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Arte e Arquitetura: "O Condomínio Absoluto", por Carlos Teixeira e Vasco Mourão

Arte e Arquitetura: "O Condomínio Absoluto", por Carlos Teixeira e Vasco Mourão
Arte e Arquitetura: "O Condomínio Absoluto", por Carlos Teixeira e Vasco Mourão, © Vasco Mourão
© Vasco Mourão

O ensaio a seguir, intitulado "O Condomínio Absoluto", foi escrito pelo arquiteto Carlos Teixeira, do escritório Vazio S/A, e consiste em uma narrativa fantástica que conta a história da construção da São Paulo Tower, um colossal arranha-céu que seria supostamente construído na região central de São Paulo. Os desenhos que acompanham o texto são de autoria do ilustrador português Vasco Mourão, que trabalha para o jornal The New Yorker.

No ano 2000, o projeto São Paulo Tower, eventual maior edifício do mundo, foi proposto pelo ex-guru dos Beatles, Yogi Maharishi, em parceria com um empresário local, Mário Garnero. Mesmo em meio a protestos de jornalistas, urbanistas e arquitetos contra o colosso, a prefeitura da cidade de São Paulo arranjou tudo pra que o colosso fosse construído – recebeu o guru de braços abertos, redigiu leis, ignorou críticas –; mas por falta de fundos o projeto não foi adiante. “Condomínio Absoluto” é um épico real-fantástico que narra um desdobramento dessa construção. 

1. O guru Maharishi ou “o grande sábio e cientista da consciência” idealizou o maior prédio do mundo, a Maharishi São Paulo Tower. A torre seria um elogio à ciência dos Vedas8  e aos ensinamentos do hinduísmo9, aproveitaria os antigos princípios da arquitetura védica e teria uma área construída 85 vezes maior do que o atual maior prédio do mundo. 

2. De todas as etapas de construção, mais longa foi aquela das fundações: cinco anos! Chegou-se a uma profundidade de 80 metros abaixo da cota 300, nível médio da área que acompanha as margens do rio Tamanduateín. Construídas em área que abrange 60 quarteirões ou 750.000 m2, as estacas causaram a remoção de terras e mais terras e foram usadas na construção de um gigantesco aterro sobre o próprio parque que integraria o projeto. Além desse parque, de 50 hectares, outros benefícios anunciados foram dois museus, dezesseis shoppings, sete centros de convenções, nove hotéis, sete spas, e mais um milhão e meio de metros quadrados de área construída distribuídos em 22.230 salas, 3.400 lojas, 65.500 apartamentos e tudo o mais que há numa cidade. 

© Vasco Mourão
© Vasco Mourão

3. A torre na verdade seriam quatro: uma em cada canto de um quadrado, sendo que o espaço entre elas seria reservado como áreas públicas suspensas em cada um de seus 108 andares. A forma de tronco de pirâmide, típica da arquitetura hindu, traria a São Paulo todo o poder inerente às forças divinas capazes de por fim às aflições humanas assim como combater a avareza, a inveja, a cobiça e outros pecados de todos os homens. 

4. E então, quando terminadas as fundações, chegou a hora da super-estrutura. Esta seria inspirada no conceito do John Hancok Building10, de Chicago, construído em 1969. Inserida no perímetro do prédio, todas as forças dessa fantástica estrutura estariam refletidas no desenho de sua trama tubular, sendo dispensável o emprego de pilares internos. Todos os empuxos, contraventamentos, reações, recalques e torções seriam resolvidos e estampados na fachada em X. O arquiteto escolhido para desenvolver o projeto foi o nipo-americano Minoru Yamasaki11. A reação da cidade frente ao monstro foi imediata: arquitetos locais, pessoas bem instruídas, intelectuais, artistas, jornalistas etc., foram terminantemente contra e ativaram todos os jornais e televisões contra o projeto, mas enquanto a longa polêmica não se resolvia despontavam no horizonte os primeiros marcos verticais da pirâmide... 

© Vasco Mourão
© Vasco Mourão

5. As obras seguiram com velocidade estrondosa: em um ano e meio já tinham chegado na altura do octagésimo andar. Foi quando surgiram as primeiras desavenças entre os próprios incorporadores, o Maharishi Global Development Fund (o “tesouro inesgotável do mundo para a paz e a felicidade da Terra”) e o grupo Brasilinvest12, parceiro brasileiro. Este último provou que as fundações foram superdimensionadas e suportariam uma carga até três vezes maior que a carga do projeto, o que justificaria um aumento do número de andares para 324. A nova polêmica prosseguiu até que fosse atingido a último andar da pirâmide. 

© Vasco Mourão
© Vasco Mourão

6. Em conversas durante a festa da cumeeira, decidiu-se então que o grupo Brasilinvest seria responsável pela continuação do prédio. Os riscos seriam apenas do Brasilinvest, que teria também que arcar, sozinho, com o seguro de construção dos primeiros 108 andares e dos novos andares. Yamasaki foi consultado para continuar projetando, mas seu escritório recusou a tarefa, ciente que estava do destino apocalíptico de dois de seus mais conhecidos edifícios (o conjunto habitacional Pruitt Igoe13 - que, quando implodido, marcou a morte da arquitetura moderna - e o World Trade Center14 de Nova York).   

7. A estrutura não poderia ser uma mera continuação da estrutura original: teriam antes que prover alguns ajustes na malha perimetral para que as novas cargas não prejudicassem a estrutura já montada, calculada para receber somente os 108 andares. Calculistas consultados, chegou-se a conclusão que o melhor mesmo seria adotar um outro tipo de estrutura, que alteraria a estrutura original do edifício. 

© Vasco Mourão
© Vasco Mourão

8. Os protestos do guru não impediram que o projeto da bem-aventurada pirâmide fosse deturpado. Um calculista de concreto armado, estrutura típica dos prédios do Brasil, decidiu inserir uma malha tradicional -- com  colunas modernistas e vigas ortogonais lançados segundo as práticas do país -- para reforçar a estrutura. Enormes vigas de transição suportariam uma malha de 124 colunas, agora locadas no miolo do prédio e não mais no plano das fachadas.   

© Vasco Mourão
© Vasco Mourão

9. Até que, na altura do 147º andar, os próprios incorporadores passaram a temer a altura atingida pela construção. Oscilações de mais de três metros para um lado e para o outro nos últimos andares faziam os trabalhadores dos últimos andares descer desesperadamente para andares menos vulneráveis às forças do vento. Assustados, os incorporadores recorreram então aos planos de arquitetos e engenheiros de arranha-céus famosos e saíram-se com a ideia de voltar à estrutura metálica, inserindo agora pilares metálicos (que se misturavam com os de concreto armado) no meio do prédio, o que reforçaria a estrutura do arranha-céu e possibilitaria o efetivo e máximo aproveitamento das fundações. 

© Vasco Mourão
© Vasco Mourão

10. Assim foi a construção até o andar de número 184.  

11. Mas ocorreu uma súbita falta de fundos do incorporador. As oscilações da economia brasileira, boatos sobre o destino incerto prédio, a relutância do prefeito de São Paulo em salvar o empreendimento com recursos públicos - tudo isso fez com que fosse anunciado o término das obras, pelo menos temporariamente. Tudo ficou parado por mais de três meses. 

© Vasco Mourão
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12. Até que os técnicos dos quatro prédios, insuportável que achavam a cena daquele predião incompleto, resolveram eles mesmos continuar a obra. Assim, simplesmente: “queremos nós mesmos continuar a obra”. Sem qualquer experiência, encarregados e serventes agora substituíam os metais por peças de madeira sobrepostas a coisas de concreto e a “obras de arte”15 (pontes e viadutos de concreto que melhor articulavam os quatro prédios entre si), enquanto engenheiros antes subordinados agora executavam suas próprias ideias.   

13. Enquanto os engenheiros e estagiários continuavam cheios de fôlego e autoconfiança nessa hercúlea empreitada, o incansável empresário Mário Garnero (grupo Brasilinvest) conseguia agora novos empréstimos via contatos diretos com bancos públicos. Todos os salários atrasados foram pagos. Toda a precariedade e improvisação dos últimos andares foi então substituída por mais pilares metálicos, agora obedecendo à lógica inicial da estrutura na fachada. E assim foram construídos mais de 143 andares sem que nada de excepcional acontecesse, agora mais uma vez construídos com a estrutura seguindo a lógica do John Hancock Building. 

© Vasco Mourão
© Vasco Mourão

14. Mais 40 andares foram construídos, com apenas um acidente de trabalho e uma queda fatal (do 217º andar). Os trabalhadores continuavam construindo loucamente, durante feriados, dias de semana, domingos, de dia, de noite, de madrugada, sempre. 

15. O caixa do empreendimento agora parece não mais ter problemas: a procura por apartamentos e salas se torna maior que a oferta possível, o que faz aumentar o preço por metro quadrado, o ágio entre revendedores e a ansiedade na espera pelo término do prédio.   

16. Mais 33 andares.   

17. Mais 12 andares. 

18. Mais 81 andares. Sem acidentes, sem desacordos, sem problemas.  

19. Mais 23 andares. Tudo sob controle. Agora não só os trabalhadores, mas os engenheiros, arquitetos e corretores, cada vez mais orgulhosos que estavam do gigante monumento sob seus pés, decidiram também trabalhar aos sábados e domingos, mesmo que os empregadores negassem-se-lhes a pagar hora extra. Começaram também a finalizar os primeiros 100 andares das torres, logo depois ocupados pelos primeiros compradores. Na cerimônia de inauguração, uma reação inusitada: o total apoio da população, elogios rasgados da mídia e artigos em jornais que exaltavam a mistura de programas e as formas do prédio, que foram implantados (só até o 108º andar) de acordo com o projeto original do guru Maharishi. 

20. Mais 78 andares. Dias atuais. O prédio continua crescendo vertiginosamente, à taxa de 20 andares por mês. E as imagens do prédio, antes denunciadas por arquitetos brasileiros (“arquitetura apátrida que em nada enriquece nossas sólidas tradições modernas!”), são agora um arrojado símbolo nacional. Todos os andares de número 1 a 209 já estão ocupados, sendo longa a lista de pretendentes aos espaços que serão disponibilizados nos próximos andares - todos há muito vendidos e revendidos (com ágio) várias vezes e com quase a mesma liquidez de papel moeda. 

© Vasco Mourão
© Vasco Mourão

21. Através de um Fundo Imobiliário de capital aberto, o metro quadrado da Maharishi passa a ser negociado na Bolsa de Valores de São Paulo, fato até então inédito na história do mercado imobiliário brasileiro. Rumores de que a Torre se aproxima de sua altura máxima fazem o preço da cota subir vertiginosamente; boatos de que a estrutura está comprometida reduzem as ações a preços simbólicos;  notícias de assaltos, assassinatos e sequestros cada vez mais intensos no resto da cidade realavancam o capital do fundo, e assim sucessivamente. 

22. Inicialmente uma cacofonia de prédios sobre prédios, agora os espaços internos da torre são absurdamente complexos e surpreendentes: barracos improvisados se alinham a delírios modernistas, formalismos radicais penetram com incrível agressividade na estrutura em X, e fantasias estruturais (metal + concreto armado) possibilitam ocupações inusitadas dos vazios entre as quatro torres da Torre. Telhados viram terraços que servem como decks que se transformam em pontes que são ocupadas por casas e que viram prédios construídos sobre obras de arte, e assim sucessivamente.    

23. Mais 55 andares. Enquanto todos lutam por um lugar na torre, a cidade de São Paulo começa a se esvaziar. Na periferia, no Centro, nos Jardins e em Jaçanã, casas, prédios, hospitais, shoppings, escolas -- enfim, todos os imóveis em todos os bairros de toda a Grande São Paulo vão sendo abandonados. 

24. E então tudo começa, num surpreendente crescimento horizontal da base do colosso, a abraçar os principais edifícios da cidade. O Mosteiro de São Bento, a Oca, o MASP, o edifício Copan, o hotel Unique e o edifício Banespa – praticamente nenhum símbolo da cidade é poupado pela torre sincretista, pouco restando para comemorar a memória arquitetônica da cidade. 

© Vasco Mourão
© Vasco Mourão

25. Alguém se lembra que a soma dos andares (são quantos até agora?) já ultrapassa em muito o número máximo permitido pelas fundações. Mas ninguém liga, e todos continuam construindo, comprando, especulando, mudando para a Torre. 

Sobre este autor
Romullo Baratto
Autor
Cita: Romullo Baratto. "Arte e Arquitetura: "O Condomínio Absoluto", por Carlos Teixeira e Vasco Mourão" 25 Mar 2016. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/784410/arte-e-arquitetura-o-condominio-absoluto-por-carlos-teixeira-e-vasco-mourao> ISSN 0719-8906
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