Carlo Scarpa, o arquiteto da água

Carlo Scarpa, o arquiteto da água

Desde a sua mais tenra idade, Carlo Scarpa, aquele que se tornaria um dos mais importantes arquitetos italianos de todos os tempos, tinha muito presente o elemento fundamental que descreveria e fundamentaria sua obra muitos anos depois: a água. Enquanto brincava e se divertia por entre aquele emaranhado de vielas e canais, Scarpa vivenciava todo um universo de informações, especialmente a riqueza de estímulos que sua cidade natal o oferecia. Sua enorme sensibilidade para com o espaço è fruto dos estímulos que lhe proporcionava Veneza, sua mais bela inspiração. Sua devoção pelo simples, pelo despretensioso, exatamente o contrário da exuberância, do cenográfico e ostensivo, vai sendo construída pouco a pouco; a arte, o espaço e a história estavam presentes em suas leituras, em sua viagem em direção ao conhecimento.

Carlo Scarpa desenvolveu sua arquitetura à partir de sua extraordinaria cultura visual e de seu respeito pela tradição; percorrendo as evidências do passado e reinterpretando-as à sua manera, transformando-as em espaço arquitetônico onde todas as peças são unidades independentes mas bem orquestradas, uma narrativa espacial que, como ele mesmo dizia, poderia ser interpretada como uma música. Utilizava toda sua sabedoria e sensibilidade para se posicionar em relação ao passado, às preexistências. Mergulhando na história e interpretando o passado, construía suas obras de modo que valorizassem o contexto onde estavam inseridas. 

Punta della Dogana [Venecia]. Image © Jean-Pierre Dalbéra [Flickr bajo licencia CC BY-NC 2.0]
Punta della Dogana [Venecia]. Image © Jean-Pierre Dalbéra [Flickr bajo licencia CC BY-NC 2.0]

Históricamente, a cidade de Veneza manteve viva sua relação ao com o artesanato, delicados elementos de vidro que refletem a gentileza de seus espaços e a elegância de sua arquitetura mas, sobretudo, o espírito desta cidade é resultado de sua relação com o espaço e com o mar. Scarpa era fascinado pela água, ela acompanhou toda a sua trajetória, penetrando e se fazendo presente em cada um de seus incontáveis projetos. Durante uma conferência realizada em Madrid no ano de 1978, Scarpa disse: 

A água me fascina, talvez seja o fato de eu ter nascido em Veneza... 

Monumento a la mujer partidista [Venecia, 1947]. Image © Thomas Nemeskeri [Flickr bajo licencia CC BY-NC 2.0]
Monumento a la mujer partidista [Venecia, 1947]. Image © Thomas Nemeskeri [Flickr bajo licencia CC BY-NC 2.0]

A água é amiga da luz e dos sons, ela carrega consigo seus significados — em determinados momentos ela nos deleita com a sua presença física, em otros, a pesar de ausente, ela permanece presente nas formas que cria. Scarpa desenhava lenta e continuamente em uma busca progressiva pela simplificação das formas, como um fio d'água que ao longo dos séculos esculpe seu caminho na rocha.

Em seu projeto para o Pátio do Palazzo Centrale, realizado para a XXVI Bienalle [1952], también conhecido como “jardim sonoro” ou “jardim das esculturas”, Scarpa orquestra os materiais que utiliza como se fosse uma sinfonia: estuda cada um deles pormenorizadamente para que, quando colocados lado a lado, possam operar como um todo. A água é o elemento de conexão, é a música que percorre o jardim, construindo um diálogo que envolve todos os elementos. Uma sutil entonação, uma nota musical que define a dimensão do espaço. 

Através dos detalhes, Scarpa constrói um universo de sensações, um espaço complexo por onde a água flui fazendo uso da luz e do som; um espaço onde não falta nada nem tampouco sobra, de modo que somente podemos comprender-lo através do percurso e movimiento do nosso corpo.

XXVI Biennale, Giardino delle Sculture [Venecia, 1952]. Image © Jean-Pierre Dalbéra [Flickr bajo licencia CC BY-NC 2.0]
XXVI Biennale, Giardino delle Sculture [Venecia, 1952]. Image © Jean-Pierre Dalbéra [Flickr bajo licencia CC BY-NC 2.0]

Outro dos elementos fundamentais na obra de Carlo Scarpa era a arquitetura japonesa: a obsessão pelo simples, pelo delicado e contemplativo, pela maneira como se manipula e incorpora a água. Até 1969, ano no qual ele consegue finalmente viajar ao Japão, ele teve que se contentar apenas com sua vasta biblioteca. Aquela viagem foi um marco no desenvolvimento de sua carreira e de seus futuros projetos.

Se esta era a cultura a qual ele decidiu seguir, sua referência no universo da arquitetura moderna era, sem dúvida alguma, Frank Lloyd Wright. Em 1978, Wright enumerou nove conceitos que definiam a nova arquitetura que ele tanto defendia. Ambos arquitetos ansiavam encontrar aquilo que Wright denominava a “alma gráfica das coisas”, o mistério oculto pela complexa linguagem da arquitetura. Ambos compartilhavam a admiração pela arquitetura japonesa e outras tantas culturas ancestrais como a maya, a egípcia e a bizantina; e defendiam o uso autêntico dos materiais como integrantes do espaço e a expressão de seu tempo.

Casa Romanelli [Udine, 1952-1955]. Image © ACME [Flickr bajo licencia CC BY-NC 2.0]
Casa Romanelli [Udine, 1952-1955]. Image © ACME [Flickr bajo licencia CC BY-NC 2.0]

Em uma entrevista realizada por Martín Domínguez, Scarpa comentou:

Sempre fui um admirador de Mies a Aalto, mas a obra de Wright foi para mim um “coup de foudre”. Nunca havia tido uma experiência como aquela. Me arrastou como uma onda. Isso é muito evidente em alguns dos meus projetos residenciais.

O tangível; aquilo que Scarpa era capaz de cinzelar, de dar forma ou de transformar em espaço arquitetônico ou escultura. Mas também o intangível; uma sensação, um ponto de vista, uma melodia... A própria natureza presta homenagem as suas formas; uma beleza fluida como a água, a essência da obra de Carlo Scarpa. 

Fundación Querini Stampalia [Venecia, 1961-63]. Image © tommaso_men [Flickr bajo licencia CC BY-NC 2.0]
Fundación Querini Stampalia [Venecia, 1961-63]. Image © tommaso_men [Flickr bajo licencia CC BY-NC 2.0]

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Sobre este autor
Cita: Fernández, Borja. "Carlo Scarpa, o arquiteto da água" [Carlo Scarpa, un virtuoso arquitecto del agua] 31 Dez 2018. ArchDaily Brasil. (Trad. Libardoni, Vinicius) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/908575/carlo-scarpa-o-arquiteto-da-agua> ISSN 0719-8906

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