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Os elementos básicos da arquitetura / Gottfried Semper

Os elementos básicos da arquitetura / Gottfried Semper
Os elementos básicos da arquitetura / Gottfried Semper, © Flickr Dani_vr (CC BY-SA)
© Flickr Dani_vr (CC BY-SA)

Introdução
A vivenda, primeira forma da atividade construtora do homem

Qualquer tratado deve, antes de tudo, retroceder até as origens mesmas do tema estudado, seguir seu desenvolvimento gradual e explicar as exceções e variações comparando-as com seu estado primitivo. Por esta razão, não parece necessário justificar o fato de que o presente estudo, que tenta classificar em grupos, famílias e classes tudo o que a arquitetura criou, se abra com o estudo da vivenda ou domicílio privado como tipo original e mais simples.

Há, entretanto, razões para duvidar de que a arquitetura como tal tenha nascido verdadeiramente com a construção de vivendas. A história da arte nos mostra que os povos que tinham uma inclinação artística mais acentuada singularizaram seus edifícios públicos, sobretudo seus templos, pelo procedimento de embelezá-los; enquanto que a vida dos particulares, e em consequência a vivenda privada, não adquiriu refinamento artístico senão até que se produziu um declinar religioso e político ao que acompanhou uma retirada da vida pública, e sua compensação com outra de luxo e esplendor.

Portanto, se dirá, as construções destinadas ao culto público deverão ser estudadas em primeiro lugar; se supõe que são a primeira e única causa do crescimento de uma arte refinada e autêntica, nacional; sem a devoção religiosa isto não haveria ocorrido.

Não há dúvida de que uma arte autêntica não existe sem devoção religiosa: esta leva o homem a se deleitar nos seres vivos que são obra do Criador, e lhe conduz, extasiado, a expressar ele mesmo em suas obras de uma maneira criadora, como outra divindade.

Mas esta devoção artística é panteísta, e converte tudo quanto toca em templos de uma divindade que tudo penetra. Ainda que encontre sua expressão mais completa no edifício consagrado, esteve presente no homem desde o princípio: se expressava já na primeira grinalda, nas primeiras tentativas de ornamentação.

Os povos mais antigos da história estavam bem organizados, política e religiosamente. No entanto, antes de alcançar este grau relativamente alto de civilização deveram percorrer um longo caminho (que talvez foi só uma tentativa de voltar a alcançar as alturas que haviam perdido em tempos ainda mais primitivos).

Por exemplo, é improvável que a frugal vida privada dos gregos fosse a que levaram desde um princípio, da mesma forma que pode ser errôneo pensar, diante da severa simplicidade do estilo dórico, que havia sido precedido por formas ainda mais simples. Pelo contrário, a não ser que estejamos gravemente equivocados, os tempos heroicos e históricos foram precedidos por um período de vida cômoda e luxo privado.

Naqueles tempos, segundo a lenda (e como confirmaram indícios bastante seguros), se prestava grande atenção a palácios e vivendas, enquanto que a atividade pública não dava à arte nenhuma oportunidade. Além do mais, não existiam os templos tal como os concebemos.

O templo é um resultado da evolução do culto funerário; sendo os sepulcros a casa dos mortos, o templo é a forma refinada e idealizada da mesma motivação que subjaz no desenvolvimento da vivenda humana.

Por esta razão, a sequência aqui elegida está justificada, mais ainda se consideramos inegável que, se não a arquitetura, sim foi a construção (em outras palavras, o acoplamento de materiais de um modo bem planejado) a que se expressou primeiramente em vivendas e tumbas.

Como são numerosos os assuntos importantes, esta seção será mais extensa que todas as demais juntas; é também a mais importante, porque introduz em sua forma original os elementos que se desenvolvem nas seções seguintes.

Sendo o começo tão importante, é preciso tanto fazer mais advertências preliminares como descer a muitos detalhes, embora muitos deles pareçam sair do plano e estrutura deste livro.

Esta minuciosidade permitirá fazer mais curtas as outras seções, nos contentando com citações deste capítulo.

Pela extensão do campo que abarca esta obra, não é possível fazer mais que tocar ligeiramente as importantes inter-relações geográficas, morais, políticas e religiosas entre as nações e as transformações ocorridas através dos séculos. A intenção do autor é colocar o leitor em situação de compreender as manifestações destes povos.

O lar
O lar e seu significado simbólico

Antes de pensar em erigir tendas, paliçadas ou choças, os homens se congregavam ao redor do fogo: a fogueira que os mantinha secos e quentes, na que podiam preparar seus simples alimentos. O lar é o germe, o embrião de todas as instituições sociais. O primeiro sinal de assentamento, de reunião, de descanso, após os longos períodos de nomadismo e trabalhos da caça, está sempre a fogueira, o brilho das chamas crepitantes. Desde os primeiros tempos, o lar se converteu em lugar de culto; ideias religiosas antiguíssimas e persistentes estavam associadas a ele. Era um símbolo moral: congregava aos homens em famílias, tribos e nações, e contribuía ao desenvolvimento das instituições sociais ao menos tanto como a necessidade ou a pobreza. O altar doméstico foi o primeiro objeto singularizado por meio da ornamentação; ao longo de todos os períodos da sociedade humana, formou o foco sagrado em torno ao qual cristalizaram, como um todo, os outros elementos dispersos.

O lar manteve seu secular significado até nossos tempos. A chaminé segue sendo o centro da vida familiar.

Compartilhar os alimentos no fogo doméstico era sinal de pertencer à comunidade. Em grego e latim, as palavras «koine» e «caena» adquiriram o significado de associações sociais; o alemão «Genossenschaft» [associação] se deriva de «geniessen» [provar a comida].

Mas o significado do lar era ainda maior na Antiguidade: era o lugar consagrado ao mais solene culto religioso. A tumba dos antepassados estava em sua proximidade. Este costume perdura entre os índios da Colômbia. Alguns, como os Salives, colocam a tumba de seus chefes no centro de suas choças; outras tribos secam ao fogo os corpos para pendurá-los depois nas vigas do telhado.

Como duvidar de que o costume egípcio de embalsamar os mortos e de mostrar as múmias em alegres banquetes, assim como as lectisternas romanas com seus retratos em cera dos antepassados, provinham de uns costumes ancestrais igualmente rudimentares? Deste modo se converteram os antepassados nos primeiros em satisfazer a necessidade de concretizar em um objeto físico a emoção religiosa. Altar e lar se fizeram conceitos paralelos, e a máscara dos mortos se converteu no primeiro ídolo.

Quando começaram os matrimônios intertribais e se concluíram as primeiras alianças, os chefes das famílias unidas por matrimônio se reuniam diante do fogo do patriarca que havia sido o organizador. Nestas ocasiões, as duas famílias podiam venerar juntas a seus antepassados e oferecer-lhes libações: a origem do politeísmo.

Assim, o lar, identificado com a tumba ancestral, se converteu em coração e centro do templo, em forma do altar dos sacrifícios.

O palácio do chefe se converteu em memnonium, isto é, em corte real, e a tumba deveio em templo e sede do governo.

Primeiros elementos da vivenda
Proteção do lar. Os quatro elementos da arquitetura: lar, teto, cerca. As duas formas básicas de vivenda

A proteção do lar. Não é preciso demonstrar detalhadamente que a proteção do fogo contra os rigores climáticos, assim como dos ataques de animais selvagens ou de humanos hostis, foi a primeira razão para separar um determinado espaço do mundo circundante.

As razões que fizeram esta separação necessária diferem, entretanto, segundo as circunstâncias.

Em regiões planas e de clima suave, onde se podia viver ao ar livre grande parte do tempo, se necessitava só um toldo leve.

Enquanto que este tipo de proteção contra a intempérie se conseguia com facilidade, não era tão fácil assegurar a defesa contra os elementos desencadeados. Era preciso construir diques para proteger o fogo da inundação proveniente do rio próximo.

Mas também os inimigos deviam ser mantidos longe do lar; os cobiçados campos da planície provocavam a inveja e a rapacidade do homem; os rebanhos estavam expostos ao ataque dos animais selvagens.

Era preciso cercas, valas e muros para proteger o lar, e diques para mantê-lo a salvo das inundações e para vigiar de longe o inimigo.

Assim, pois, das mais imediatas necessidades surgem quatro elementos da edificação primitiva: o teto, o dique, a cerca e, como centro espiritual do conjunto, o fogo social.

Nas regiões rochosas, as numerosas cavernas ofereciam um abrigo natural, ainda que rudimentar, contra as inclemências do tempo. As grutas naturais podiam oferecer com facilidade todo o necessário para uma vivenda segura.  Podemos portanto supor que quando o homem começou a viver em sociedade, em tempos muito primitivos, recorreu às cavernas. Mas é razoável duvidar de que estas tribos, contentes em dispor de certa proteção, vivendo numa região cavernosa porém pequena na que não puderam se fazer numerosas nem potentes, tenham podido influir muito no desenvolvimento da humanidade. O entorno informe das grutas que rodeava estes homens desde o primeiro dia de sua vida teve que ter sobre eles uma influência profunda que os converteu em seres absortos em visões fantásticas, não em homens dedicados ao ordenado mundo da arquitetura.

Portanto, cremos que está plenamente justificado não admitir a caverna como elemento determinante para a arquitetura e desdenhá-la completamente ao investigar suas origens; tentaremos demonstrar esta postura quando se apresente a ocasião.

Outras condições de vida induziram o homem a se reunir e a viver juntos em vivendas, os caçadores que habitavam as regiões de bosques e montanhosas se sentiam amplamente protegidos, tanto da natureza como dos inimigos, pela natureza de sua região, por sua pobreza e pela segurança em si mesmos que lhes dava seu próprio vigor. O povoado, escassa e dispersa, tinha em comum as terras e seu produto; todos podiam usar delas livremente. Não precisavam de paliçadas nem de diques ou acéquias. Só o clima era um inimigo temível; para se defender dele era preciso um teto sólido e cálido. A princípio, este teto era levantado diretamente sobre o solo; só mais tarde, ao se combinar com um muro de proteção, tomou a forma de uma casa.

Há muitos indícios de que os primitivos habitantes do Lácio não conheciam a forma etrusco-grega de construção que haviam de adotar seus descendentes, os romanos. Sabe-se que sua mais antiga forma de vivenda era uma simples choça coberta, algumas das quais ainda se mantinham em pé ao final da época romana. Outra prova nos proporcionam umas estranhas urnas de argila em forma de choça, achadas sob um depósito vulcânico perto de Albano. A atividade vulcânica cessou no Lácio antes dos tempos históricos, antes inclusive dos das tradições e das lendas. Quão antigo devia ser este povo!

A vida nestas choças era cômoda e amável, ao contrário da vida exterior, com seus alarmes e lutas. A cabana se converteu num pequeno mundo à parte; a família, incluindo o rebanho, formava parte dele. Todos eles estavam protegidos por um teto.

Estas choças eram levantadas próximas entre si, embora de maneira desordenada, naquele panorama primordial.

Podemos pois distinguir entre duas formas, basicamente diferentes, de desenvolvimento da vivenda humana. Em primeiro lugar, o pátio rodeado de paliçadas, e em seu interior, algum alpendre aberto de menor importância. Em segundo lugar, a choça, a casa isenta no sentido mais estrito.

Na primeira destas formas, o cercado, que se converteu mais tarde no muro, dominava sobre todos os demais elementos construtivos, enquanto que na segunda o elemento dominante era o teto.

Continuação
Desenvolvimento das organizações sociais: Hierarquia e autocracia

Vimos no capítulo precedente como os primeiros assentamentos evoluíram a partir do mais primitivo estado da vida social, a família. Neste processo supusemos apenas motivos de natureza material, nascidos da necessidade de dispor de um abrigo.

Estes assentamentos puderam manter sua simplicidade original quando os primeiros estados, mediante acordos entre seus chefes, se organizaram em federações, que moldaram suas instituições civis mediante estatutos similares e baseados em normas de parentesco.

Estas primitivas organizações federais se desenvolveram em todas as partes de maneira hierárquica ou autocrática. A história mais antiga narra numerosos casos que o provam, embora raras vezes se indicam as circunstâncias que provocaram estas variações.

O clero podia manter formalmente a velha organização federal, a não ser que os sacerdotes pertencentes a uma família notável houvessem chegado a dominar a federação. Dispunham do privilégio de assistir ao chefe nos serviços religiosos, e em consequência assumiram a permanente e suprema direção dos negócios públicos, prerrogativa que emanava do fogo ancestral dos sacerdotes. Encontramos exemplos de governo hierárquico na Liga Anfictiônica (a união das primitivas tribos helênicas ao redor do fogo comum, em Delfos); o pacto das Doze Tribos de Israel em torno da arca dos Levitas, e a liga egípcia dos Doze Reinos; esta última, entretanto, não surgiu de uma primitiva aliança federal entre tribos livres, senão que seguiu a um estado intermediário durante o qual as tribos estiveram dominadas por um governo autocrático do qual nasceu depois a organização federal.

Exceto quando uma autocracia havia preparado o caminho para a aparição de um estado dominado pelos sacerdotes, a organização hierárquica não era muito diferente em sua forma da original constituição federal; portanto, as características básicas das instituições se viram pouco afetadas por isso.

Em alguns casos, a organização autocrática pôde haver se implantado mediante acordos entre os membros de uma tribo. Porém em geral foi o resultado de incursões e expedições a outros territórios, aos que a federação se havia visto empurrada pelo excesso de população ou por outras razões. 

O laço que criava correr riscos em comum era em certo modo o contrário do vínculo originário e natural entre famílias de uma mesma tribo. Os homens se uniam, não por razões de parentesco, senão por amor à aventura; a juventude; o valor, o vigor, quiçá também a pobreza e as dívidas, os faziam almejar ou ao menos aceitar intrépidas e perigosas expedições. Iam dirigidos por um chefe, livremente eleito ou elevado a essa posição pela força das circunstâncias, o prestígio familiar ou a capacidade pessoal. Assim, destas expedições surgiu o Estado militar governado arbitrariamente.

Diferentemente da forma primitiva de sociedade, baseada na propriedade e na independência individual, o Estado militar mantinha critérios socialistas: exigia que o individual se fundisse no coletivo, cuja expressão ideal era o Estado, personificado em seu governante.

Todos os Estados asiáticos, desde os tempos primitivos até os mais recentes, tiveram uma base socialista. A propriedade foi substituída por um feudalismo militar, no qual a cabeça suprema, como representação visível de uma noção ideal, o Estado, governava sobre todos os meios, materiais e espirituais, que havia nele. Tinha poder sobre a vida e sobre a morte. Todas as posses provinham dele e a ele revertiam tão logo fosse exigido, ou bem como à morte do proprietário.

No relato de suas expedições a Jorsabad, monsieur Botta mostrou com um chamativo exemplo que estes princípios são ainda válidos no Oriente: “Nos países dos mulçumanos não há propriedade verdadeira, mas um simples direito de posse, pago cada ano por uma taxa a um ser ideal denominado imame, representante da comunidade mulçumana e representado ele mesmo pelo governo. Este, não sendo mais que uma espécie de tutor, dispõe do solo no interesse da sociedade que ele personifica, mas não pode aliená-lo por uma venda perpétua”.

Só as sociedades poderosas e bem organizadas podem conseguir que as rotas do deserto sejam seguras para o comércio. Só elas tiveram à sua disposição o trabalho forçado dos escravos; só elas podem desta forma dominar os elementos, resgatar as lamacentas margens do rio e semeá-las com aquilo que as faz insolitamente ricas e capazes de erigir monumentos até o céu e cidades que se estendem ao longo da terra.

A riqueza e a tranquilidade, entretanto, segaram a força vital de um Estado cuja inteira existência dependia da guerra. A paz estava ligada ao estancamento e a uma detenção do desenvolvimento social que pôde durar séculos, até a chegada das revoluções, trazidas for forças externas, não internas.

O que seguiu depois não foi uma forma melhorada e mais progressista da fase precedente; foi outro exemplo do mesmo tipo: devorou seu pai e, cumprido seu destino, caiu por sua vez como presa do seu sucessor.

Os mais antigos povos asiáticos, cujos monumentos ainda estão em pé ou são conhecidos por fontes literárias, se formaram como Estados de forma similar. Haveremos de tratar primeiro de seus monumentos, esses assombrosos testemunhos de seu poder e riqueza; não só porque são os mais antigos, senão porque recentemente se reconheceu sua influência sobre os povos da margem norte do Mediterrâneo, esses países muito organizados nos quais a liberdade civil trouxe consigo o livre desenvolvimento das artes.

Referências:
Gottfried Semper, Vergleichende Baulehre (Teoria comparada da construção), 1849-50 [conservado no Semper-Archiv de Zurique].
Gottfried Semper, Theorie des Formell-Schönen (Teoria da Beleza formal), 1856-59 [conservado no Semper-Archiv de Zurique].
Wolfgang Hermann, Gottfried Semper, In search of architecture, MIT Press, 1984.
Gottfried Semper, “Los elementos básicos de la arquitectura”, em: Juan Miguel Hernán De Leon, La casa de un sólo muro, Nerea, Madrid, 1990, pp.117-123.

Primeira edição em português. © Tradução: Igor Fracalossi. Colaboração: Flora Paim.

Cita: Igor Fracalossi. "Os elementos básicos da arquitetura / Gottfried Semper" 13 Fev 2014. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/174291/os-elementos-basicos-da-arquitetura-slash-gottfried-semper> ISSN 0719-8906