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As contradições da construção civil na China pelas lentes de Raphael Olivier

As contradições da construção civil na China pelas lentes de Raphael Olivier
As contradições da construção civil na China pelas lentes de Raphael Olivier, © Raphael Olivier
© Raphael Olivier

Nos últimos 25 anos, a crescente economia chinesa proporcionou aos arquitetos uma necessidade quase interminável de oportunidades de construção. Empréstimos facilitados permitiram um aumento crescente em projetos de infraestrutura: a China consumiu mais concreto em três anos que os todo Estados Unidos utilizou no século XX. Mas em um país onde o número de cidades com mais de um milhão de habitantes passou de 19 em 1970 para 106 em 2015, a velocidade de desenvolvimento permitiu alguns experimentos de alto padrão juntamente com os muitos projetos necessários. Talvez não exista exemplo melhor deste fenômeno que a cidade de Ordos. A metrópole do Interior da Mongólia – lar de mais de 100.000 pessoas – que surgiu no deserto do norte em meados dos anos 2000 foi projetada para mais de um milhão de habitantes. A realidade veio à tona do grande público quando o grupo Al Jazeera escreveu sobre as incertezas do mercado imobiliário chinês.

Após ter vivido na China por vários anos, o fotógrafo Raphael Olivier finalmente cedeu ao impulso de ver Ordos com seus próprios olhos. Ao visitar a cidade no ano passado, encontrou uma cidade bem conservada que ainda é em grande parte desabitada. Entrevistei Olivier sobre o projeto, suas impressões sobre Ordos, a prosperidade chinesa, e o que isso significa para arquitetura fotográfica.

© Raphael Olivier © Raphael Olivier © Raphael Olivier © Raphael Olivier + 20

© Raphael Olivier
© Raphael Olivier
© Raphael Olivier
© Raphael Olivier

Vladimir Gintoff: Você tem uma visão particular em mente antes de visitar um lugar de como você gostaria de o fotografar? E você fez muita pesquisa antes de ir visitar, ou tinha apenas uma noção da cidade e interesse em conhecê-la?

Raphael Olivier: Ordos é uma cidade bastante conhecida que recebeu grande cobertura de diversos fotógrafos e jornalistas na imprensa internacional. Foi desta maneira que descobri sobre a cidade também, como muitas pessoas. No entanto eu senti ao longo da minha pesquisa que todos os artigos e imagens que pude encontrar eram bastante similares, apenas algumas fotos de pontos turísticos chave e ruas vazias para ilustrar o texto clássico sobre o frenesi da ambiciosa construção civil na China. Não conseguia encontrar nada além desta documentação clichê e definitivamente nada mais consistente e desafiador, e ao longo do trabalho, procurei focar mais na arquitetura e na interação humana neste contexto urbano peculiar. Então queria muito conhecer e explorar a cidade calmamente, levanto tempo para perambular por lugares menos famosos e fotografar estes vários espaços vazios de forma coesa.

© Raphael Olivier
© Raphael Olivier

VGComo você caracterizaria a experiência de estar em um lugar que simula atividade humana, mas é na verdade carente disto? Em um primeiro momento, lembrei da primeira cena do filme Extermínio (título brasileiro, no original 28 Days Later) onde o centro de Londres é uma cidade fantasma após uma epidemia de virus.

RO: Vamos ser francos, Ordos não é totalmente vazia, existem cerca de 100.000 pessoas morando lá. Isso significa 10% de ocupação, quase toda ela concentrada no pequeno centro da cidade, onde se parece com qualquer outra entendiante cidade chinesa deste porte, com alguns hotéis, bancos, restaurantes e até um McDonald's. Mas imediatamente após este pequeno perímetro de ruas movimentadas, o estranho vazio onde a atividade humana é escassa. Nas fotografias com as pessoas, as vezes eu tinha que esperar de 10 a 15 minutos para que passasse alguém para o enquadramento, e se eu perdesse a chance da foto, teria que esperar outros 15 minutos até uma segunda chance. Por quilômetros a paisagem é de uma quietude pós-apocalíptica com projetos de habitação semi-acabados, monumentos decadentes e estruturas futurísticas estranhas espalhadas por todos os lados. Houveram muitos momentos onde eu senti como naqueles filmes, como se fosse o último humano ainda vivo, andando em grandes rodovias desertas, mas carregando uma câmera ao invés de uma arma.

© Raphael Olivier
© Raphael Olivier

VGQuando você estava fotografando, você estava pensando para qual público seriam estas fotos? Especificamente estou refletindo como os chineses poderiam reagir (ou teriam reagido) à essas imagens?

RO: Nunca pensei em um público para estas fotos, em parte porque senti que o assunto Ordos já havia ganhado bastante cobertura. Essa obra foi basicamente apenas eu me divertindo, sem muita reflexão. Do que eu obtive resposta do público chinês online, os comentários giravam em torno de "mas que desperdício de dinheiro, por que nosso governo não está fazendo algo mais útil?" Os chineses estão muito conscientes sobre a corrupção generalizada e o gasto irresponsável das autoridades locais, e eles criticaram bastante isso na internet.

© Raphael Olivier
© Raphael Olivier

VG: O que eu acho tão bizarro sobre estas fotos é quão limpa a cidade aparenta. Estão todas as infraestruturas urbanas já instaladas - eletricidade, esgoto, etc? 

RO: A aparência limpa não é uma ilusão, Ordos é bem limpa. Como a cidade está localizada no meio do deserto com grande parte de sua área bastante abandonada, existe muita pouca poluição. É na verdade bastante revigorante para China. Mesmo no centro da cidade, existem mais funcionários municipais catando lixo e regando as plantas do que pedestres de fato. Poderíamos dizer que a infraestrutura está completa para "padrões chineses". Outra maneira de o dizer é que está mais ou menos completa - bom de longe, mas longe de ser bom. Sim, energia elétrica está na maioria dos lugares, mas pobremente instalada. Existem esgotos também mas uma inundação gigante na frente de um banco no centro é muito comum. Tudo é construído rápido e barato, sem qualquer visão de longo prazo. Em muitos complexos residenciais os edifícios são oficialmente acabados com pessoas vivendo no interior, mas ainda há película de proteção plástica nas janelas e os elevadores são ainda aqueles elevadores de obra, de metal enferrujado. Os carros abaixo estão estacionados na terra aparente, e as pessoas estão plantando pequenas hortas improvisadas sobre estes estacionamentos não pavimentados. Há um monte de faça-você-mesmo envolvido na vida diária das pessoas, assim como em qualquer outro lugar na China.

© Raphael Olivier
© Raphael Olivier

Ordos Hotel / EXH Design

© Raphael Olivier
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VG: A maioria das fotos são externas, mas tem uma bastante imponente de um enquadramento no campo de futebol dentro do estádio - você teve que pedir acesso ou existe uma falta geral de impedimentos?

RO: Não ficou muito claro para mim se o estádio estava ainda em construção, pronto para sediar um evento ou já abandonado. Tinha uns guardas com uniformes fumando cigarros no portão principal, eu apenas passei na frente deles dizendo que iria entrar para dar uma olhada. Eles não pareceram se importar. Uma vez dentro do estádio, o acesso para a arquibancada era livre, mas o campo estava fechado. No entanto, encontrei um portão que estava meio aberto, o suficiente para uma pessoa passar, então entrei. Encontrei outros guardas por ali e apenas trocamos 'ois' e não houve muito papo.

© Raphael Olivier
© Raphael Olivier

VGAs únicas vezes que somos expostos a esse tipo de paisagens - áreas 'urbanas' sem humanos - são antigos sítios arqueológicos ou cenários de filmes. Com isso em mente, parecia mais um estúdio de cinema ou uma ruína recém formada?

RO: Em muitas coisas Ordos me lembrava aquelas cidades retro-futurísticas na Sibéria em período Soviético, hoje totalmente em ruínas como estações espaciais abandonadas. Os monumentos arrogantes e e excessivamente zelosos, os enormes blocos habitacionais, as super-estruturas futuristas extravagantes supervisionados por funcionários sub-qualificados e completamente entediados, no pateticamente otimista estádio Olímpico. Realmente parece história se repetindo, mas com um toque de modernidade. A China de hoje tem mais dinheiro, mais tecnologia, mais mão de obra, de modo que os resultados são proporcionalmente mais impressionantes, mas a essência é mais ou menos a mesma.

© Raphael Olivier
© Raphael Olivier

Ordos Art & City Museum / MAD Architects

VG: Como alguém que já passou um bom tempo na China, Ordos pareceu uma versão ampliada do que está acontecendo em todo o país ou algo único na sua escala?

RO: Ordos é similar ao que está acontecendo em toda China no sentido de ser uma cidade construída a partir do zero em um curto período de tempo e tentando se tornar uma nova centralidade urbana. Existem centenas de exemplos como esses em todo o país, cidades enormes nascem da noite para o dia com sucesso moderado. No entanto, o caso de Ordos é único em termos de estética. A maioria das cidades chinesas se parecem bastante - com intermináveis torres residenciais, grandes shoppings e uma série de arranha-céus modernos, enquanto que Ordos se passa por um OVNI. Muitas das cidades chinesas tentam erguer elementos arquitetônicos contemporâneos em seu skyline, mas Ordos da a impressão de ser exclusivamente composta de edifícios espetaculares e conceituais. Além disso, as cidades chinesas tendem a ser uma grande mistura caótica e um acordo de empreendimentos da iniciativa privada, enquanto que Ordos definitivamente possui sua própria paisagem pré-desenhada e de maneira geral parece um projeto com uma curadoria comum.

© Raphael Olivier © Raphael Olivier © Raphael Olivier © Raphael Olivier + 20

VGA cidade me impressiona como uma certa alegoria em um país de grande prospecção e possibilidades, mas carece de uma visão auto-derivada (como se procurasse no ocidente e o que uma cidade deveria parecer - ao invés de um empreendimento que é tipicamente chinês)? Isso também acontece na vida real ou os fotógrafos acrescentam uma 'camada clínica'?

RO: De fato, a China Moderna tem um sério problema de auto-confiança. Claro que os chineses são mais do que felizes em demonstrar para o mundo como prósperos e poderosos economicamente eles se tornaram, mas por razões históricas e políticas, o país está agora experimentando uma imensa crise de identidade. O país está num ritmo apressado, que não permite muito tempo para criar sua própria identidade urbana, mas ao invés disso, precisa se inspirar em seus gigantes rivais e acrescentar alguns toques de elementos chineses na superfície - como a versão chinesa do termo brasileiro 'tropicalizar'. Mas no processo de o fazer, em tamanha escala e em tão pouco tempo, a verdade é que a China tem hoje sua própria identidade urbana. A coisa triste é que é horrível e acredito que minhas fotos tentam capturar um pouco disto.

© Raphael Olivier
© Raphael Olivier

VG: Você deu o título de “Ordos – A Failed Utopia” para o projeto – você acha que se a cidade tivesse recebido habitantes e projetos como o 100 Villas fosse concluído conforme planejado que o resultado seria verdadeiramente utópico, ou aspirar a esses ideais não passaria de estratégia de marketing?

RO: Se Ordos tivesse ganhado habitantes e se projetos como o 100 Villas tivesse sido concluído, a cidade seria ainda mais fascinante de ser fotografada hoje em dia. Seria muito interessante ver como as pessoas utilizam de fato este ambiente urbano tão único. Os chineses que se mudam para as grandes cidades hoje são em sua maioria camponeses, não estão acostumados com os códigos de conduta de grandes cidades, eles apenas vivem suas vidas dia após dia com os recursos disponíveis. Claro que o resultado nunca seria utópico, aqui estão algumas das pessoas mais pobres do mundo de repente mudando da vida em cabanas e minas de carvão para edifícios em altura e museus de arte, não é uma coisa que funciona. Mas algumas pessoas lá, de alguma maneira, pensam que sim. E isso é que é a beleza de tudo isso, todos esses espaços e situações intermediárias, o poder dos sonhos, a vontade do homem de sempre ser mais. Espero que as pessoas que verem as minhas fotos hoje em dia não estejam rindo da China, mas sim pensando 'uau, estas pessoas dali não necessariamente tem êxito em seus planos mas possuem uma capacidade impressionante em criar coisas'.

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Sobre este autor
Vladimir Gintoff
Autor
Cita: Gintoff, Vladimir. "As contradições da construção civil na China pelas lentes de Raphael Olivier" [With "Ordos – A Failed Utopia," Raphael Olivier Captures the Contradictions of Chinese Construction] 29 Fev 2016. ArchDaily Brasil. (Trad. Santiago Pedrotti, Gabriel) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/782046/com-ordos-nil-a-failed-utopia-raphael-olivier-captura-as-contradicoes-da-construcao-civil-chinesa> ISSN 0719-8906