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O conceito “ma” para Arata Isozaki: um modo de ver o mundo

O conceito “ma” para Arata Isozaki: um modo de ver o mundo
O conceito “ma” para Arata Isozaki: um modo de ver o mundo, Shorin-zu Byobu - lado esquerdo de um díptico da autoria de Hasegawa Tohaku. Image via Wikipédia
Shorin-zu Byobu - lado esquerdo de um díptico da autoria de Hasegawa Tohaku. Image via Wikipédia

Arata Isozaki é o sétimo arquiteto japonês a ser laureado pelo Prêmio Pritzker. Para além da importância de sua produção arquitetônica, Isozaki teve papel fundamental na divulgação da cultura nipônica para o Ocidente. Em 1978, por exemplo, concebeu a exposição “Ma: Espaço-Tempo do Japão” para o Museu de Artes Decorativas de Paris, a qual tinha o propósito de apresentar a noção japonesa de espaço e tempo para o resto do mundo por meio do conceito “ma”. 

Jardim do Santuário Oyama - Kanazawa - Japão. Image Cortesia de Marina Pedreira de Lacerda
Jardim do Santuário Oyama - Kanazawa - Japão. Image Cortesia de Marina Pedreira de Lacerda

Conforme explica a pesquisadora Michiko Okano, “ma” é um princípio que está intrínseco nos hábitos e nas manifestações culturais japonesas. Com diversas semânticas, “ma” pode significar tanto o intervalo entre as coisas – o espaço entre objetos, o silêncio entre sons ou a quietude entre as ações – como a sobreposição do espaço e tempo, como prefere Isozaki. Segundo ele, “o tempo e o espaço são absolutos, homogêneos e infinitos no Ocidente, enquanto, no Japão, são moventes, criando uma relação entre si, em permanente estado de interdependência, emaranhados de maneira indissolúvel” [1].

via © PLANE—SITE
via © PLANE—SITE

A noção de “ma” é imprecisa, abstrata e antiga. Ela remonta ao espaço vazio demarcado por quatro pilastras destinado a estabelecer uma conexão com o divino. Essa conformação simbólica pressupõe, simultaneamente, uma divisão e uma união, criando uma zona de ambiguidade e tensão. De acordo com Okano, essa coexistência cria um espaço no qual “as coisas permanecem “em suspensão” e os níveis de definição informacional e de descrição são baixos. Isso exige uma participação mais complexa do receptor” [2]. 

Dessa forma, para reconhecer “ma” é necessário experimentá-lo por meio dos sentidos humanos e, portanto, não é passível de ser analisado pelo pensamento lógico, dual e linear ocidental. Com isso, o reconhecimento do mundo físico ocorre a partir da ação do sujeito e a arquitetura deixa de ser compreendida apenas pela sua substância material, mas também pelas relações que estabelece. Para o arquiteto alemão Gunter Nitschke, estudioso da cultura nipônica, “ma” poderia ser entendido como a consciência do lugar, já que cada indivíduo terá uma experiência única.

Essa mesma ideia está contida no conceito de “espaço-movimento”, ou kôdôteki, descrito pelo historiador japonês Mitsuo Inoue, que o coloca “em contraposição ao espaço-geométrico por sua irregularidade e indeterminação: não é possível identificar nesse espaço um eixo ou centro.” [3]. O objeto arquitetônico é composto pelo caminhar, privilegiando mais a relação entre as partes do que a apresentação do todo, que nunca é revelado. Isso reforça a visão budista de que o espaço e o tempo são transitórios e efêmeros, e que a vida se faz no aqui e agora.

Diante disso, para tornar “ma” algo mais tangível para a compreensão ocidental, Isozaki, em sua exposição, adotou a estratégia de combinar uma ampla variedade de elementos verbais, visuais e físicos que provocassem sensações diversas no público. Ele entende que os visitantes deveriam experimentar as oscilações entre o mundo objetivo/externo e o mundo subjetivo/interno para entender o conceito de “ma”, que o arquiteto japonês traduz como “espaço-entre”. "O espaço é importante; o espaço-entre é mais importante", afirma [4].

Para isso, Isozaki selecionou obras de arte – como fotografias, objetos artesanais, instalações e projeções de filmes – que foram organizadas em sete salas temáticas que correspondiam à um aspecto de “ma” – mitologia, estética, espaço, tempo, vida cotidiana, etc. Além disso, foram realizadas apresentações musicais, de teatro e dança. Apesar de sua característica abstrata, é possível identificar “ma” por intermédio de características como o contraste, a harmonia e o equilíbrio. Existem expressões onde “ma” é mais facilmente reconhecível, como a caligrafia, a poesia, a pintura, a música e o Teatro Noh que, para Nitschke, teria a sua representação máxima, combinando todos seus aspectos de objeto-espaço, ação-inação, som-silêncio e movimento-repouso em um único espetáculo.

Na arquitetura também é possível observar um modo de organização espacial dentro da perspectiva do “ma”, que evoca alguns pontos que essa espacialidade apresenta. Segundo Okano, são eles: coexistência; continuidade; metáfora e/ou analogia; ambiguidade; memória; corporeidade; montagem. A materialização desses pontos ocorre de diversas formas, gerando ambientes distintos com expressões únicas.

via © PLANE—SITE
via © PLANE—SITE

Com a exposição “Ma: Espaço-Tempo do Japão”, Isozaki pretendia, sobretudo, afastar o Japão dos estereótipos da arte tradicional do passado, que haviam atraído principalmente os impressionistas franceses, para apresentar um país moderno e em franco desenvolvimento. Como aponta Okano, o arquiteto japonês procurou misturar representações tradicionais com as vanguardas da época, como “apresentações de dança Butô com Hijikata Tatsumi, como uma expressão do movimento underground pós-guerra, ao lado da dança tradicional japonesa, como também do Teatro SCOT, de Suzuki Tadashi, que hibridiza o teatro tradicional japonês com o ocidental.” [5].

Considerada um marco na tentativa de estabelecer pontes entre o Ocidente e Oriente, a exposição percorreu ainda outros lugares da Europa (Estocolmo e Helsinque) e dos Estados Unidos (Nova Iorque, Houston e Chicago). O “ma”, que até então restringiu-se ao sistema cultural nipônico, foi o elemento que mostrou uma outra forma de ver e conceber o mundo, pautado pela indeterminação e a incompletude. É um vazio que não remete à ausência de algo, mas está repleto de energia e potência, ele existe como possibilidade.

Saiba mais:

Arata Isozaki fala sobre "ma", o conceito japonês do "espaço entre"

Veja o estúdio do arquiteto e teórico japonês Arata Isozaki no primeiro vídeo da série Time-Space-Existence , produzida pela PLANE-SITE. Neste vídeo inaugural, Isozaki discute o conceito japonês do espaço e do tempo que existe entre as coisas, chamado "ma".

[1] ISOZAKI, Arata. Mitate no shutô (A técnica do mitate). Tokyo: Kajima Shuppansha, 1990.
[2] OKANO, Michiko. Ma: entre-espaço da arte e comunicação no Japão. São Paulo: Annablume; Fapesp; Fundação Japão, 2012.
[3] INOUE, Mitsuo. Space in Japanese Architecture. Nova Iorque: John Weatherhill, 1985.
[4] ISOZAKI, Arata. Arata Isozaki fala sobre "ma", o conceito japonês do "espaço entre", 2017. Disponível em: <https://www.archdaily.com.br/br/883175/arata-isozaki-fala-sobre-ma-o-conceito-japones-do-espaco-entre>.
[5] OKANO, Michiko. Ma: entre-espaço da arte e comunicação no Japão. São Paulo: Annablume; Fapesp; Fundação Japão, 2012.

Sobre este autor
Cita: Marina Pedreira de Lacerda. "O conceito “ma” para Arata Isozaki: um modo de ver o mundo" 12 Mar 2019. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/912901/o-conceito-ma-para-arata-isozaki-um-modo-de-ver-o-mundo> ISSN 0719-8906

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