Uma nova história para os morros do Recife: comunidade Lagoa Encantada

Uma nova história para os morros do Recife: comunidade Lagoa Encantada

O Mais Vida nos Morros é uma política pública de cidadania e desenvolvimento sustentável para as comunidades do Recife, idealizada pela Secretaria Executiva de Inovação Urbana da Prefeitura do Recife. Em parceria com a iniciativa privada, o programa já atende moradores de 49 áreas espalhadas em 27 comunidades do Recife, beneficiando diretamente 25 mil pessoas. Lagoa Encantada é um dos capítulos dessa história, escrito de um modelo de cooperação social.

Localizada no bairro do Ibura, no Recife - PE, Lagoa Encantada foi ocupada entre planície e morro. A morfologia da área rebatia diretamente nas condições urbanas existentes na medida em que a área de planície tinha espaços de lazer e oferta de infraestrutura, ao passo que a área do morro carecia desses equipamentos. Esse contexto influenciou diretamente na forma como as pessoas se relacionavam entre elas e com o território, se tornando o ponto de partida para o desenvolvimento do processo de intervenção.

Cortesia dos autoresCortesia dos autoresFoto: © Luciano NogueiraCortesia dos autores+ 13

No período de junho a outubro de 2019, o processo foi dividido em três etapas inseridas na metodologia base do programa: conhecer, transformar e celebrar. Cada uma das etapas corresponde a um conjunto de atividades para fortalecimento do sentimento de apropriação e pertencimento com o local onde mora, através da ativação e melhoria dos espaços públicos. O perímetro de atuação abrangeu cerca de 100 famílias e os processos de participação popular foram imprescindíveis para que os objetivos fossem alcançados na qualificação, criação e fortalecimento dos espaços públicos como espaços de encontro, permanência e manifestação da cultura coletiva; criação de rotas seguras e amigáveis à primeira infância como estratégia de fortalecimento da comunidade; arte urbana como comunicadora da identidade do lugar e ferramenta de vínculos e união.

Cortesia dos autores
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O processo de conhecer o lugar contou com  rodas de conversa, visitas ao local e aplicação de questionários, com o objetivo coletar dados sobre as famílias que estão no perímetro e aproximar o poder público dos cidadãos em um processo de diálogo. Conhecer o lugar, os moradores e as peculiaridades de cada comunidade é o principal guia para o desenvolvimento das transformações que serão realizadas no local, envolvendo as diferentes partes de forma simétrica e potencializando o sucesso das ações. Assim, a etapa seguinte, de transformação, tem como propósito pensar coletivamente o espaço que será construído, compartilhando sonhos, desejos e expectativas, a partir de oficinas para diagnósticos coletivos sobre a área e cocriação e colocar a mão na massa, através dos mutirões, realizados entre os operacionais da Prefeitura junto aos moradores.

As intervenções em Lagoa Encantada tiveram como intenção refletir e agir sobre a inclusão dos pequenos nos processo de planejamento e intervenção dos espaços urbanos, provocando grupos locais, moradores e moradoras, para a importância de cuidarmos da primeira infância a partir da percepção e construção de espaços públicos que estimule a compreensão de que o território deve favorecer o desenvolvimento integral da criança e o ato de brincar.

As intervenções aconteceram na pracinha central da comunidade, nas escadarias, nas varandas jardins e varandas brincantes, espaços frontais às casas devido aos recuos existentes, transformados como novos espaços de convivência, cultivo e brincar, espaços de pausa urbana, caminhos de brincar e as artes urbanas e intervenções paisagísticas em todo o perímetro. 

Por fim, a celebração foi o momento de comemorar os aprendizados individuais e coletivos, o engajamento de todos durante as transformações e também de manter vivos os sonhos e motivações.

Cortesia dos autores
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Processo teve como objetivo central ressignificar a barreira psicológica existente entre os moradores das diferentes áreas e amenizar as barreiras físicas impostas pela área do morro, fortalecendo o laço entre os moradores e expandindo o sentimento para o território. Como objetivos específicos tivemos ampliar e qualificar os espaços públicos como espaços de encontro, permanência e manifestação da cultura coletivo; criar rotas seguras e amigáveis à primeira infância; ampliar e fortalecer os espaços públicos como espaços de brincar, interagir socialmente e de estímulos adequados a um desenvolvimento integral das crianças em idade de primeira infância; e desenvolver processos educativos de responsabilidade social e consciência ambiental.

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Entre planície e morro, Lagoa Encantada foi ocupada em um processo desigual, na medida em que a área de planície tinha espaços de lazer e oferta de infraestrutura, ao passo que a área do morro carecia desses equipamentos. Esse contexto influenciou diretamente na forma como as pessoas se relacionavam entre elas e com o território, se tornando o ponto de partida para o desenvolvimento do processo de intervenção. Em relatos dos moradores, foram identificadas pessoas que moravam na comunidade há mais de 30 anos e que nunca havia subido a escadaria do bairro. Além disso, a comunidade carecia de espaços públicos de qualidade para a celebração da vida em coletividade, espaços de brincar livre e de rotas seguras e amigáveis para o deslocamento dos pequenos.  

Dessa forma, o processo buscou estreitar os laços entre os moradores, fortalecendo o sentimento comunitário, com a criação espaços públicos adequados à permanência e deslocamentos das crianças em idade de primeira infância, o que, por consequência, garante uma comunidade amigável e segura para todos.

O processo de colaboração buscou identificar os pontos comuns da identidade local a serem fortalecidos, gerando um sentimento de pertencimento e apropriação dos moradores com o lugar em que moram. As intervenções físicas no espaços contribuíram para o fortalecimento e a construção uma melhor qualidade de vida urbana, aumentando o sentimento de segurança dos moradores com o lugar em que moram, a melhoria da relação com os vizinhos e a mudança de comportamento sobre as questões ambientais.

Foto: © Luciano Nogueira
Foto: © Luciano Nogueira

A intervenção foi desenvolvida a partir de um processo colaborativo mediado pela equipe multidisciplinar do Mais Vida nos Morros, junto aos moradores da comunidade de Lagoa Encantada. Os moradores participaram prioritariamente das oficinas de engajamento, diagnóstico coletivo e cocriação, ao passo que as intervenções foram executadas pelos técnicos operacionais da Prefeitura, com participação dos moradores para ações pontuais como pintura, com exceção da arte urbana que foi feita pelo artista Teo Armando. Em uma parceria com a iniciativa privada, os recursos financeiros para a intervenção foram disponibilizados pelo programa Mais Vida nos Morros, na medida que foram somados aos recursos materiais locais como retalhos de cerâmica para realização de um mosaico nas escadarias.

Cortesia dos autores
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As intervenções em Lagoa Encantada, beneficiaram diretamente 100 famílias e diversos espaços públicos da comunidade. A criação de um ambiente de colaboração entre os moradores e o poder público com um objetivo comum, possibilitou que a comunidade fosse vista de outra forma: mais alegre, conectada, orgulhosa e unida, fortalecendo novas possibilidades de interação dos moradores com o lugar onde vivem e com as pessoas ao seu redor. 

Ao todo foram desenvolvidas 11 oficinas de educação urbana e ambiental com 132 moradores participantes, entre crianças, jovens, adultos e idosos. As intervenções transformaram aproximadamente 1.200m² da comunidade, nas ações já citadas anteriormente, desenvolvidas pelos técnicos operacionais da Prefeitura do Recife e pelos mutirões com participação de 46 moradores. O programa possui um método de cálculo para identificação da quantidade de pessoas beneficiadas diretamente e indiretamente com as intervenções, resultando, em Lagoa Encantada aproximadamente 1.400 pessoas beneficiadas diretamente e 2.300 indiretamente.

Cortesia dos autores
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A fim de avaliar, refletir e aprender sobre o que foi desenvolvido, foram usadas dois tipos de ferramenta de avaliação: a observação do uso do espaço em um intervalo de tempo de 6 meses, feita pela equipe do projeto, e a aplicação de questionário para avaliação dos indicadores. Assim, conseguimos compreender se os objetivos centrais e secundários do projeto foram alcançados e quais os impactos do pós intervenção. Foi possível identificar que através do fortalecimento do sentimento de pertencimento e apropriação dos espaços coletivos e comunitários, criou-se uma cultura de cidadania ativa, na qual os moradores se tornaram agentes de transformação da sua comunidade. Ao longo de 6 meses de observação sobre o uso e gestão do espaço, novos pontos críticos de lixo foram eliminados e as intervenções feitas durante o processo continuaram a ser cuidadas e utilizadas como espaços de encontro pelos moradores, em espaços que antes geravam conflitos sobre seu uso.

A criação de rotas seguras e amigáveis à primeira infância em todo o perímetro, com elementos lúdicos e sensoriais, fez com que 65% das crianças que antes se limitavam a brincar dentro de suas casas, passassem a ocupar as ruas de Lagoa Encantada.

Assim, os espaços ocupados pelas crianças se tornam também espaços de encontro das suas famílias, quebrando a barreira psicológica existente entre os moradores da parte da planície e do morro, a partir da descentralização dos espaços de encontro e lazer, agora distribuídos em intervenções nos micro vazios urbanos da comunidade.

Dessa forma, para além dos impactos causados pelas intervenções, o desenvolvimento das oficinas de educação urbana e ambiental ao longo de todo o processo, fortaleceu a mudança de comportamento dos moradores, criando uma cultura coletiva de responsabilidade social entre os vizinhos, a comunidade, a natureza e a cidade. 

Cortesia dos autores
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Programa

O Mais Vida nos Morros é uma política pública de cidadania e desenvolvimento sustentável, que as comunidades são transformadas a partir do engajamento e protagonismo dos próprios moradores, desde a cocriação até a mão na massa. O programa, que teve início em 2016, está atende diretamente 24.720 mil moradores em 49 comunidades do Recife. O Mais Vida nos Morros que conta com a parceria da Akzo Nobel, através das Tintas Coral, vem se destacando nacionalmente e internacionalmente por repensar o espaço público sob a perspectiva das crianças, nos conceitos do URBAN 95 através de uma cooperação técnica com a Bernard Van Leer Foundation. O projeto está neste momento participando de um laboratório internacional coordenado pelo Instituto dinamarquês Gehl people que acontece simultaneamente em Tel Aviv, em Israel; Tirana, na Albânia e Lima, no Peru e na capital pernambucana, hoje uma referência mundial em urbanismo social. O programa também conta o apoio institucional da ONU-Habitat, foi premiado pelo Premiado pelo Núcleo de Ciência pela Infância (NCPI) e foi case em um dos principais eventos do mundo sobre criança e cidade, Child in The City, que ocorreu na Bélgica.

Ficha Técnica
Cidade: Recife
Bairro: Ibura, Lagoa encantada
Área: 1.200 m² de intervenção urbana
Período: Julho a Outubro de 2019
Número de pessoas diretamente impactadas: 1.400
Número de pessoas indiretamente impactadas: 2.300

Secretaria Executiva de Inovação Urbana
Tullio Ponzi, Secretário-Executivo de Inovação Urbana
Flaviana Gomes - Gerente Geral de Intervenções Urbanísticas
Alexandre Nápoles Filho - Gerente Geral de Planejamento e Inovação
Luciano Nogueira - Gerente de Gestão e Projetos Especiais
Rebecca Dantas - Gestora de Urbanismo, Concepções e Primeira Infância
César Araújo - Gestor de Prototipagem e Solução Urbana
Raynaia Uchôa - Coordenadora de Meio Ambiente e Sustentabilidade
Valéria Cristina Silva - Chefe de Gabinete

Equipe Técnica
Aline Mendes - Arquiteta e Urbanista
Camilla Inocêncio - Arquiteta e Urbanista
Angélica Nobre - Gestora Ambiental, especialista em Culinária Sustentável
Augusto Neto - Engenheiro Agrônomo
Gustavo Aquino - Engenheiro Civil
Laís Morais - Arquiteta e Urbanista
Sandy Vieira - Arquiteta e Urbanista
Vitor Douglas - Engenheiro Civil

Agentes Operacionais
Adolfo Nunes
Antônio Marcos
Atlas Augusto
Breno Antônio
Bruno César
Evandro Aprígio
Ezaquiel Lira
Fábio Luiz
Fábio Trajano
Fernando Roberto
José Leandro
Márcia Lopes
Márcio Ferreira
Márcio Ferreira
Moisés Olegário
Romildo dos Santos
Sidney Lopes

Autores do artigo: Aline Mendes, Augusto Fernandes, Laís Morais, Marina Mergulhão, Raynaia Uchôa e Rebecca Dantas
Fotografia: Marcos Pastich, Luciano Nogueira e Raynaia Uchôa
Artista Urbano: Teo Armando (Mova-se)

Patrocinadores/Apoiadores: Tintas Coral - Movimento Tudo de Cor, Italiana, Karne e Keijo, Rota Mídia Exterior, Asa, Fundação Bernard Van Leer, Armazém Coral Achaqui, Concrepoxi Artefatos, Defesa Civil e Emlurb.

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Sobre este autor
Cita: Aline Mendes, Laís Morais, Marina Mergulhão, Raynaia Uchoa e Rebecca Dantas. "Uma nova história para os morros do Recife: comunidade Lagoa Encantada" 29 Set 2020. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/948454/uma-nova-historia-para-os-morros-do-recife-comunidade-lagoa-encantada> ISSN 0719-8906

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