embaixada da República Tcheca na Etiópia

Estudantes brasileiros são finalistas em concurso internacional para a Embaixada da República Tcheca na Etiópia

O resultado do concurso internacional de estudantes para projetar a Embaixada da República Tcheca em Adis Abeba, capital da Etiópia, promovido pela parceria entre o Ministério das Relações Exteriores da República Tcheca e pelo Departamento de Arquitetura da CTU (Czech Technical University) em Praga, foi divulgado recentemente. A equipe brasileira, composta por Augusto Longarine, Luiz Sakata e Teo Butenas Santos, da FAU USP, foi finalista entre 281 propostas de 38 países diferentes.

Conheça a proposta a seguir, acompanhada do memorial enviado pela equipe. 

© Augusto Longarine, Luiz Sakata e Teo Butenas Santos
© Augusto Longarine, Luiz Sakata e Teo Butenas Santos

O eixo escavado

O gesto inaugural do projeto é o traçado de um eixo viário que cruza o terreno e conecta duas portarias opostas, a leste e a oeste, organizando de maneira simples e precisa toda a complexa logística necessária para o bom funcionamento de uma embaixada. O eixo mergulha de ambas as extremidades em direção ao centro do terreno, onde ao interseccionar o edifício, conforma uma praça rebaixada.

O rebaixamento do eixo se espelha na tradicional maneira de se construir igrejas - edifícios representativos por excelência – na Etiópia, escavando o solo rochoso até que se sobre apenas o volume monolítico da edificação, rodeado por um grande fosso. Tal técnica construtiva faz com que os visitantes adentrem o espaço escavado ao mesmo tempo em que as paredes circundantes se elevam sobre suas cabeças, trazendo uma sensação de grandiosidade mesmo em um edifício relativamente baixo. O visitante da Embaixada se sente como alguém que adentra uma das belas e imponentes igrejas de Lalibela.

© Augusto Longarine, Luiz Sakata e Teo Butenas Santos
© Augusto Longarine, Luiz Sakata e Teo Butenas Santos

Unidade na separação

Do fosso escavado elevam-se quatro monolitos organizados linearmente, como parte de um único bloco gradativamente rasgado para permitir a comunicação física e visual entre um lado e outro do terreno. Pousada sobre os blocos, a cobertura metálica proposta protege as áreas de circulação das chuvas características da região e os blocos programáticos da insolação direta, formando um colchão de ar termicamente eficiente ao clima quente e úmido de Addis Ababa. Visualmente, reintegra os quatros blocos em uma estrutura única, um mesmo conjunto arquitetônico.

© Augusto Longarine, Luiz Sakata e Teo Butenas Santos
© Augusto Longarine, Luiz Sakata e Teo Butenas Santos

Muros habitáveis

O que define arquitetonicamente uma embaixada são, antes de tudo, seus muros. Uma embaixada é uma área protegida, um espaço seguro. Um país dentro de um país. Foi nas centenas de castelos espalhados pelo relevo montanhoso típico da República Tcheca onde se buscou inspiração para a organização funcional da Embaixada. Castelos são, historicamente, representações de poder político e evocam segurança e proteção – tal como uma embaixada. Observando inúmeros exemplares do vernacular tcheco, é perceptível como, em geral, os mesmos muros que protegem o interior e definem o espaço construído, conformam espaços em si. Os muros, mais do que isolar a edificação, se tornam parte dela.

© Augusto Longarine, Luiz Sakata e Teo Butenas Santos
© Augusto Longarine, Luiz Sakata e Teo Butenas Santos
© Augusto Longarine, Luiz Sakata e Teo Butenas Santos
© Augusto Longarine, Luiz Sakata e Teo Butenas Santos

As fronteiras da Embaixada foram pensadas não como meros centímetros de cimento e aço, mas como massas de programa que dão espessura a esses “muros habitáveis”. Na divisa sul, a seção consular e de vistos, parte mais pública do programa, ocupa o espaço entre-muros, tornando-se a fronteira literal e simbólica entre as duas nações. 

© Augusto Longarine, Luiz Sakata e Teo Butenas Santos
© Augusto Longarine, Luiz Sakata e Teo Butenas Santos

Os programas mais internos ao terreno organizam-se também como parte de um muro habitado. Duas paredes fragmentadas de pedras se elevam paralelas a leste e oeste, definindo o grande bloco central. Entre elas, dispõem-se os quatro conjuntos de programa, protegidos visualmente do exterior. Os muros se tornam arquitetura.

© Augusto Longarine, Luiz Sakata e Teo Butenas Santos
© Augusto Longarine, Luiz Sakata e Teo Butenas Santos
© Augusto Longarine, Luiz Sakata e Teo Butenas Santos
© Augusto Longarine, Luiz Sakata e Teo Butenas Santos
© Augusto Longarine, Luiz Sakata e Teo Butenas Santos
© Augusto Longarine, Luiz Sakata e Teo Butenas Santos
© Augusto Longarine, Luiz Sakata e Teo Butenas Santos
© Augusto Longarine, Luiz Sakata e Teo Butenas Santos

Arquitetura de pedras

Quando pensamos em solidez, força e proteção, o que vem à mente são novamente as imponentes muralhas de pedras dos castelos europeus. Mas também no vernacular etíope o uso da pedra está fortemente associado à arquitetura desde suas cidades mais antigas. Não é a toa que Gondar foi construída de pedras. Contando com 57 vulcões, a Etiópia é um dos países mais vulcânicos da Terra, e sua paisagem é repleta de depósitos de pedras basálticas. Por serem abundantes localmente, tais pedras são responsáveis pela materialidade externa do bloco central, bem como pelo revestimento das laterais do eixo rebaixado (muros de contenção). Esse mesmo material, usado de duas maneiras distintas, integra duas forças opostas: arquitetura esculpida em pedra do eixo e arquitetura construída de pedra do volume central.

Paredes multifuncionais

As duas faces que delineiam os blocos de programa, apesar de robustas na expressão, diferem dos antigos castelos apresentando uma abordagem contemporânea: não são sólidas como os muros de contenção, mas vazadas pela irregularidade das pedras. A disposição dessas pedras entre duas grades metálicas distanciadas em 50cm cria aberturas naturais para ventilação e iluminação, transformando esse imponente muro de pedras em um véu protetor. Essa espessa membrana filtra a luz através de pequenas aberturas de variados tamanhos permitindo a passagem de elegantes feixes de luz que iluminam os espaços cotidianos da Embaixada. Permite a ventilação natural constante e renovação do ar no interior dos blocos ao mesmo tempo em que protege as fachadas internas das agressões naturais do ambiente. 

© Augusto Longarine, Luiz Sakata e Teo Butenas Santos
© Augusto Longarine, Luiz Sakata e Teo Butenas Santos
© Augusto Longarine, Luiz Sakata e Teo Butenas Santos
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Sobre este autor
Cita: Romullo Baratto. "Estudantes brasileiros são finalistas em concurso internacional para a Embaixada da República Tcheca na Etiópia" 27 Out 2019. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/927219/estudantes-brasileiros-sao-finalistas-em-concurso-internacional-para-a-embaixada-da-republica-tcheca-na-etiopia> ISSN 0719-8906

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