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Crises e a Expansão do Campo da Arquitetura / Diego Fagundes

Crises e a Expansão do Campo da Arquitetura / Diego Fagundes
Crises e a Expansão do Campo da Arquitetura / Diego Fagundes, Demolição do Pruitt-Igoe em 1972. Image © U.S. Department of Housing and Urban Development Office of Policy Development and Research. Imagem de domínio público
Demolição do Pruitt-Igoe em 1972. Image © U.S. Department of Housing and Urban Development Office of Policy Development and Research. Imagem de domínio público

O mundo de hoje é definido por um constante estado de crise. Da degradação ambiental, envelhecimento da população, instabilidade financeira, desastres naturais, escassez de habitação, migração global, xenofobia, e uma disparidade de riqueza crescente, para citar apenas alguns; nossas sociedades estão cada vez mais sendo desafiadas por questões sistêmicas em uma escala sem precedentes. Todas estas crises têm consequências espaciais que os arquitetos estão bem preparados para enfrentar e, no entanto, em vez de entrar a fundo em tais questões, parece que estamos tendo nossa própria crise: uma crise de relevância.

Em um primeiro momento, a afirmação do crítico de arquitetura Rory Hyde, já na introdução de seu livro Future Practice: Conversation from the Edge of Architecture, parece dar conta de um mundo em falência, colocando ao arquiteto o duro papel de combatente em um campo de uma batalha já perdida. As visões otimistas tão defendidas por uma corrente de utopistas ainda no século XX, apesar de suas melhores intenções, demonstram-se falhas em sua essência e os planos de renovação urbana motivados pelo período pós-guerra acabaram por representar a eclosão e intensificação de conflitos sociais, crimes e violência - levando muitos desses grandiosos projetos à demolição em uma vã tentativa de reparação, sendo notório o caso do  Pruitt-Igoe em St. Louis, Estados Unidos. (JENCKS, 1984).

Entretanto, o que a afirmativa de Hyde procura demonstrar enfaticamente é que contextos de crise e de transformações econômicas e sociais figuram também como contextos propícios ao desenvolvimento de novas práticas criativas que se colocam além dos limites estabelecidos pelos campos disciplinares tradicionalmente estabelecidos. Retomando o conceito de Utopia trabalhado pelo filósofo alemão Karl Mannhein, percebe-se que na tensão - entre os impulsos de transformação (de orientação utópica) e os de conservação (que tendem a se consolidarem em ideologias) - podemos encontrar um potencial campo em expansão para a emergência do que chamaríamos “novas práticas espaciais”. Para além de uma visão exclusivamente pessimista em relação à ideia de crise e do que ela representa materialmente, é importante enxergar as oportunidades inerentes a essa condição. Em certo ponto questões outrora tratadas como externas aos limites da arquitetura passam a ser efetivamente centrais à conquista de um novo espaço e relevância para a prática desta profissão.

Em relação a este contexto citado por Hyde, temos um novo cenário de crise que se desenvolve em escala global desde 2008 com algumas oscilações e diferentes repercussões nos diversos cenários econômicos globais. De modo geral, os países europeus, além dos Estados Unidos foram os mais afetados imediatamente, gerando por exemplo, situações peculiares na economia de países como Espanha, Grécia e Portugal, na periferia da União Europeia. É notório o aumento do desemprego nesses países atingindo sobretudo a indústria da construção e a população jovem, que sem perspectivas de colocação no mercado de trabalho acaba por integrar uma onda migratória em direção à países de economia mais estável. Tal cenário, embora delicado, ainda assim favoreceu o surgimento de um processo de reflexão e discussão sobre a relevância da arquitetura e do papel do profissional arquiteto em uma nova ordem social.

Ao falar de novas práticas espaciais é preciso posicioná-las em relação ao que seriam as “antigas práticas espaciais” ou pelo menos àquelas práticas as quais essas novas se opõem ou diferenciam. Estas práticas definidas em termos de participação e ativismo tendem a ocorrer justamente nestas épocas de crise.  Por este motivo não seria estranho admitir que os últimos grandes movimentos recordados como sendo de vanguarda arquitetônica são justamente aqueles ocorridos entre as décadas de 1960 e 1970, quando as condições econômicas e sociopolíticas eram muito similares às atuais. Na introdução do livro Project Japan - Metabolism Talks, Rem Koolhaas e Hans Ulrich Obrist  afirmam que o Metabolismo foi o último movimento de vanguarda a mudar o panorama da arquitetura mundial. É preciso avaliar o contexto a que tal afirmação se destina: um mundo profundamente imerso em transformações econômicas, culturais e tecnológicas, maio de 68, guerra do Vietnã, a crise do petróleo, contracultura, surgimento dos microchips e computadores pessoais, entre uma série de outras transformações de ordem política, social, econômica e cultural. Desta maneira, retoma-se o conceito de novas práticas espaciais como sendo pontuadas por um lado pelo otimismo em relação aos novos fatos e, por outro, pela rebeldia e insegurança em relação a um sistema de situações dadas anteriormente como certas e representativas de uma determinada ordem social. As novas práticas portanto não se aplicam ao métier tradicionalmente aceito e destinado ao arquiteto como projetista e construtor do mercado imobiliário, posição esta assumida plenamente a partir da década de 1980 com a decadência do poder estatal e aumento da intervenção privada e da especulação imobiliária causando a erosão das responsabilidades cívicas e sociais atribuídas aos arquitetos modernos. Antes de tudo tais novas práticas procuram contestar essa posição dentro desta mesma estrutura social. Tal visão a respeito dessas atribuições então dadas ao arquiteto podem ser melhor entendidas a partir da ideia de campo, trabalhada pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu e definida concisamente em um de seus artigos:

"(...) Um campo é um campo de forças em que os agentes ocupam posições que determinam estatisticamente as posições que assumem em relação ao campo, essas tomadas de posição são destinadas tanto a conservação ou transformação da estrutura das relações de forças que é constitutiva do campo.”

O fascínio com um processo de “reconstrução” da figura do arquiteto e de sua função social surge como uma resposta direta ao cenário de crise. Esta inquietação da estabilidade profissional da arquitetura durante grande parte do século passado tem forçado muitos arquitetos a questionar as motivações e os pressupostos sobre os quais a profissão e sua prática foram construídas. Ao ultrapassar essa linha que marca o papel tradicional do arquiteto-projetista, abre-se todo um campo para criarmos novos territórios de atuação. Passamos a perceber então a possibilidade de uma arquitetura mais difusa, que se desmancha em seus contornos e que adquire matizes mais amplas. Um entendimento que leva a pensar que investigar, escrever, teorizar, caminhar percorrer a cidade também podem ser formas de fazer arquitetura, criando novas topografias em que possam ser então erguidas novas utopias. Em suma, trata-se da busca incessante do arquiteto por sua relevância no mundo.

NOTAS
[1] HYDE, R. Future Practice: Conversations from the edge of architecture. New York: Routledge, 2012.
[2] O crítico de arquitetura Charles Jencks (1984) decretou o dia 15 de julho de 1972 - data da demolição do conjunto habitacional Pruitt Igoe, em St. Louis, Estados Unidos - como a data de morte da arquitetura moderna. A afirmação de Jencks refere-se a questões que vão muito além de meras modas estilísticas, direcionando-se ao cerne do projeto social moderno, a grande e tão sonhada utopia salvadora. Por certo, a arquitetura moderna não encontrou seu triste fim nos escombros e poeira da demolição programada, mas as coisas jamais poderiam ser iguais.
[3] JENCKS, C. The language of post-modern architecture. New York: Rizzoli, 1984.
[4] MANNHEIM, K. Ideologia e Utopia. Tradução Sérgio Magalhães Santeiro. 4. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986. v. 1.
[5] POHL, E. B. Hacking into Public Spaces / Hackeando el Espacio Social de los Encuentros. Arquine, v. 58, p. 87 – 90, dezembro 2011
[6] KOOLHAAS, R.; OBRIST, H. U. Project Japan: Metabolism Talks. 1. ed. [s.l.] Taschen, 2011.
[7] BOURDIEU, P. The Political Field, the Social Science Field, and the Journalistic Field. In: BENSON, R. D.; NEVEU, E. (Eds.). . Bourdieu and the journalistic field. Cambridge ; Malden, MA: Polity, 2005. p. 29–47.
[8] POHL, E. B. Hacking into Public Spaces / Hackeando el Espacio Social de los Encuentros. Arquine, v. 58, p. 87 – 90, dezembro 2011

Diego Fagundes é arquiteto, urbanista e ilustrador nascido em Porto Alegre - RS. É fundador e coordenador do Nimbu, estúdio colaborativo de arquitetura e design situado na cidade de Belo Horizonte. Desenvolve pesquisa de doutorado voltado aos jogos eletrônicos, cibernética e arquitetura pela Universidade Federal de Minas Gerais - MG.

Sobre este autor
Diego Fagundes
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Cita: Diego Fagundes. "Crises e a Expansão do Campo da Arquitetura / Diego Fagundes" 04 Ago 2016. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/792679/crises-e-a-expansao-do-campo-da-arquitetura-diego-fagundes> ISSN 0719-8906