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Contra a glorificação da arquitetura de caridade

  • 07:00 - 20 Agosto, 2015
  • por Eduardo Cadaval
  • Traduzido por Camilla Sbeghen
Contra a glorificação da arquitetura de caridade
Contra a glorificação da arquitetura de caridade, via Portavoz.tv
via Portavoz.tv

Há alguns meses, o suplemento Babelia do jornal El País, publicou na capa um retrato da arquiteta hindu Anupama Kundoo. No artigo falava-se sobre seu trabalho, entretanto, o que estava destacado na capa não era um dos seus projetos ou as repercussões sociais deles, mas sim a imagem da personagem. Com um "star-system" em baixa devido às repercussões da crise econômica de 2008, o sistema se reproduz com novos personagens: heróis desinteressados que vão salvar o mundo. 

Kundoo - que se incomoda com o rótulo de "arquiteta socialmente responsável" - explicou que é apenas "uma arquiteta", que por sua condição e origem trabalha em certos lugares mas que seu trabalho é como o de qualquer outro profissional. O problema está no fato de que o sistema de difusão - e de educação também - precisa promover e consumir personagens para que a roda continue girando e, por tanto, parece pertinente alertar sobre o perigo da distorção das mensagens, especialmente aos estudantes e jovens arquitetos.

A arquitetura forma parte de uma indústria enorme - a da construção - que gera milhões e milhões de postos de trabalho em todo o mundo e que representa uma porcentagem altíssima do produto interno bruto de cada país. Uma indústria que paga impostos com os quais são desenvolvidos desde parques até serviços sociais e da qual nós, arquitetos, formamos uma pequena parte, ainda que gostemos de pensar o contrário.

O problema do rótulo de “arquiteto socialmente responsável”, (alguma coisa teria que substituir a esgotada sustentabilidade) não é somente simplista mas também irresponsável. Cria expectativas sobre oportunidades de emprego que em muitos casos não existem e que se converterão em frustrações para os jovens estudantes que acreditam poder salvar o mundo. Em um ato enorme de soberba, o arquiteto se revela uma pequena peça no quebra-cabeça; não é possível ser como um jardineiro ou um contador, tampouco como um professor universitário ou o motorista do ônibus que todas as madrugadas permite que muitas pessoas cheguem a sua casa ou lugar de trabalho. Tudo bem ser parte da engrenagem que faz funcionar a sociedade, mas é necessário ser mais: herói, como os jogadores de futebol.

Após a crise econômica européia muitos jovens arquitetos encontraram saídas profissionais ajudando pessoas necessitadas em muitas partes do mundo. Mas, também é verdade que em outras muitas ocasiões e com atitudes tremendamente paternais, a América Latina e África foram inundadas de jovens arquitetos expulsos do mercado laboral e dispostos a ajudar desde que fosse a sua maneira: "pobrezinho subdesenvolvido, vou ensinar como fazer um banheiro seco - sei que você já sabe como fazer - mas este ficará "cool", tirarei algumas fotos e viverei disso dando oficinas e conferências por um tempo".

Muitos dos falsos salvadores já voltaram ou encontraram uma oportunidade para se proteger da tormenta na academia em alguma parte do mundo, mas as repercussões e a moda pseudo-salvadora continua no ar. Os meios órfãos de referências encontraram nas proezas dos missioneiros, material para inocentar o monstro que haviam ajudado a criar. Quero aclarar que aqui não se questiona quem verdadeiramente trabalha por alguma causa em específico, mas sim a glorificação do personagem salvador; destacam-se figuras, não esforços, e aí está parte do problema.

Não somos heróis ou talvez somos através da pequena contribuição do nosso trabalho a um sistema complexo. Repito: a arquitetura forma parte de uma indústria que gera milhões de trabalhos, cujos benefícios financiam em parte bibliotecas ou as assistentes sociais que trabalham nos bairros mais desfavorecidos. Neste sentido, é tão necessário o arquiteto que trabalha fazendo uma sala de aula nas favelas do Rio de Janeiro ou Caracas, como o arquiteto que trabalha em uma construtora fazendo edifícios ou pontes que geram oportunidades laborais para que o pai da criança da favela possa também trabalhar e ter suas próprias oportunidades. 

 é sócio fundador do Cadaval & Solà-Morales. Professor associado na Escola Técnica Superior de Arquitetura de Barcelona e professor visitante da Universidade da Pennsylvania e a Universidade de Calgary. É graduado pela UNAM e Mestre em Desenho e  Planelamento Urbano por Harvard.

* Artigo originalmente publicado em Portavoz.tv

Cita: Cadaval, Eduardo. "Contra a glorificação da arquitetura de caridade" [Contra la glorificación de la arquitectura de caridad] 20 Ago 2015. ArchDaily Brasil. (Trad. Sbeghen Ghisleni, Camila) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/772045/contra-a-glorificacao-da-arquitetura-de-caridade> ISSN 0719-8906
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