
Sessenta e dois anos separam a inauguração de Brasília e a abertura da 22º edição da Copa do Mundo de futebol masculino da FIFA, sediada em 2022, no Qatar. Claro, não só o lugar no tempo e espaço diferenciam estas duas ocasiões históricas: acrescentemos o contexto geopolítico, o caráter, os atores e os interesses envoltos a cada uma. O que sobra, então, como conectivo entre ambas? Para além do fato de que o emirado agora possui a sua própria cidade-modelo (Lusail), erguida no ermo da península, sob a cartilha das últimas tendências urbanas e tecnológicas – à semelhança do vanguardismo do Distrito Federal do Brasil à época da sua construção, em certa medida –, o elo inextricável entre as duas cerimônias está nos canteiros que materializaram as arquiteturas a comportá-las.
Foi com base na sistematização de abusos físicos e psicológicos perpetrados contra os corpos de milhares de colaboradores que se plasmou o conjunto construído de um lugar e de outro. O estado-da-arte da engenharia high-tech, propagandeada pelo governo árabe como declaração de uma nova era, se dá com comprovado sofrimento humano. Décadas antes e mais de 11 mil quilômetros distante, a intenção de refundar o ideário de um país pela régua da racionalidade modernista exigiu sacrifícios equivalentes. Episódios nos quais o Estado abriu incontornáveis concessões para afirmar o seu progresso, nem que pra isso houvesse a naturalização de violações de direitos humanos e trabalhistas.
Um novo Qatar



