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Pode a arquitetura nos tornar mais criativos?

Pode a arquitetura nos tornar mais criativos?
Pode a arquitetura nos tornar mais criativos?, Cortesia de Riverhead Books - Animação de Steven Johnson em "Where Good Ideas Come From"
Cortesia de Riverhead Books - Animação de Steven Johnson em "Where Good Ideas Come From"

O que o MIT Building 20, as ágoras (praças públicas da Grécia antiga), as casas de chá britânicas do século 18 e os cafés parisienses do início do século 20 têm em comum?

Eles foram os mais criativos espaços do mundo.

As pessoas que se reuniram ali iriam interagir. Pessoas como Sócrates,  Chomsky ou Edison, trocando idéias, argumentando sobre a moral e discutindo tecnologias. Eles participaram de um discurso informal conduzidos pelo envolvimento passional.

E esses lugares, embora por razões diferentes, promoveram interação por unir as pessoas e dar-lhes um lugar para conversar. Como Jonah Lehrer disse, "os espaços mais criativos são aqueles que nos unem. É o atrito humano que gera as faíscas."

A questão, então, é: como a arquitetura contemporânea alimenta o mesmo tipo de criatividade?

Para saber mais sobre a arquitetura e seu papel na criatividade e aprendizado, continue lendo após o intervalo.

Em 1942, no meio da Segunda Guerra Mundial, o Laboratório de Radiação do MIT precisou de expansão. Sob a direção dos militares, o laboratório foi desenvolvia tecnologias de radar para aviões-caças que ajudavam a identificar os bombardeiros inimigos, uma tarefa para a qual a escola contratou centenas de cientistas. Para acomodar o aumento e imediata necessidade, foi construída a escola Building 20. Concebida como uma solução temporária em uma única tarde, e construída em seis meses, o edifício priorizou necessidades espaciais acima do design. Nem sequer teve projeto de prevenção de incêndios (a licença, na época, foi dada para uma estrutura temporária).

Cortesia de historum.com - Café Parisiense do Século 20
Cortesia de historum.com - Café Parisiense do Século 20

Apesar das suas deficiências físicas, que incluíram vazamentos, má ventilação, aquecimento e problemas de refrigeração, o prédio tornou-se rapidamente um centro de investigação militar inovador. Após a guerra, quando o edifício estava pronto para ser demolido, o MIT estava, mais uma vez, precisando de espaço. Utilizaram o espaço grupos ecléticos de diversos departamentos, incluindo o Laboratório de Pesquisa de Eletrônica, Laboratório de Ciência Nuclear, Departamento de Lingüística,  o acelerador de partículas, entre outros, igualmente diversos.

O resultado foi um amálgama excêntrico de pessoas que sabiam pouco ou nada sobre o outro, subitamente juntos dentro das paredes do que parecia ser um prédio horrível. "E, no entanto, no momento em que foi finalmente demolido, em 1998, o Building 20 tornou-se uma lenda da inovação, amplamente considerado como um dos espaços mais criativos do mundo" (Jonas Leherer). Ao longo dos seus quarenta anos, o prédio tinha acumulado um histórico quase inacreditável de avanços. Ele viu, por exemplo, o primeiro video game, os primeiros avanços na física das microondas, grandes avanços na fotografia de alta velocidade, a criação da Bose Corporation, modernos hackeamentos de computadores, etc.

Por quê? O edifício grande e confuso forçou todos os diferentes tipos de cientistas e pensadores a interagir entre si. Bastou colocá-los juntos, sem meios reais de separação. As pessoas, muitas vezes, se perderam e tiveram que pedir indicações. Outros, com fome, dividiam as máquinas de venda de snacks. Todo mundo tinha que usar os longos corredores. No final do dia, era impossível não encontrar as pessoas.

Cada um destes sintomas informais, mas poderosos, do Building 20, não só obrigou seus habitantes a falar entre si, mas o fez em um ambiente que promovia isso. "Em uma disposição vertical com pequenas pavimentos, existia menos variedades de pesquisas em cada andar. Encontros casuais em um elevador tendiam a terminar no lobby, enquanto que encontros casuais nos corredores tendiam a levar a discussões técnicas", explica Henry Zimmerman, um engenheiro eletricista, cujo escritório ficava no edifício.

Pode a arquitetura nos tornar mais criativos?, Cortesia de Riverhead Books - Animação de Steven Johnson em "Where Good Ideas Come From"
Cortesia de Riverhead Books - Animação de Steven Johnson em "Where Good Ideas Come From"

O sucesso do Building 20 se deu também pela sua provisoriedade. Por ter sido feito para durar apenas alguns anos, e por ninguém ter muito interesse em sua longevidade, os pesquisadores se sentiam livre para manipulá-lo para atender suas necessidades. Simples como derrubar paredes sem pedir autorização e armazenar materiais no terraço. Um cientista que trabalhava no primeiro relógio atômico, para dar lugar a um cilindro  de três andares de altura, abriu dois buracos nas lajes de seu laboratório.

Esta flexibilidade manteve o edifício vivo e em movimento, com a influência de seus habitantes. Não era restritivo, e, de fato, promova a criação original. Nas palavras de Richard Rogers, era uma "arquitetura parecida com música e poesia, que podia realmente ser alterada pelos seus usuários, uma arquitetura de improvisação." Ele não era estático e independente. Era interativo.

O exemplo do Building 20 traz boas e más notícias para a arquitetura. A má notícia é que os arquitetos não tiveram nada a ver com o seu sucesso. A boa notícia é que o edifício e seus espaços fizeram toda a diferença. Assim, é a com este espaço acidentalmente profundo que os arquitetos que procuram projetar para a criatividade devem aprender.

Lição número 1: faça com que as pessoas interajam.

Historicamente, os lugares mais criativos do mundo são os locais que produziram o maior número de idéias originais significativas. Pegue os exemplos mencionados acima: a antiga Ágora grega, as casas de chá do século 18, onde o Iluminismo se desenvolveu, ou os cafés parisienses do início do século 20, onde o modernismo nasceu e cresceu.

Raphael. Escola de Atenas. 1511.
Raphael. Escola de Atenas. 1511.

O sociólogo Ray Oldenburg chama esses espaços de "terceiro lugar", ambientes separados da casa ou do trabalho, onde as pessoas se reúnem e, mais importante, se chocam. Como Stephen Johnson coloca, "As colisões que acontecem quando diferentes campos de atuação convergem no espaço físico compartilhado, é aí que as verdadeiras faíscas voam". Esses locais eram verdadeiramente criativos porque promoviam interações geradoras  de faíscas entre as pessoas.

Essas interações levam ao que Jane Jacobs, a famosa teórica urbanista, chama de "repercussoras de conhecimento" - os casos em que as idéias cruzadas fertilizam. As pessoas são muito boas em reaproveitar ou reciclar de idéias, eles só precisam ouví-las.

Por que a arquitetura não pode atuar como aparelhos auditivos?

O ponto chave deste "terceiro lugar", então, é duplo: primeiro, os arquitetos devem considerá-lo como uma possibilidade de programação - um lugar apenas para o discurso e, segundo, os arquitetos devem reconhecer a importância da interação e colisão no cotidiano. Ou seja, os espaços devem promover esse tipo de discurso abrangente, como uma lógica para a própria arquitetura.

Casa de Chá Inglesa do Século 18
Casa de Chá Inglesa do Século 18

Dois estudos recentes sobre a prática de pesquisa são um bom exemplo disso. Isaac Kohane, um pesquisador da Harvard Medical School, conduziu um estudo de pesquisas feitas em grupos para determinar a influência da proximidade dos pesquisadores e da qualidade de sua pesquisa.

"Ele analisou mais de trinta e cinco mil artigos, mapeando a localização exata dos co-autores. Depois, avaliou a qualidade da pesquisa por meio da contagem do número de citações subsequentes. Uma vez que os dados foram coletados, tornou-se evidente a correlação: quando co-autores estavam próximos, seus papéis tendiam a uma qualidade significativamente superior. As melhores pesquisas foram consistentemente produzidas quando os cientistas estavam trabalhando a dez metros um do outro, os trabalhos menos citados tendem a ser de colaboradores que estavam a um quilômetro ou mais de distância. "Se você quer que as pessoas trabalham em conjunto de forma eficaz, esses achados reforçam a necessidade de se criar arquiteturas que suportem interações freqüentes, físicamente espontâneas", diz Kohane. "Mesmo na era da ciência, quando os pesquisadores passam muito tempo na internet, ainda é muito importante criar espaços íntimos." (Jonah Lehrer)


É bom estar perto.

Kevin Dunbar, um psicólogo da Universidade McGill, estudou a geração de idéias nos laboratórios seguindo os cientistas com uma câmera de vídeo.

"O estudo de Dunbar mostrou que esses momentos isolados de brainstorming eram raridades. Em vez disso, as idéias mais importantes que surgiram durante as reuniões regulares dos laboratórios, onde uma dúzia de pesquisadores que se reúnem e apresentam o seu mais recente trabalho. Se você olhar para o mapa de formação de idéias que Dunbar criou, o marco zero da inovação não foi o microscópio, mas a mesa de conferência. A ferramenta mais produtiva para a geração de boas idéias continua a ser um círculo de seres humanos em uma mesa, conversando. A reunião no laboratório cria um ambiente onde podem ocorrer novas combinações, onde a informação pode se espalhar a partir de um projeto para outro."(Johnson 61)


É bom conversar.

Lição 2: deixar com que as pessoas pensem sem pressão.

Herman Hertzberger uma vez escreveu: "A arquitetura deve oferecer um incentivo para que seus usuários a influenciem sempre que possível, não apenas para reforçarem a sua identidade, mas especialmente para reforçarem e afirmarem a identidade de seus usuários." Um edifício não perde seu caráter quando envolve seus usuários. No Building 20, na verdade, foi a interação de usuário e edifício que definiu a própria arquitetura. Os usuários tinham a liberdade de adaptar um determinado espaço para atender suas necessidades, o que promoveria uma relação generativa com o prédio. Eles melhoraram o edifício e a construção melhorou eles.

Essa idéia traz consigo um reconhecimento de que o arquiteto pode não ser capaz de prever tudo - de que não há solução abrangente. Muitas vezes, os edifícios que são projetados sob esta concepção são os mais suscetíveis à ruína. Uma vez que eles são concebidos como estáticos, onde nada pode ser modificado. É ridículo supor que nada vai mudar. O tempo, em si, não se esquece disso. Por esta razão, Jane Jacobs acreditava que a "imprevisível natureza da inovação significa que esta não pode ser prevista de antemão."

Como, então, a arquitetura pode responder tanto às necessidades imediatas dos usuários e, ao mesmo tempo, às futuras mudanças que serão necessárias? Muitos argumentariam que a modularidade é a resposta. Com a padronização de peças, tornando-as facilmente móveis, sistemas modulares que simplificam as mudança físicas. 

Mas a solução é insignificante se o problema não for identificado. A arquitetura deve ser robusta e acolher aos seus usuários a fazerem parte no processo de tomada de espaço.

Cortesia de historum.com - Café Parisiense do Século 20
Cortesia de historum.com - Café Parisiense do Século 20

A arquitetura é um participante ativo nas interações de pessoas dentro dela mesma. Interação, particularmente do tipo informal, é fundamental para o discurso e a criatividade. Arquitetura, então, tem um grande potencial em termos de promoção de uma cultura de criatividade.

Em dois artigos que estão por vir, iremos explorar como arquitetos, urbanistas e profissionais são praticamente estão explorando este potencial, em primeiro lugar em ambientes de trabalho e, em segundo, em ambientes educacionais.

Referências:

"Where Good Ideas Come From" - Steven Johnson

"Goupthink" - Jonah Lehrer

Sobre este autor
Jonathan C. Molloy
Autor
Cita: C., Jonathan. "Pode a arquitetura nos tornar mais criativos?" [Can Architecture Make Us More Creative?] 04 Jun 2013. ArchDaily Brasil. (Trad. Baratto, Romullo) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/117575/pode-a-arquitetura-nos-tornar-mais-criativos> ISSN 0719-8906

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