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O futebol de várzea em São Paulo e o direito à cidade

O futebol de várzea em São Paulo e o direito à cidade
O futebol de várzea em São Paulo e o direito à cidade, O fotógrafo Renato Stockler documentou em fotografias aéreas os terrões de futebol. Image © Renato Stockler
O fotógrafo Renato Stockler documentou em fotografias aéreas os terrões de futebol. Image © Renato Stockler

Era uma cidade de rios indomáveis: eles irrompiam sazonalmente sobre as margens, moldando férteis e úmidas várzeas. Quando o rio baixava, a terra era rija o suficiente para que uma bola rolasse e muitos pés corressem atrás dela. Foi em uma São Paulo sem rios enterrados sob fatias tristes de concreto que emergiu o futebol de várzea.

Recuperar a história do futebol de várzea em São Paulo é entender a formação da cidade em torno de rios imponentes como o Tietê. No início do século XX, populações imigrantes e de afro-brasileiros e negros recém libertos ocuparam esses territórios e originaram bairros como a Barra Funda, na região oeste da capital. Mais do que uma prática amadora desportiva, essa modalidade se consolidou enquanto símbolo de organização social e luta pelo direito à cidade, em uma época onde a capital paulista começava a ser disputada espacialmente e a sofrer com a gentrificação.

Como nasce o futebol de várzea?

Nessa amálgama de culturas — que incluíam africanos, afro-brasileiros, italianos, libaneses, portugueses e espanhóis — nasceram importantes manifestações culturais e de organização social, como o samba paulista e o próprio futebol de várzea.

Diana Mendes, autora do livro Futebol de Várzea em São Paulo – A Associação Atlética Anhanguera (1928-1940), estudou a formação dessa associação intimamente ligada ao futebol de várzea na região antes conhecida como Barra Funda de baixo, cortada pela malha ferroviária e sujeita às enchentes da margem do Rio Tietê.

Fotos dos jogadores da Associação Anhanguera / Crédito: Acervo. Image Cortesia de Portal Aprendiz
Fotos dos jogadores da Associação Anhanguera / Crédito: Acervo. Image Cortesia de Portal Aprendiz

“O Estado não chegava no subúrbio. A Barra Funda de baixo era dos negros, dos imigrantes, das enchentes. As pessoas que moravam lá ficavam sujeitas ao regime do rio se auto organizavam para o lazer, criando clubes de futebol, clubes de dança e festas como o carnaval ou festividades religiosas. Era uma espécie de política no sentido primeiro, fazer uma mobilização por algo desejado, algo bom para a comunidade”.

Mas a várzea, assim como os rios paulistanos, não resistiriam a cavalar urbanização da capital. Os terrenos começaram a ser aterrados para dar vazão a um mercado imobiliário em pleno crescimento, sendo vendidos para o estabelecimento de fábricas, indústrias ou moradias.

A gentrificação obrigou os moradores que não tinham condições de pagar por esses terrenos a atravessar a cidade e se instalar em bairros como Freguesia do Ó, Santana ou Nova Cachoeirinha. “Esses novos lugares não eram mais várzea, não tinham mais tanto rio. Mas essas populações excluídas levaram consigo seus modos de vida: o associativismo, o samba, o carnaval, e é claro, o futebol. O futebol praticado fora de várzea continuou sendo chamado futebol de várzea”.As populações varzeanas, por sua vez, foram vítimas de políticas sanitaristas, que propagavam que os terrões — como eram chamados os territórios de várzea — seriam antros de doenças e periculosidade. “Experiências sanitaristas tentaram eliminar certas práticas, mas elas não desapareceram e acabaram se tornando símbolos de resistência e de afirmação”, explica Diana.

Várzea como potência de organização social

A várzea que não é mais de rio e sim de luta atravessa o território e se instala nas antípodas da cidade. Um dos clubes de várzea mais emblemáticos é o Negritude Futebol Clube, organização fundada no coração de uma habitação popular em Artur Alvim, bairro do extremo leste da capital paulista. Ativo desde 1980, o clube foi objeto de estudo da pesquisadora Roberta Pereira da Silva, que escreveu a tese “Campos de Terra, Campos de Vida”.

“A várzea é uma potência de organização popular, mesmo que ela não se nomeie assim”, relata Roberta. O clube foi fundado na COBAH 1 por seis jovens — cinco rapazes e uma mulher — enquanto reivindicação pelo direito ao lazer no território. A constituição e gestão do time, desde seus primórdios, é horizontal: seus integrantes desempenham múltiplas funções, se responsabilizando pela organização do jogo, mas também as relações com a comunidade e com o entorno.

A questão racial também sempre esteve presente no clube, desde a escolha do nome, que não pôde ser registrado formalmente até 1984, até a reafirmação da identidade negra durante períodos de intolerância, como quando os jogadores mantinham black power e discutiam a negritude na época da Ditadura Militar.

Jogadores do Negritude Futebol Clube em 1986 / Crédito: Acervo pessoal do time. Image Cortesia de Portal Aprendiz
Jogadores do Negritude Futebol Clube em 1986 / Crédito: Acervo pessoal do time. Image Cortesia de Portal Aprendiz

Há também outras realizações possíveis dentro da várzea que não acontecem comumente no futebol organizado, como afirma Roberta: “Vejo mais possibilidade de autonomia feminina na várzea: tem torcidas organizadas que não permitem que mulher entre, enquanto no Negritude, a Cristina Vallim foi uma das suas fundadores e presidente por duas vezes. Na várzea tem bandeira, sinalizador, pode entrar no jogo sem ser sócio torcedor. Isso não acontece na elitização do futebol”.

Futebol de várzea luta pelo direito à cidade

Foram mais de 80 anos de luta até que a Associação Anhanguera se constituísse enquanto Centro Desportivo da Cidade. O Negritude Futebol Clube há mais de vinte é um ponto de cultura e resistência da Zona Leste. Para Diana, essa resistência mostra o quanto à luta por direito à cidade não é uma abstração e que se realiza justamente na prática.

“Não é uma luta por espaços sem nome, sem corpo e sem pessoas. São indivíduos que nasceram em um bairro, que se conhecem, que casam entre si, que são amigos com práticas sociais, de lazer e de prazer comuns. Não é pouca coisa partilhar um jogo de futebol com pessoas com quem você ama, convive e conversa”.

O fotógrafo Renato Stockler documentou em fotografias aéreas os terrões de futebol. Image © Renato Stockler
O fotógrafo Renato Stockler documentou em fotografias aéreas os terrões de futebol. Image © Renato Stockler

A escritora ainda complementa que o fascinante da várzea é dar corpo a essa luta, mostrando a força política de se viver experiências positivas em comunhão com seu território. “Muitos varzeanos podem até não saber ou dizer do campo teórico do direito da cidade. Não tem importância. Eles estão lutando por ele, porque essa afetividade passa pela história da pessoa, da região e de como se formou aquele bairro onde ela joga”.

Roberta vai ainda mais longe. Para ela, o vocábulo várzea, que há tanto tempo é usado como sinônimo de bagunça e abandono é, na verdade, epitome da força de uma estrutura construída com participação social e muita organização. “Da próxima vez alguém for usar a expressão “ah, esse lugar é uma várzea”, pode usar “esse lugar é uma CBF”, brinca a pesquisadora.

Via Portal Aprendiz

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Sobre este autor
Cecília Garcia
Autor
Cita: Cecília Garcia. "O futebol de várzea em São Paulo e o direito à cidade" 31 Jul 2018. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/899185/o-futebol-de-varzea-em-sao-paulo-e-o-direito-a-cidade> ISSN 0719-8906

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