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Crítica, a arte de apagar os nomes

Crítica, a arte de apagar os nomes
Crítica, a arte de apagar os nomes, O crítico vê, por Jasper Johns, 1961
O crítico vê, por Jasper Johns, 1961

Crítica não é opinião. Não é sobre o que alguém disse. Não é sobre o que nós pensamos. Não é sobre ninguém. Crítica é somente sobre a obra mesma. Em nosso caso: a obra de arquitetura. A obra em si não tem juízos, parcialidades, pontos de vista. A obra não vê, não fala, não sente. A obra simplesmente é. E ser não é ser alguma coisa. No entanto, também existe uma obra de crítica. Esse é o problema, um problema muito sutil: a tensão entre a obra de arquitetura e a obra de crítica. A obra de crítica não é falar sobre. Em vez disso, permitir que a obra de arquitetura seja em si mesma.

Crítica tem nas palavras seu meio tradicional. É um problema de escritura. O crítico deve estar dentro disso, e ao mesmo tempo, ser capaz de ver desde fora. Ele também é uma parte crucial do problema. As palavras usadas para a crítica não têm outra maneira que não serem escritas por um crítico. O labor do crítico é ser capaz de apagar seu próprio nome. O único sujeito presente numa obra de crítica é a obra de arquitetura. Não há uma relação verdadeira entre palavras e coisas. Pelo menos na maioria das línguas. Não há uma relação verdadeira entre a palavra maçã e a fruta chamada maçã. Não há uma relação verdadeira entre nossos nomes e nós mesmos. O labor do crítico não é simplesmente usar palavras, mas transcendê-las, levando-as ao extremo onde elas quase não são palavras, onde elas não se tornam palavras, mas a própria coisa em seu particular ser. O labor do crítico é escrever como a coisa, a obra de arquitetura, está sendo. Deixar que as palavras se tornem existência: esse é o labor do crítico.

O crítico escreve a partir do que ele vê. Crítica é também um problema de vista. O crítico deve ser capaz de ver o que a obra de arquitetura é. O crítico enxerga. O crítico possui a virtude de suprimir as vozes na sua mente e de ser a voz da obra quando ela está sendo em si mesma. A obra de crítica leva as palavras ao extremo em que nós não mais as lemos, e a obra de arquitetura pode finalmente estar presente. Crítica é um problema de apresentação, não de representação. Uma apresentação feita pela própria obra, uma auto-apresentação, embora através das palavras do crítico. Crítica é sempre uma auto-crítica, à medida que o crítico se coloca em dúvida e em perigo existencial.

Crítica é sobre palavras em quanto fatos. Não há verdadeira diferença entre projetos não construídos e obras construídas de arquitetura. Em algum lugar que não sabemos, esses projetos não construídos podem estar construídos. Nós podemos imaginá-los construídos. Nós pensamos sobre eles como obras construídas. Eles são parte da nossa imaginação. Eles são imagens para nós. Quantas obras de arquitetura nós verdadeiramente experimentamos e temos a autoridade para dizer que elas tocam a terra? E quantas obras de arquitetura nós apenas conhecemos através de fotografias, acreditando que elas tem um chão? Muito mais. Não existe absolutamente nenhuma dúvida sobre isso. Quantos projetos não construídos transformam a realidade, o curso do tempo, o destino das pessoas e modos de ver, de uma maneira mais intensa, consistente, e irreversível, que as obras construídas de arquitetura? Pense nisso verdadeiramente.

Crítica não distingue obras construídas e projetos não construídos. Ambos são obras de arquitetura. Arquitetura não tem tempo ou idade. Arquitetura simplesmente é. As palavras são sempre as mesmas. O crítico vê os mesmos problemas de concepção, projeção e construção, através de um antigo templo da Polinésia ou uma casa emergencial de hoje, porque os problemas humanos são e tem sido sempre os mesmos. O crítico escreve em tempo presente. Não há anos. Não há arquiteto para ele. Não há ninguém para ele. O arquiteto é aquele quem uma vez e pela primeira vez permitiu à obra ser. Porém apenas uma vez. O arquiteto está no passado. A obra não tem nada a ver com ele. O crítico é apenas aquele através de quem a obra pode apresentar revelando a si mesma. Crítica está no presente.

Crítica descreve, descreve, e descreve, e descreve a descrição, e a descrição da descrição. A maneira através da qual a crítica acontece é a descrição densa. A obra de crítica é uma obra de descrição. Não há eu's, você's, nós's. Apenas há o que a obra é. Ver o que uma obra é e escrever a partir dessa visão significa descrevê-los. Não há adjetivos, senão a descrição do caráter da obra. A obra é... A obra surge de... A obra é formada por... e configura o... Essa é a maneira com que a crítica surge dentro da obra. O crítico vê as origens quando não há guias diretas a elas. O crítico vê a formação, a germinação e o crescimento da obra como se ela fosse outro ser vivo com sua própria e singular existência.

Crítica é a arte de apagar os nomes.

«Monsieur Jourdain: […] Devo confessar. Estou apaixonado de uma dama de grande qualidade, e desejaria que tu me ajudasses a escrever algo a ela numa pequena nota que deixarei cair a seus pés.
Mestre Filósofo: Muito bem.
Monsieur Jourdain: Será galante, sim?
Mestre Filósofo: Sem dúvida. É verso que tu gostarias de escrever a ela?
Monsieur Jourdain: Não, não. Sem versos.
Mestre Filósofo: Queres apenas prosa?
Monsieur Jourdain: Não, não quero nem prosa nem verso.
Mestre Filósofo: Deve ser um ou outro.
Monsieur Jourdain: Por quê?
Mestre Filósofo: Porque, senhor, não há outra maneira de expressar-se que prosa ou verso
Monsieur Jourdain: Não há nada senão prosa ou verso?
Mestre Filósofo: Não, senhor, tudo que não é prosa é verso, e tudo que não é verso é prosa.
Monsieur Jourdain: E quando se fala, o que é isso então?
Mestre Filósofo: Prosa.
Monsieur Jourdain: O quê! Quando eu digo, "Nicole, traga-me minhas sandálias e dê-me minha touca", isso é prosa?
Mestre Filósofo: Sim, senhor.
Monsieur Jourdain: Por minha fé! Por mais de quarenta anos tenho falado em prosa sem saber nada a respeito, e estou muito agradecido a ti por tê-lo me ensinado [...]» 
O Burguês Fidalgo, Moliére, 1670.

O crítico é consciente de falar em prosa.

Sobre este autor
Igor Fracalossi
Autor
Cita: Igor Fracalossi. "Crítica, a arte de apagar os nomes" 19 Set 2013. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/141599/critica-a-arte-de-apagar-os-nomes> ISSN 0719-8906