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Metafísica do Concreto Exposto / Andrea Deplazes

Metafísica do Concreto Exposto / Andrea Deplazes
Metafísica do Concreto Exposto / Andrea Deplazes

Estruturas portantes feitas de concreto armado caracterizam a vida urbana diária. Sempre que possível, a indústria de construção emprega este material. É relativamente barato em comparação a outros materiais construtivos –visto que o trabalho no canteiro de obras progride rapidamente, e (aparentemente) especialistas altamente qualificados não são requeridos para instalá-lo. O concreto armado simplesmente se tornou o material construtivo escolhido do século XX –e o símbolo da atividade construtiva desenfreada. A “concretagem do meio ambiente” é um inventivo provérbio que denuncia a destruição da paisagem, natureza e habitats.

Contudo, quanto menos visível o concreto armado é –se ele somente serve como um “meio construtivo para um fim” no verdadeiro sentido da palavra, ou seja, para propósitos de engenharia ou de casca estrutural, e depois é rebocado ou revestido–, mais aceitável ele parece ser (não importa se sem resignação ou desinteresse, já que geralmente parece não haver uma alternativa competitiva ao concreto). É uma história completamente diferente com o concreto armado projetado para ser completamente visível, o chamado concreto aparente. A fim de reconhecer as características do concreto exposto, temos que nos distanciar da abordagem pragmática de hoje. O próprio termo “concreto exposto” nos faz despertar. Se não existe concreto invisível, o que é que faz o concreto se tornar exposto? E se o concreto armado não é usado visivelmente, mas como um “meio construtivo para um fim”, como ele influencia o desenvolvimento e projeto da forma?

 

Superfície

Com o concreto exposto o que é visível é a superfície do concreto. Essa aparente observação nada espetacular torna-se significante quando desenhamos comparações com a alvenaria. A alvenaria de tijolo aparente demonstra a ordem e a lógica de sua textura e junções, assim como a precisão e o curso das operações construtivas. A forma de assentamento dos tijolos é, portanto, mais do que a soma de suas partes, sua estrutura é percebida como uma ornamentação estética, estabelecendo ou representando um “verdadeiro estado das coisas”. Louis Kahn argumentou que a ornamentação –ao contrário da decoração, que é aplicada, é uma adição “estrangeira”– sempre se desenvolve a partir de interfaces tectônicas até o ponto da independência (através da transformação dos materiais e da emancipação de funções originalmente construtivas). Contra o fundo de tal visão cultural, a estética significa: “Beleza é o esplendor da verdade” (interpretação de Mies van der Rohe de St. Augustine aplicada à cultura construtiva moderna).

Em contraste a isso, o concreto exposto –ou melhor, a “pele” de cimento de dois ou três milímetros de espessura– esconde sua natureza compositiva interna. O concreto exposto não revela seus trabalhos interiores, mas ao invés, esconde sua estrutura básica sob uma camada exterior extremamente fina. Essa camada superficial formaliza e retém o que nossos sentidos poderiam perceber: um entendimento da composição do concreto e “como ele funciona”. E é por isso que o concreto não é percebido como o material construtivo natural que realmente é, mas como um “conglomerado contaminado artificial”.

 

Cofragem

Mas embora nenhum “poder de projeto” visível do interior do conglomerado de concreto penetre a fina camada exterior, a superfície ainda exibe textura –traços de uma estrutura que não mais existe: a cofragem. Tudo que ainda pode ser detectado no concreto exposto são “impressões digitais”. O termo “textura” deriva da mesma origem que “texto” ou “têxtil” –significando tecido– e assim imediatamente insinua ao que antes foi chamado “construção filigrana”. A cofragem, feita de madeira ou aço, pertence a essa categoria da tectônica. Especialmente nos estágios iniciais da tecnologia do concreto armado, ela foi um autônomo, usualmente muito engenhoso –embora temporário– obra de carpintaria. Cofragem e concreto forma um aparentemente inseparável pacote.

Conforme o concreto tenha que ser vertido na fôrma a fim de tomar a forma desejada, três questões surgem: Não é todo tipo de concreto ao final concreto exposto? (Isto é, como nós classificamos a qualidade da superfície do concreto?) Qual critério aplicar ao projeto da cofragem? (Isto é, como os materiais e técnicas de construção da cofragem influenciam na moldagem do concreto?) Não é estranho que uma estrutura efêmera (construção filigrana) seja montada a fim de gerar outra, monolítica (construção sólida)? (Isto é, quais são as características que amarram o concreto à sua fôrma?)

 

Incrustação

Os construtores romanos tentaram contrapor essa inconcebilidade metamórfica “expondo” a estrutura interna do concreto, e simultaneamente ocultando seu componente prático –essa usual mistura de cascalho, areia e cimento. Opus caementitium é um composto de fôrma permanente de pedra ou tijolo com um núcleo de “preenchimento” de concreto. O concreto contem os mesmos materiais que a “cofragem” –em diversos tamanhos de grânulos misturados com água e agentes de ligação apropriados como cal ou cimento hidratados e transformada numa massa.

É óbvio que esta –assim como construir com sabugo de milho– é uma das criações mais originais de fortificações; a massa terrosa sem forma prova seu valor nas alvenarias de disposição regular. Esse tipo de construção de concreto exposto tem sido preservada até os dias de hoje, por exemplo nos viadutos da linha férrea Rhätische. Ela fornece uma estrutura visível e expressão a uma mistura de materiais que por si mesma não apresenta qualidade de forma, no sentido de uma “leitura” do sedimento concreto através da técnica de incrustação; um tipo de “cofragem permanente” feita de pedra ou tijolo, que ao mesmo tempo forma um crosta característica em sua superfície visível.

 

Transformação

A outra linha de desenvolvimento, a “estratégia da construção da cofragem” mencionada acima, segue através da construção em madeira e carpintaria, logo através da tectônica, que tem suas próprias leis de construção e assim já influencia o processo de busca-da-forma do líquido de concreto. Além disso, a madeira tem um caráter transitório e provisório, que parece predestinar seu uso para a cofragem. Parece que dentro da nossa imagem do mundo, do nosso entendimento ético e religioso da natureza e da vida, durabilidade só pode ser alcançada através da transitoriedade e renovação constante (otimização).

Isso desencadeia –consciente ou inconscientemente– um processo de transformação; a transferência da madeira à construção em pedra é outro tópico fundamental dentro do desenvolvimento morfológico da arquitetura ocidental. Embora –como com os antigos templos– as leis da construção em pedra sejam aplicadas, as estruturas originais de madeira permanecem visíveis como elementos estilísticos ornamentais. Em outras palavras, imanência tecnológica, avançando incessantemente, fica cara a cara com uma permanência cultural recalcitrante.

É o mesmo com o concreto exposto, onde através do simples ato de preencher a fôrma com concreto, se manifesta a madeira subjacente, ainda que a massa de concreto, agora endurecida dentro da fôrma, não tenha nada a ver com madeira que não é senão efêmera.

É isso uma clara contradição à figura plástica-cúbica de um bloco de concreto, que além disso tem a aparência de estar moldado em pedra?

 

Monolíto

A aparência monolítica do concreto exposto faz o edifício parecer um vazio ou escultura processados, uma peça criada a partir da remoção de material de um bloco. Isso é especialmente bem sucedido se os traços do trabalho de concretagem –as camadas, as vertidas– são suprimidos ou obscurecidos pelos traços densamente texturizados da cofragem. Em realidade, no entanto, esse caráter é o resultado de várias operações acumulativas!

A qualidade da cofragem, sua maquiagem, desempenha um significante papel na moldagem do caráter de um edifício. Às vezes é áspero, granuloso, com juntas sobressalientes e marcas de colméia. Como resultado, a estrutura conglomerada de uma rocha sedimentar e a metáfora de uma arcaica criança abandonada podem às vezes ainda ser sentidos, por exemplo na Casa Alleman de Rudolf Olgiati, implantada em meio a uma topografia precária. Em outros momentos, a cofragem ostenta uma espécie de pele suave, com as juntas da cofragem parecendo costuras de uma tenda, que fornecem ao concreto exposto uma qualidade visual destituída de qualquer “peso”. Esse é o caso da Casa Koshino de Tadao Ando. Aqui, a cofragem é tão suave que, junto com as pequenas diferenças de altura do concreto, dá às paredes uma materialidade têxtil ou mesmo uma “fragilidade cerâmica” quando vistas com a luz brilhando por sua superfície.

 

 Híbrido

Tendo baseado nossas avaliações em métodos de trabalho pragmáticos, encontramos um inesperadamente complexo resultado: a construção como um edifício pesado e monolítico representa o polo dialético de nossas observações ao estabelecer as características significantes do componente térreo do concreto exposto: massa, peso, plasticidade, corpo, densidade, pressão. Consequentemente, assumimos que outro polo tem que ser derivado da construção filigrana, que permitiria deduzir um novo critério de busca-da-forma. A combinação do concreto e aço basicamente cria um material hibrido único, dentro do qual o concreto garante a força de compressão. O aço, por sua parte, fornece a força de tensão na forma de uma malha reforçada, uma rede de tensão criada a partir de um mínimo de material.  O concreto armado é o único material construtivo que possui essa qualidade bipolar perfeita. O termo “híbrido”, no entanto, tem que ser definido mais precisamente: os dois componentes morfológicos existem e se complementam em diferentes “níveis de consciência” –constantemente interagindo e mudando de um sistema a outro, do percebível conscientemente ao subconsciente e vice-e-versa. Esse é em contraste às peças de aço, por exemplo, onde um e o mesmo membro pode resistir às forças de compressão e tensão). A forma externa do concreto endurecido é fisicamente perceptível (visualmente, senso de tato, acusticamente, etc.), e tem descamada completamente a vaga qualidade metafisica possuída em sua forma original, seu estado embrionário como uma polpa de barro. Sua rede de reforço, contudo, permanece latente dentro, embora completamente invisível ao olho. No exterior, sua existência manifesta-se somente indiretamente. Ela só pode ser adivinhada e “sentida”, com a mais delicada de todas as estruturas de carga no concreto exposto aparentemente desafiando todas as leis da física. O antes pesado, solido monólito perde sua base natural e é transformado no oposto, uma armação de membros lineares, uma concha como uma folha, uma pilha vertical de finas placas e hastes de suporte, etc.

Em sua teoria da arquitetura, Carl Botticher define esses dois “níveis de consciência” como uma “forma de arte” (externa, possuindo uma conotação cultural, tectônica) e uma “forma central” (interna, funcional, física newtoniana). Como uma regra de projeto, Botticher requere que ambas as formas correspondam logicamente na melhor maneira possível, com o “núcleo” –como “fato verdadeiro”, refletindo do interior ao exterior– fundindo-se em outro com seu envelope ou superfície habilmente modelados, encasulando nele e logo assumindo uma forma visível (iconografia).

Essa teoria e a circunstância que o concreto depende da disponibilidade racional da cofragem corresponde a visão cientifica, engenheira de que a energia flui profundamente abaixo da superfície. Isso é na verdade –por razões tecnológicas!– uma intensificação do antigo critério da forma tectônica visível (por exemplo, a visualização da carga e da coluna presente nas ordens do templo-edifício antigo). É uma inversão da forma e núcleo externos, alisando e assim formalizando a forma exterior. (Exemplo: a morfologia da coluna). O equilíbrio tectônico anteriormente visível do poder aparente no exterior da forma é agora virado do avesso como uma luva e racionalizado depois do modelo das trajetórias tridimensionais de tensão, um modelo em que a acumulação e a agregação do reforço procuram seguir e corresponder os mais perto o possível.

 

Estruturas esqueletos

Aqui esta a fonte de um acordo que engenheiros falam na achado-da-forma para estruturas de suporte, por exemplo para pontes ou túneis, como referir a quando eles apresentam a complexa lógica do fluxo de energia como “o motor que dá força a forma”. Mais frequentemente, no entanto, a forma exterior se desenvolve em concordância com o decisivo corte transversal de um componente estrutural e o material de cofragem mais barato disponível.  Ao longo do tempo esse material se desenvolveu a partir de um descartável a um reutilizável. Através de distintos estágios da construção da cofragem, o processo do edifício tornou-se mais organizado, e a própria construção agora mostra traços da modulação do layout da cofragem e os largos painéis de chapa de aço pré-fabricados. O fluxo de forças, no entanto, é organizado de acordo com a atual concentração de energia através da agregação e distribuição do reforço no fundo do concreto, e isso raramente influencia a forma externa.

As delicadas construções que resultam dessa abordagem parecem originar-se a partir da pura ciência, alimentadas pelo espirito do racionalismo, operando com análises, geometria, ordem e abstração. Consequentemente, tentamos livrar o concreto exposto de todos os traços “mundanos”, para alcançar sua transição de um passado primitivo como uma “fortificação” a um artefato liso, sem costura, despoluído de qualquer processo de trabalho.

Igualmente reveladora é a expressão “estrutura esqueleto”, que ouvi ser usada por vários engenheiros explicando o caráter de seus projetos de pontes. Um deles descreve um completo e elementar desemocionamento “do interior ao exterior”, que somente se manifesta através da extrema abstração da forma e uma redução à estrutura portante nua na forma de elementos geométricos simples. Outro descreve uma analogia biomórfica com um esqueleto. Uma estrutura natural de esqueleto, no entanto, se desenvolve de modo auto-organizado ao longo de uma rede de trajetórias de tensão. Sua forma é o resultado imediato dessa rede tendo em conta a posição de suas partes dentro das condições estáticas e dinâmicas do esqueleto como um todo. Pelas razões mencionadas anteriormente, tais congruências de causa e efeito, energia e forma não são praticáveis e raramente aconselháveis.

 

Concreto lançado

Outra idiossincrasia tem que ser discutida. Concreto, sendo uma mistura (amalgama), não tem qualquer forma implícita –ele pode ser moldado dentro de qualquer formato imaginável. Da mesma maneira a rede de aço que faz o reforço não tem qualquer limitação pré-configurada, nenhum “limite”. Isso insinua a possibilidade de um concreto armado livre, biomórfico e maleável –comparável ao processo de modelar uma bola de barro na mão. Na realidade, no entanto, a inflexibilidade da cofragem, sua característica rigidez tectônica, deve ser superada. Isso é possível com a ajuda de aderentes da engenharia moderna de madeira (madeira compensada moldada) ou fibras sintéticas, mas tais soluções são difíceis de justificar economicamente. (Exemplo: Observatório “Einsten Tower” de Erich Mendelsohn, planejada em concreto armado mas finalmente construída em alvenaria). A única saída seria livrar o concreto de sua cofragem –o tectônico, tecnológico e iconográfico espartilho! Isso pode ser feito utilizando uma rede reforçada flexível mas relativamente estável e concreto jateado (por exemplo, Gunite, Shotcrete). Até agora, essa tecnologia na construção em concreto armado não deixou vestígios notáveis na arquitetura –exceto pela decoração interior lamentável encontrada em alguns salões de baile provinciais. Infelizmente, o concreto exposto lançado de tais exemplos é somente reduzido a suas origens primitivas –a metáfora de uma grosseira e platônica caverna.

 

Conclusão

1. Apesar do fato que o concreto exposto é projetado e desenvolvido de acordo com argumentos racionais e técnicos, processos construtivos aparentemente irracionais abundam.

2. O concreto exposto representa o resultado de vários processos de transformação e metamorfoses que deixaram sua marca (um tipo de “memória” de estados anteriores).

3. Uma congruência precária existe entre a forma exterior e a “vida interna”. A fina camada de superfície do concreto exposto raramente desempenha o papel de mediador iconográfico.

4. A qualidade da superfície do concreto caracteriza o edifício como um todo dentro de seu tema arquitetônico. Ela tende tanto ao arcaico quanto ao abstrato.

5. A forma é definida como a síntese pré-efetivada de vários fatores de influência, com imanência tecnológica raramente correlacionada com permanência cultural.

6. A forma do concreto é relativa ao fluxo interno de forças. Esse fluxo é interpretado tanto como um sistema em equilíbrio baseado em fatores construtivos e espirituais, ou como um modelo tensionado com fundações em ciência natural e realidade.

7. Todo tipo de concreto mostra uma face.

 

© Tradução: Igor Fracalossi

Referência: DEPLAZES, Andrea (editor). “On the metaphisics of exposed concrete”, in: Constructing Architecture: Materials, Processes, Structures. A Handbook. Birkhäuser, 2008, 2ª ed.

Cita: Marina de Holanda. "Metafísica do Concreto Exposto / Andrea Deplazes" 28 Fev 2013. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/100353/metafisica-do-concreto-exposto-andrea-deplazes> ISSN 0719-8906