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Como projetar para a terceira idade

Como projetar para a terceira idade
Como projetar para a terceira idade, Lar de Idosos Peter Rosegger / Dietger Wissounig Architekten. Image © Paul Ott
Lar de Idosos Peter Rosegger / Dietger Wissounig Architekten. Image © Paul Ott

O fenômeno do aumento do envelhecimento da população é algo que ocorre no mundo todo. Falamos em fenômeno porque todas as pirâmides etárias estão se invertendo. Ou seja, a taxa de natalidade tem reduzido constantemente ao longo dos anos e ao mesmo tempo a expectativa de vida tem aumentado. A conseqüência disto é que o número de pessoas idosas está ficando maior que o número de crianças, por exemplo.

De acordo com o IBGE, em 2017, este número chega a mais de 30 milhões de pessoas acima do 60 anos no Brasil, correspondendo a 14,6% da população. Para termos uma noção do montante deste volume basta comparar com a população total do México que está em torno de 28 milhões, assim como da Austrália e Nova Zelândia juntas. Ou mesmo com as populações do Peru e da Venezuela que está em torno dos 31 milhões de habitantes. Estamos falando de uma população idosa no Brasil do tamanho de um país.

Cortesia de Flavia Ranieri
Cortesia de Flavia Ranieri

O problema é a velocidade que chegamos nestes números. Enquanto países desenvolvidos como a França demoraram 115 anos para fazer esta transição, onde há mais velhos que jovens, os países em desenvolvimento, como a China, fizeram isto em 27 anos [1]. É o que chamamos de transição comprimida. Ou seja, os países desenvolvidos se prepararam gradualmente, adaptando serviços, políticas e estrutura para os mais velhos. Nós nos vemos em uma situação onde a preocupação com a pessoa idosa ainda é muito precária. Isto significa diretamente uma qualidade de vida pior para nossos idosos.

Cortesia de Flavia Ranieri
Cortesia de Flavia Ranieri

E quem são nossos idosos? No Brasil, idoso é a pessoa acima de 60 anos; sendo que nos países desenvolvidos esta idade passa a ser 65 anos. Seria fácil se fosse simples assim definir as pessoas. Pela idade. Mas não é. Existem vários tipos de idosos, simplesmente porque existem vários tipos de pessoas. E cada uma dessas pessoas traz uma bagagem de vida diferente.

Começamos a envelhecer assim que nascemos. E a nossa velhice é fruto das escolhas que fizemos ao longo de toda a nossa vida. Não somente a genética determinam como será nossa velhice. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) seis itens influenciam a forma como chegaremos nesta etapa de vida. Há os determinantes sociais, os econômicos, os comportamentais, os pessoais, os serviços sociais e de saúde disponíveis e por fim o ambiente físico. Podemos chegar a esta idade ativos ou com um nível de fragilidade avançado onde ficamos abaixo da linha da funcionalidade [2]. Manter as pessoas mais velhas saudáveis e ativas é uma necessidade e não um luxo.

Cortesia de Flavia Ranieri
Cortesia de Flavia Ranieri
Cortesia de Flavia Ranieri
Cortesia de Flavia Ranieri

Mas o que é envelhecimento ativo? São quatro os pilares considerados atualmente para ser considerado assim. Saúde, educação e aprendizado continuado, participação social e proteção e segurança.

Como arquitetos há muito que possamos contribuir. Seja na construção de políticas públicas até diretamente no ambiente físico. Podemos trabalhar na escala macro das cidades, até as menores das habitações.

No que se refere às cidades os maiores problemas estão relacionados à acessibilidade, transporte público e serviços. Um estudo recente da USP analisou a base de dados das linhas de ônibus, metrô e CPTM, vagas exclusivas para idosos e pessoas com deficiência; relevo e declividade; e também a acessibilidade dos estabelecimentos e ponto de comércios na cidade de São Paulo. [3] Fica claro pelas conclusões que o centro expandido é o que oferece melhores condições de acessibilidade, tendo o bairro do Bráz em primeiro lugar, seguido pela República e Sé. Nas últimas posições encontramos os bairros do Iguatemi, José Bonifácio e Cachoeirinha. Para ver o ranking completo, acesse este link. Se cruzarmos estes dados com os bairros que possuem maior número de pessoas idosas, é possível traçar um plano de melhorias bem focado e eficaz. Dependemos muito de vontade política mas nossas associações de classe poderiam fazer um trabalho de pressão para tirarmos estas idéias do papel.

Centro de Tratamento de Câncer / Foster + Partners. Image © Nigel Young  Foster + Partner
Centro de Tratamento de Câncer / Foster + Partners. Image © Nigel Young Foster + Partner

O Estado de São Paulo criou em 2012 o programa “cidade amiga do Idoso”, mas apenas em janeiro deste ano (2018), a prefeitura de São Paulo aderiu ao programa. Com ela serão 670 cidades no estado estudando e promovendo iniciativas neste sentido. “Atualmente a rede socioassistencial da Prefeitura conta com 134 serviços específicos para idosos como Núcleos de Convivência, Centros Dia e Centro de Referência para atividades de convivência durante o dia, além de Centros de Acolhida Especiais e Instituições de Longa Permanência para o acolhimento. Juntos, os serviços atendem cerca de 15 mil idosos.” [4] Diz a prefeitura. Pouco se pensarmos que a cidade possui em torno de 1,4 milhões de idosos. Um campo enorme para os arquitetos e urbanistas.

Para ajudar na busca da qualidade de vida para os idosos nas cidades, a Organização das Nações Unidas (ONU) lançou o guia “Measuring the age-frinedliness of cities – A guide to using core indicators[5]. No que se refere ao ambiente físico ela enumera os seguintes itens a serem considerados:

  • Planejamento e uso da terra
  • O projeto dos espaços e edifícios públicos
  • O projeto da moradia e as opções de custo
  • O design dos meios de transporte

Destes itens deve ser considerado a habilidade e capacidade de transitar pela cidade e ambientes construídos, a acessibilidades dos espaços públicos, edifícios e transportes; a capacidade de arcar com uma moradia e a segurança. Todos estes itens visam impactar na saúde e bem estar do idoso. Para ajudar, é indicado vários guias que são referência ao redor do mundo e que podem ser usados como base de partida para criação de um próprio.

Aos que procuram algo mais objetivo e prático, segue o check-list sugerido pela OMS [6] no que se refere aos aspectos físicos.

Centro de Tratamento de Câncer / Foster + Partners. Image © Nigel Young  Foster + Partner
Centro de Tratamento de Câncer / Foster + Partners. Image © Nigel Young Foster + Partner

Espaços e edificações em área externa

  • Áreas públicas devem ser limpas e agradáveis.
  • Assentos e áreas verdes em quantidade suficiente, com boa manutenção e seguros.
  • Pavimentação com boa manutenção, livre de obstáculos e exclusivo para pedestres.
  • Pavimentação antiderrapante, com largura suficiente para passar uma cadeira de rodas e ter meio fio adaptados para acesso à via de rolamento.
  • Faixas de pedestre suficientes em número e em segurança para pessoas com diferentes tipos e níveis de deficiência, com áreas antiderrapantes, comunicação visual e auditiva e tempo adequado de travessia.
  • Prioridade aos pedestres nos cruzamentos e faixas.
  • Ciclo faixa separada da área de pedestre.
  • Segurança externa fornecida por uma boa iluminação, rondas policiais e educação da comunidade.
  • Serviços situados em locais próximos e acessíveis.
  • Atendimento especial ao usuário nos locais de serviços, tais como filas preferenciais e separadas.
  • Boa sinalização fora e dentro das edificações com assentos e banheiros suficientes, elevadores, rampas, e escadas acessíveis com piso antiderrapante.
  • Banheiros públicos em áreas externas e internas com boa manutenção, número suficiente e acessíveis.

Moradia

Centro Maggie de Oldham / dRMM. Image © Alex de Rijke
Centro Maggie de Oldham / dRMM. Image © Alex de Rijke

  • Moradias com preços acessíveis, em número suficiente em áreas seguras e perto de serviços e do restante da comunidade.
  • Serviços de manutenção e suporte disponíveis, em número suficiente e a preços acessíveis.
  • Moradia bem construída que propicie segurança, conforto e abrigo do tempo.
  • Espaços internos e nível das superfícies que possibilitem liberdade de movimento em todos os cômodos e passagens.
  • Opções de alteração da moradia à disposição e a preços acessíveis, de forma que seja possível adaptá-la a realidade das necessidades da pessoa idosa.
  • Locação social pública e privada de moradia, que seja limpa, com boa manutenção e segura.
  • Número de moradias suficiente e a preço acessível para idosos com alto grau de fragilidade e com deficiências que ofereçam os serviços de suporte próximos à residência.

Projetar uma moradia para um idoso é mais complexo do que se imagina a princípio. Existem duas questões principais a serem abordadas. A segurança física e a segurança emocional. Muitas vezes a segurança física é privilegiada em detrimento da outra; e então encontramos moradias muito bem equipadas mas sem alma, sem história.

A moradia é muito mais que um abrigo, é um lugar de constituição de vida; é o seu canto no mundo [7]. É o lugar de memórias passadas, experiências presentes e sonhos futuros [8]. É onde você se reconhece.

Já diz o artigo 37 do estatuto do idoso “O idoso tem direito à moradia digna, no seio da família natural ou substituta, ou desacompanhado de seus familiares, quando assim o desejar, ou ainda em instituição pública ou privada”. Veja que o que comanda é o desejo do idoso. Inclusive sobre o direito de morar desacompanhado da família. Muitas vezes este desejo é ignorado pelo simples temor da família. Temor que muitas vezes pode ser sanado com um bom sistema de automação e teleassistência, por exemplo.

Centro Maggie de Oldham / dRMM. Image © Jasmin Sohi
Centro Maggie de Oldham / dRMM. Image © Jasmin Sohi

No início do artigo levantei a questão de como os idosos são diferentes e como existem níveis diferentes de capacidade funcional. Uma moradia para um idoso completamente independente é muito diferente de uma moradia para um idoso cheio de limitações. É verdade que algumas perdas são comuns a todos, afetando principalmente os sentidos como o da visão, audição, tato, olfato e paladar. Os sistemas muscular, conjuntivo, ósseo, neurológico, cardiopulmonar, gastrointestinal e geniturinário também são afetados. E é então que tudo se complica. Cada idoso terá uma perda diferente em cada um destes sentidos e sistemas. Fazer uma moradia que abranja tudo é caro e desnecessário.

Neste site disponibilizo um e-book com um checklist básico a ser feito nas moradias. Ele cobre de forma geral as formas mais brandas de perdas e pode ser realizado pelo próprio morador. Podemos considerar que existem algumas questões que são unânimes para todos os idosos:

  • Iluminação uniforme sem áreas de sombra.
  • Iluminação de reforço nas áreas de trabalho como bancadas de cozinha e banheiros.
  • Piso nivelado, uniforme, fosco e antiderrapante.
  • Manter as circulações de forma que seja possível passar uma pessoa com cadeira de rodas ou duas em pé, uma ao lado da outra.
  • Barras de apoio em locais estratégicos como banheiros e circulações.
  • Áreas de descanso quando houver grandes distâncias a serem percorridas.
  • Manter as circulações livres de obstáculos como, fios soltos, brinquedos, móveis e objetos baixos.
  • Evitar o uso de tapetes
  • Mobiliário e armários em alturas adequadas.

Se o arquiteto quer ser mais assertivo nas soluções a serem tomadas, uma boa conversa com o usuário ajuda muito a entender onde estão as maiores dificuldades.

A escala de Katz é uma ótima ferramenta desenvolvida para avaliar o grau de dependência nas atividades básicas da vida diária, as chamadas ABVD, onde se avaliam tarefas como tomar banho, se vestir, usar o vaso sanitário, transferir-se da cama para a cadeira, a continência e o ato de se alimentar. Este teste pode ajudar a nortear por onde começar as mudanças.

Se o arquiteto está projetando para um público genérico, as dicas acima podem ajudar; mas se o idoso ou grupo de idosos tiver uma limitação específica como Alzheimer, por exemplo, ou Parkinson, será necessário conhecer melhor as peculiaridades da doença.

Centro de Cuidados para Pacientes com Alzheimer / Cid + Santos. Image © Santos-Díez  BISimages
Centro de Cuidados para Pacientes com Alzheimer / Cid + Santos. Image © Santos-Díez BISimages

Uma pessoa com Alzheimer, por exemplo, pode demonstrar um comportamento agitado e ter o perfil de andarilho, onde a pessoa gosta de andar o tempo todo. Ao mesmo tempo ela pode se desorientar facilmente. O que fazer? Prendê-la dentro de casa? Um grupo de arquitetos na Holanda desenvolveu o Dementia Village pensando nesta situação. Um bairro inteiro, com moradias, praças e comércio todo voltado para os idosos com este tipo de demência. Ela é toda murada e voltada para si mesma. Todas as casas abrem para praças e cada núcleo de casa tem seu próprio estilo. São sete no total. Alguns mais clássicos, outro mais modernos.... enfim o estilo que a pessoa mais se identifica. As praças também são diferentes entre si. Isto dá o dinamismo que ocorre naturalmente nas cidades e ajuda na localização espacial. O morador fica livre para circular por todo o empreendimento. Os funcionários não usam uniforme e são treinados a ajudar na orientação e suporte do morador. O mais interessante é que com esta solução os moradores conseguem manter a independência e a autonomia, mas com segurança. Outro ponto interessante, é que o teatro e restaurantes são abertos para o público. Foi feito um trabalho de divulgação com a vizinhança que aderiram ao uso do espaço, o que dá mais ainda a sensação de que não estão confinados em uma instituição.

Percebem como papel do arquiteto vai muito além de projetar um banheiro acessível ou uma rampa adequada? O arquiteto tem papel fundamental na percepção que o morador terá do espaço. O arquiteto pode e deve ajudar sempre a promover a autonomia e independência da pessoa idosa. Deve propiciar dignidade no uso dos espaços e das construções. Mais do que nunca o papel do arquiteto se mostra relevante, ajudando a propiciar uma boa qualidade de vida para que o idoso continue a viver o momento presente da forma mais plena possível.

Notas
[1] KALACHE, A. & KELLER, I. (2000). “The greying world: a challenge for the 21st century”. Science Progress 83 (I), 33-54.
[2] World Health Organization. Envelhecimento ativo: uma política de saúde. Tradução Suzana Gontijo. – Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde, 2005. 60p.:Il
[3] http://interscity.org/apps/acessibilidade/
[4] http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/saude/noticias/?p=247751
[5] World Health Organization. Measuring the age-frinedliness of cities: a guide to using core indicators. Geneva. 2015. 120p.
[6] http://www.who.int/ageing/publications/Age_friendly_cities_checklist.pdf
[7] BACHELARD, G. A poética do espaço. São Paulo: Martins, 2008
[8] CSIKSZENTMIHALYI E ROCHBERG-HALTON, 1981, p.9

Sobre este autor
Cita: Flavia Ranieri. "Como projetar para a terceira idade" 18 Jul 2018. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/898313/como-projetar-para-a-terceira-idade> ISSN 0719-8906

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