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Canteiro, o lugar de tensão na construção civil

Canteiro, o lugar de tensão na construção civil
Canteiro, o lugar de tensão na construção civil, Construção do Templo Bahá'ís / Hariri Pontarini Architects. Cortesia de Comunidad Bahá´í
Construção do Templo Bahá'ís / Hariri Pontarini Architects. Cortesia de Comunidad Bahá´í

Na busca de uma palavra para definir o canteiro de obras, talvez nenhuma satisfaça tanto quanto “tensão”. Lugar e momento em que são colocados à prova aspectos do projeto, a obra literalmente tensiona a relação entre o pensar e o fazer arquitetônico, colocando em cheque certezas do projeto que, quando contrapostas a questões técnicas, econômicas e políticas, podem perder solidez e mesmo cair por terra.

Nesse sentido, e em função das escolhas e limitações das técnicas construtivas empregadas e disponíveis, o canteiro é um lugar e momento que exige uma comunicação eficiente entre projeto e obra; flexibilidade e ponderação se tornam palavras de ordem para o arquiteto e demais profissionais envolvidos na construção.  É através da obra, também, que aquilo que antes habitava a mente de apenas alguns poucos envolvidos se torna concreto e passa, enfim, a fazer parte da coleção de imagens que compõe a paisagem urbana (ou rural).

Construção da Casa Ktima / Camilo Rebelo e Susana Martins. © Cortesia de Camilo Rebelo Construção da Rodoviária de Jaú de Vilanova Artigas. Cortesia de Arquigrafia Escola de Balé por Vittorio Garatti. Imagem © Adrián Guerra Rey via places.designobserver.com Construção da Casa de Sambade / Spaceworkers. © João Morgado + 9

Com cada canteiro constituindo um pequeno universo particular de tensões, contradições e superações, só conseguimos mesmo imaginar a dimensão (como se fosse possível mensurá-la) da complexidade de uma cidade, pontuada por uma miríade de canteiros que, um dia, serão obras prontas que abrigarão outras tensões, contradições e superações, numa trajetória hiperbólica – embora mais ou menos cíclica – que conduz o desenvolvimento das cidades.

Visto como parte de um sistema econômico, político e social, o canteiro de obras está sujeito a pressões e forças externas. Não raro vemos ou ouvimos falar de alguma obra pública ou privada que foi embargada ou atrasada devido a alguma questão de ordem política (por exemplo, mudança de governo), econômica (até hoje a crise mundial de 2008 vem atrasando ou cancelando projetos) ou social (comunidades podem reivindicar, frente às autoridades, a alteração ou congelamento de obras).

Portanto, qualquer análise que pretenda abordar a temática do canteiro de obra como entidade isolada e destacada desses sistemas corre risco de miopia, já que, deliberadamente, escolhe ignorar forças subjacentes capazes de alterar profundamente o funcionamento do canteiro.

Todavia, observar um canteiro de obras isoladamente também pode oferecer prospectos interessantes no que diz respeito à disciplina da arquitetura. O lugar/momento do canteiro é onde se vê, com mais clareza em todo o processo de concepção, desenho e construção, a importância da organização do tempo e dos recursos. À diferença das etapas anteriores do projeto, em que os recursos envolvidos são basicamente humanos, o canteiro é onde são acrescentados massivos recursos materiais, e, com isso, o investimento financeiro envolvido se multiplica.

Construção da Capela San Bernardo / Nicolás Campodónico. Cortesia de Nicolás Campodónico
Construção da Capela San Bernardo / Nicolás Campodónico. Cortesia de Nicolás Campodónico

No canteiro, “o trabalho dos arquitetos serve de ferramenta para contrabalançar a ansiedade do cliente perante muitos fatores, ou a necessidade de conjugar prazos de construção e optimização de custos com padrões de qualidade.”[1] Numa obra, muitos interesses necessitam negociação e o papel da arquitetura desenrola-se transformando projetos imaginários em edifícios concretos.

Nesse sentido, cabe a pergunta: até que ponto as recentes transformações na indústria da construção e na organização da obra transformam a prática da arquitetura?

A retomada de estruturas de madeira para edificações em altura pode ser considerada um exemplo de “avanço” técnico que deforma os contornos da prática tradicional da arquitetura. Nesse sentido, a conclusão da torre de madeira de 53 metros de altura em Vancouver, Canadá, projetada pelo escritório Acton Ostry Architects, poderá se tornar um marco paradigmático na construção civil, ampliando o espectro de opções de sistemas estruturais para a tipologia em altura.

Torre de maideira mais alta do mundo (53m) em Vancouver. Cortesia de Talk Shop Media
Torre de maideira mais alta do mundo (53m) em Vancouver. Cortesia de Talk Shop Media

Podemos esperar que em um futuro próximo, as relações dentro do canteiro serão transformadas a partir de tecnologias digitais como BIM e Realidade Aumentada (A.R.). O sistema BIM traz diversas vantagens na organização, planejamento e comunicação do projeto mas ainda é pouco utilizado durante a produção dos edifícios. Com isso, pesquisadores estão trabalhando na integração deste sistema digital e sua interface com o ambiente físico.

Por sua vez, a introdução da Realidade Aumentada vem como facilitador nas trocas de informações entre os envolvidos no processo (arquitetos, clientes, construtores e especialidades), e ajuda na avaliação de erros e omissões, aprimorando assim as tomadas de decisões durante a construção. A tecnologia de ponta vem ganhando espaço em muitos ofícios e áreas do conhecimento, e o canteiro de obras não escapa ao alcance dos avanços tecnológicos.

Construção do Complexo Praça dos Museus da USP / Paulo Mendes da Rocha + Piratininga Arquitetos Associados. © Denise Maher
Construção do Complexo Praça dos Museus da USP / Paulo Mendes da Rocha + Piratininga Arquitetos Associados. © Denise Maher

Tensionar, ponderar e articular fazem parte da prática arquitetônica. Não apenas entre os arquitetos e arquitetas que trabalham diariamente nos canteiros de obra, mas sobretudo entre eles. Numa espécie de jogo de forças ou cabo de guerra em que objetivo não é derrubar o oponente, mas encontrar um equilíbrio, a figura do arquiteto se apresenta como mediadora de vetores, flexionando-os de acordo com as circunstâncias e com base na experiência para, ao cabo, todos os esforços resultarem no edifício.

Numa tentativa de relativizar e analisar estes aspectos que compõem o que chamamos de canteiro de obra, a Trienal de Arquitetura de Lisboa promove, como parte de suas atividades, a exposição Obra, com curadoria do arquiteto André Tavares. Partindo de casos de estudo inusitados para tratar a questão – como o arquivo profissional de Cedric Price e a estrutura empresarial de François Hennebique – a exposição pretende oferecer “leituras cruzadas sobre as problemáticas que os estaleiros [canteiros] de obra levantam”.

Construção do Centro Esportivo Campbell / Steven Holl Architects. © Chris McVoy
Construção do Centro Esportivo Campbell / Steven Holl Architects. © Chris McVoy

Evitando deliberadamente algumas regiões insólitas da física contemporânea, se atirarmos ao alto uma maçã, ela retorna ao solo. O mesmo na arquitetura: uma parede, se mal construída, rui e se desfaz em tijolos e uma estrutura de concreto, se mal calculada pode colapsar resultando em desastre. A materialidade ainda tem um peso muito grande na arquitetura (entendida como edificação), assim, permanece a questão: estaria a arquitetura, para sempre, limitada à técnica e ao canteiro? 

Acompanhe nossa cobertura da 4.ª Trienal de Arquitectura de Lisboa

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Sobre este autor
Pedro Vada e Romullo Baratto
Autor
Cita: Pedro Vada e Romullo Baratto. "Canteiro, o lugar de tensão na construção civil" 30 Set 2016. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/796294/canteiro-de-obras-lugar-de-tensao> ISSN 0719-8906

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