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O canteiro de obras no mutirão autogestionário

O canteiro de obras no mutirão autogestionário
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As transformações no modelo de produção de construção civil propostas historicamente por movimentos de moradia nos Mutirões Autogeridos no Brasil, em relação aos modos de produção para o mercado, não se limitam à mão de obra responsável por empreender a construção, isto é, não se trata apenas de uma troca de trabalho assalariado por trabalho mutirante desmercantilizado. As inovações passam por diversas esferas, desde o projeto arquitetônico - pensado a partir de uma perspectiva coletiva e enquanto bem comum que coloca o mutirante como "autor, produtor e futuro usuário" -, até o modo de produção no qual, diferente do modelo tradicional, “não é possível aumentar a produtividade através da ampliação da exploração, com precarização, horas extras, demissões, mas somente através da invenção de novos procedimentos e técnicas construtivas”. Esse tema é assunto de discussão para muitos arquitetos, tanto no campo teórico, quanto na experimentação e prática, onde a obra passa a ser palco de um esforço pela racionalização, otimização e horizontalidade nos processos. 

Processo de projeto junto aos futuros moradores. Imagem © USINA CTAH
Processo de projeto junto aos futuros moradores. Imagem © USINA CTAH

A postura do arquiteto em relação ao cliente é uma das facetas da interferência de um outro modelo produtivo em relação àquele já estabelecido e seus agentes tradicionais. No caso dos mutirões, onde existe a necessidade de pensar e desenhar frente a frente com a população, de se aproximar de outras classes sociais, lidar com um confronto de referências entre o técnico e o mutirante, surge a necessidade de desenvolver algumas metodologias de discussão de projetos coletivos. Essa função é parte das atribuições dos arquitetos que trabalham em assessorias técnicas com projetos participativos.

Vista do Mutirão Florestan Fernandes e José Maria Amaral. Imagem © Gabriela Pini
Vista do Mutirão Florestan Fernandes e José Maria Amaral. Imagem © Gabriela Pini

A coletivização do processo, pretendida por este modo de produção, se inicia nas etapas prévias à obra: na busca por terrenos disponíveis na cidade, na elaboração do projeto, desenvolvido a partir do diálogo com as assessorias técnicas e da apropriação do projeto pelos mutirantes; e, na sequência, após a conquista da terra, na organização das famílias beneficiárias em equipes (comissões) para a gestão e trabalho na obra. Essas comissões costumam se organizar em três núcleos: execução dos trabalhos no canteiro (alvenaria, laje, argamassa, elétrica, hidráulica, carpintaria, ferragem e serralheria); administração (almoxarifado, comissão de compras e coordenação financeira); e apoio (enfermaria, segurança, prevenção de acidentes, cozinha comunitária, comunicação e eventos).

O modelo vigente de produção da construção civil apresenta uma discrepância em relação ao desenvolvimento industrial de outros setores, mantendo-se o processo manufatureiro, o que segundo a perspectiva de Sergio Ferro, arquiteto que se dedicou a refletir sobre as relações de trabalho no canteiro, trata-se de uma condição atrasada tecnologicamente e, ao mesmo tempo, contemporânea economicamente, vide o enorme fluxo de capital e mão de obra no setor. A manutenção da manufatura no canteiro de obras, caracterizada pelo grande volume de mão de obra e pouco maquinário, atende à manutenção e/ou aprofundamento da acumulação capitalista, à medida que garante o maior lucro que os setores industriais avançados, fruto da exploração do trabalho humano e extração da mais-valia.

Outros ganhos interessantes são visíveis e recorrentes no processo de mutirões autogestionários. O protagonismo das mulheres no trabalho no canteiro e das comissões é notável desde a primeira aproximação com esse modo de produção. Configura-se ali um espaço de empoderamento muito forte, a partir da apropriação destas mulheres em relação a todos os aspectos e etapas da produção, em que a participação no mutirão se desdobra, na sequência, em lutas por autonomia em relação à opressão de gênero e a discussão da divisão sexual do trabalho. Diante da produção hegemônica da construção civil, predominantemente dominada pela mão de obra masculina, a presença das mulheres nos mutirões ganha especial força.

Mutirantes no Centro Comunitário da Juta durante as obras do Mutirão. Imagem © USINA CTAH
Mutirantes no Centro Comunitário da Juta durante as obras do Mutirão. Imagem © USINA CTAH

Além disso, do ponto de vista técnico, os projetos realizados sob regime de mutirão ligados aos movimentos de moradia também representaram historicamente a possibilidade de empregar técnicas construtivas inovadoras que se distanciam das formas tradicionais de construção voltadas à habitação de interesse social. A redução de custos e otimização dos processos, característica desse regime, abrem possibilidades para investimento e experimentação construtiva em muitos casos, o que reitera a hipótese de que trata-se de um tipo de obra que tem grande potencial de aproximação com os processos industriais.

Vista do Mutirão Paulo Freire. Imagem © USINA CTAH
Vista do Mutirão Paulo Freire. Imagem © USINA CTAH

Todas as citações foram retiradas de ARANTES, Pedro Fiori. 'Arquitetura Nova . Sérgio Ferro, Flávio Império e Rodrigo Lefèvre, de Artigas aos mutirões'. São Paulo, Editora 34, 2002.

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Sobre este autor
Cita: Julia Brant. "O canteiro de obras no mutirão autogestionário" 15 Set 2019. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/924661/o-canteiro-de-obras-no-mutirao-autogestionario> ISSN 0719-8906

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