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Cinema e Arquitetura: "THX 1138"

Cinema e Arquitetura: "THX 1138"
Cinema e Arquitetura: "THX 1138"

Embora existam numerosos casos (antes e depois do THX 1138) de filmes cruciais dentro do cinema pós-moderno, este, talvez por seu momento histórico e conteúdo crítico, pode ser identificado como uma ruptura no pensamento funcionalista que dominava a arquitetura da época. Existia um grande sentimento de opressão e desencanto com o movimento moderno e apenas ano após a estreia do filme, em março de 1972, o conjunto habitacional Pruitt-Igoe foi demolido, uma obra muito premiada e baseada nas ideias de Le Corbusier, simbolizando o fim de uma era.

George Lucas naquela época era um jovem desconhecido com ideias revolucionárias. Entretanto, seu projeto final de graduação resultou muito chamativo, inovador e um tanto difícil de compreender, não tardando a ser convertido em um filme completo para os cinemas. Produto da sua época, mas também de uma grande mente criativa, THX 1138 é um retrato de uma sociedade que critica os valores estabelecidos dentro da nossa cultura e que muitas vezes não somos capazes de observar.

Na época da sua filmagem, surgiram grandes fatos que começavam a transformar a sociedade. Em plena corrida espacial, existia um ar esperançoso de que o papel da tecnologia seria capaz de resolver os problemas da humanidade. Por outro lado, existia um grande sentimentos de tecnofobia, onde as máquinas substituiriam o papel do homem dentro dos processos sociais.

Em meio a este panorama dividido, Lucas buscou retratar uma sociedade incrustada dentro de um mundo completamente tecnológico, separada de qualquer indício da sua origem natural. É uma sociedade que vive dentro do espaço altamente industrializado, cujo único propósito é trabalhar para perpetuar o sistema. A sociedade converte-se em uma máquina cuja finalidade é a de reproduzir-se em um ciclo sem fim. 

Este pensamento provém da mentalidade modernista e de uma das mais famosas frases de Le Corbusier "a máquina de habitar", a qual fala que a arquitetura deve ser uma entidade mecanizada, baseada em princípios funcionais e eficientes. As moradias do filme são espaços desenhados com o mínimo de recursos, com mobiliário escasso, sem a presença de nenhum tipo de ornamento e focados em manter a higiene dos seus habitantes. Entretanto, estas "máquinas habitáveis" que aparentemente são funcionais, no fundo são desumanizantes, provocando a rejeição daqueles que as habitam, enchendo-as de manchas e grafites em sinal de reprovação.

A distopia do filme está expressada no fracasso do modernismo. O exagero dos seus elementos é um protesto claro sobre a situação que acontecia na realidade. A presença das obras de Frank Llody Wright a nível arquitetônico e de representações, por meio de efeitos especiais, de projetos urbanos de Le Corbusier como a "Cidade Contemporânea", servem para exemplificar o fracasso das utopias modernas em um futuro onde a sociedade já não é outra coisa senão um produto a mais em série.

Esta perda do "humano", do natural, do social, do histórico, provoca uma crise de identidade tanto no contexto do filme como na realidade. Os humanos dentro do THX 1138 não compreendem seu propósito além do seu trabalho diário, não se preocupam por aqueles que os rodeiam e em última análise, ainda que desejem abandonar tal realidade, eles têm medo de afastar-se da comodidade e do controle. Da mesma forma, a sociedade da época questionava tal contradição, o que futuramente abriria um grande debate sobre qual deveria ser o melhor caminho a seguir, tal debate que continua até hoje.

O Caminho a THX 1138

George Walton Lucas Jr é um cineasta estadunidense nascido em Modesto, Califórnia, no dia 14 de maio de 1944. Ele cresceu dentro de um ambiente rural e sempre esteve interessado em ser piloto de corrida, porém, após um acidente que quase o matou na sua juventude, direcionou sua visão para o cinema, matriculando-se na University of Southern California. Como estudante, realizou o curta-metragem “THX 1138: 4EB”, que ganhou o primeiro lugar no Festival Nacional de Cinema Estudantil.

Com somente 15 minutos, o filme lhe traria uma bolsa de estudos na Warner Bros. Entretanto, o feito mais contundente foi chamar a atenção do aclamado diretor Francis Ford Coppola, que confiando e pressionando o talento de Lucas, patrocinou a criação de um longa baseado em THX 1138. Contando com um orçamento ajustado, ele utilizou apenas 4 meses para filmagem, mesmo enfrentando muitos contratempos, desde a concepção do roteiro, a seleção das locações, até a seleção dos seus atores.

O filme finalizado era difícil de ser catalogado. Era difícil de compreender, mas também difícil de rejeitar. No momento da sua exibição não foi um êxito de bilheteria mas dentro da crítica foi bem aceito pela revolução que apresentava na utilização dos seus elementos. Mais tarde, o tempo o reivindicaria como uma grande crítica social de um homem que revolucionaria a indústria.

CENAS CHAVES

1. A Industrialização da Vida

O caráter humano encontra-se incrustado em um mundo tecnológico. A sociedade é um simulacro, cujo único propósito de existência é perpetuar-se em série.

2. Ambientação de Alta Tecnologia 

Influenciado pela corrida espacial e pela introdução da tecnologia na vida diária, o diretor buscou um estilo industrializado que refletisse a tecnofobia da época.

3. Marin County Civic Centre

A presença da arquitetura de Frank Lloyd Wright procura enfatizar a distopia moderna, cuja filosofia funcionalista era amplamente questionada na realidade.

4. O Fracasso da "Máquina de Habitar"

A imagem da cidade subterrânea está baseada em espaços funcionais de linhas claras e altamente industrializados, os quais são exagerados para enfatizar uma sociedade automatizada.

5. Cidade Contemporânea / Le Corbusier

Como um projeto utópico para abrigar três milhões de habitantes, o filme recria a cidade com base nos seus princípios teóricos onde vemos as "massas" movendo-se como peões. 

6. A Sociedade do Consumo

As pessoas existem somente com o propósito de trabalhar e consumir. Os produtos são pintados com cores primárias para incitar sua compra dentro de um ambiente monocromático.

7. O Olho Vigilante do Grande Irmão

Inspirado nos escritos de George Orwell, o diretor retrata uma sociedade cujo funcionamento está estritamente monitorado. A privacidade é suspensa por uma questão de ordem e eficiência.

8. Sociedade Uniformizada

As pessoas são vistas como algo a mais no sistema de trabalho. Esteticamente, homens e mulheres aparecem de cabeça raspada e com um vestuário branco que oculta sua silhueta.

9. Daz Existenzminimun / O Mínimo Existencial

As moradias são espaços inteiramente funcionais, desenhados com o mínimo de elementos sem comprometer a higiene e carentes de qualquer característica de status social.

10. Afastamento do Natural

O uso de drogas permite a submissão do indivíduo, imerso em um ambiente monótono e repetitivo, carente de estímulos e que se contrapõe com o caráter natural da humanidade.

11. O Ópio das Massas / A Religião Artificial

Quando a meditação falha, a imagem de OMM, figura religiosa artificial entra em jogo. Ele é um guia espiritual que incita a obediência, o trabalho cego e o consumo desenfreado. 

12. Entretenimento Holográfico 

Como distração durante os descansos, o sistema oferece projeções de todo o tipo. Informativos, comédias, violência gráfica e até erotismo para saciar o lado mais visceral do humano.

13. O Calvário Humano

Os protagonistas se tornam mártires uma vez que sua conduta retorna ao natural. É através do seu sofrimento que cria-se um vínculo com o público ao advertir sua situação desumanizante. 

14. Prisão Infinita

Dentro de um espaço neutro, onde se deformam as dimensões cartesianas, os reclusos habitam indefinidamente. O espaço é definido apenas por suas presenças e suas ações.

15. A Prisão da Mente

Dentro de um fundo homogêneo e contínuo, a figura é limitada. O espaço/fundo não possui limites nem referências. É um não-lugar onde as pessoas se dissolvem e reintegram o sistema.

16. Humano Robótico / Androide Humanizado

A maquinaria apoderou-se tanto da vida humana que a replica de forma artificial. O androide fala e atua como humano enquanto a população reprime suas emoções.

17. Os Habitantes da Superfície

Uma estanha raça de homínidos se refugia nas instalações mais próximas da superfície. Eles se mostram hostis em relação ao protagonista, acostumado com uma vida tranquila e cômoda.

18. A Incógnita da Superfície 

Após sua exitosa fuga, THX 1138 sai pela primeira vez a superfície. O filme sugere que a vida na Terra continua, mas desconhecemos o seu caráter real.

FICHA TÉCNICA

Data de Estreia: 11 de Março de 1971
Duração: 86 min.
Gênero: Suspense / Ficção Científica
Diretor: George Lucas
Roteiro: George Lucas / Walter Murah
Fotografia: David Myers 

SINOPSE 

No século XXV o desenvolvimento da humanidade conduziu a criação de cidades subterrâneas, onde todo aspecto de vida diária está estritamente vigiado e controlado pelo governo. A base da economia está sustentada em um consumismo acelerado por parte dos cidadãos, cujo único objetivo na vida é o trabalho.

Para manter tal estilo de vida, cada habitante recebe constantes doses de sedativos que os direcionam à obediência e sobretudo inibem os sentimentos, fortemente castigados e condenados como a origem da decadência da sociedade.

Sobre este autor
Cita: Altamirano, Rafael. "Cinema e Arquitetura: "THX 1138"" [Cine y Arquitectura: "THX 1138"] 15 Mai 2015. ArchDaily Brasil. (Trad. Sbeghen Ghisleni, Camila) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/766622/cinema-e-arquitetura-thx-1138> ISSN 0719-8906

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