Na Antártica, a arquitetura está esquentando

Na Antártica, a arquitetura está esquentando

Em 1773, James Cook navegou em torno da Antártica, registrando o primeiro encontro da humanidade com o continente. Desde então, exploradores e cientistas de diferentes países têm procurado compreender os 14 milhões de quilômetros quadrados do continente gelado. Dadas as duras condições climáticas, estética e criatividade tiveram pouca importância nas construções lá erguidas - pelo menos, até poucos anos atrás. Hoje, no entanto, a cena arquitetônica no remoto continente está em expansão.

Arctic Poppy Orangery na Antarctica. Imagem © Alexy KozyrArchitekten IMS. Imagem ©NCAOR (Centro Nacional da Antártica e Oceano)Estação de Pesquisa Halley VI / Hugh Broughton Architects. Imagem © Sam BurrellEstação de Pesquisa da Antártica Princess Elisabeth. Imagem © René Robert - Fundação Internacional Polar+ 13

Architekten IMS. Imagem ©NCAOR (Centro Nacional da Antártica e Oceano)
Architekten IMS. Imagem ©NCAOR (Centro Nacional da Antártica e Oceano)

Embora a Antártica ocupe 10% da superfície terrestre do planeta, os primeiros assentamentos permanentes a serem construídos surgiram apenas em 1902, pelos exploradores britânicos. A tipologia improvisada, geralmente revestida com madeira e isolada com feltro, se manteve por décadas. Em face às duras condições climáticas da Antártica, onde as temperaturas podem chegar em -51C, e os ventos atingem até 160 quilômetros por hora, a durabilidade se torna o maior desafio para as construções no continente. Por exemplo, a Estação de Pesquisa Halley da Royal Society foi construída em 1956, porém sobreviveu apenas até 1968, com a substituição da estrutura de aço, a Halley II, se manteve até 1973. As edições posteriores da Halley se mantiveram apenas 11, 9 e 15 anos, respectivamente.

Estação de Pesquisa Halley VI / Hugh Broughton Architects. Imagem © Sam Burrell
Estação de Pesquisa Halley VI / Hugh Broughton Architects. Imagem © Sam Burrell

Embora a arquitetura do continente, no início e no meio do século XX, tenha sido pragmática, improvisada e temporária, as mudanças políticas trouxeram alterações. O Tratado da Antártica de 1959, assinado originalmente pelas doze principais nações, declarou o continente uma zona desmilitarizada para pesquisas científicas. Nas décadas seguintes, a evolução na paisagem arquitetônica local, se deu devido a um fluxo cada vez maior de cientistas, encarregados de tarefas, e atividades cada vez mais complexas. A Antártica, o único continente sem população indígena, agora abriga entre 1000 e 4000 pessoas ao longo do ano, exigindo uma arquitetura que responda às necessidades, e emoções humanas, e não apenas as condicionantes climáticas.

Estação de Pesquisa Halley VI / Hugh Broughton Architects. Imagem © A.Dubber, Pesquisa Antártica Britânica
Estação de Pesquisa Halley VI / Hugh Broughton Architects. Imagem © A.Dubber, Pesquisa Antártica Britânica

A construção mais icônica é o Halley VI, a base do British Antarctic Survey, projetada por Hugh Broughton Architects. A aparência marcante, e as inspirações do Archigram, resultaram em um projeto com palafitas hidráulicas, que permitem que a base se eleve acima da neve, registrando o afastamento das históricas bases antárticas improvisadas. Citado no The New York Times, o arquiteto Broughton refletiu sobre a proposta dizendo: "anteriormente esses projetos serviam apenas para isolar o ambiente interno do clima externo […], mas agora, os projetos são focados na utilização da arquitetura para melhorar o bem-estar e a eficiência operacional". Desde então, sua experiência foi compartilhada na reconstrução da Base Scott, na Nova Zelândia, e na Base de Pesquisa Juan Carlos 1, na Espanha.

Estação Antártica Comandante Ferraz International / Estúdio 41. Imagem © Estúdio 41
Estação Antártica Comandante Ferraz International / Estúdio 41. Imagem © Estúdio 41

Um empreendimento mais recente é a elegante Estação de Pesquisa Comandante Ferraz do Brasil, que iniciou suas operações em janeiro de 2020. Projetada pelo escritório brasileiro Estudio 41, a estação substitui a construção anterior, destruída por um incêndio em 2012. A estrutura, composta por dois edifícios, abriga laboratórios e alojamentos, e foi elogiada pelo The New York Times como algo que "poderia ser confundido com um museu de arte de um hotel boutique". A evolução da forma arquitetônica na Antártica também é acompanhada pela engenhosidade estrutural. Enquanto as instalações de Broughton para o Reino Unido, e para a Espanha, apresentam edifícios modulares e uma construção em fases, a estação projetada pela bof architekten para o Centro Nacional de Pesquisas Antárticas e Oceânicas da Índia integra no projeto, os contêineres utilizados ​​no transporte de materiais. Tais considerações são cruciais, considerando que a cadeia de suprimentos de materiais, para essas bases, podem durar apenas 3 meses no verão. O aumento da discussão arquitetônica na Antártica foi tão extremo que, em 2014, tornou-se o primeiro continente a ser representado na Bienal de Veneza.

Estação de Pesquisa da Antártica Princess Elisabeth. Imagem © René Robert - Fundação Internacional Polar
Estação de Pesquisa da Antártica Princess Elisabeth. Imagem © René Robert - Fundação Internacional Polar

No total, existem agora mais de 70 estações permanentes de pesquisa em todo o continente, representando 29 países; um número com grandes perspectivas de crescimento. O Tratado da Antártica proíbe a extração de minerais do local, porém, esta cláusula poderá ser descartada após 2048, abrindo as comportas para instalações de perfuração e mineração e, com isso, para uma nova tipologia arquitetônica. As mudanças climáticas também trarão impactos significativos ao continente, com as perdas nas costas das geleiras, novas terras e minerais serão expostos para  possível extração pelo resto do mundo. Mesmo que o Tratado da Antártica se mantenha, e a mineração continue sendo proibida, o crescente uso da automação e robótica por pesquisadores científicos, sem dúvida influenciará a arquitetura da região. Poderá a futura arquitetura da Antártica ser um fluxo em constante evolução de unidades impressas em 3D de forma autônoma, utilizando materiais extraídos do próprio ambiente?

Estação McMurdo da Antártica recebe novo plano diretor sustentável. Imagem © OZ Architecture
Estação McMurdo da Antártica recebe novo plano diretor sustentável. Imagem © OZ Architecture

Como a população humana na Antártica está prestes a aumentar, o futuro do continente estará cada vez mais vinculado ao do resto do mundo. Com designers e arquitetos continuando a desempenhar um papel crescente na paisagem, em constante mudança do continente, a arquitetura responderá às necessidades dos seres humanos, da vida selvagem, robótica, ciência e clima. Se foram os dias de abrigos improvisados com expectativa de vida de 10 anos - a nova arquitetura da Antártica é interessante e está em expansão.

Seção do Pólo Sul, Iceberg Living Station / MAP Architects. Imagem © Conselho Britânico de Arquitetura Design Moda
Seção do Pólo Sul, Iceberg Living Station / MAP Architects. Imagem © Conselho Britânico de Arquitetura Design Moda

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Sobre este autor
Cita: Walsh, Niall. "Na Antártica, a arquitetura está esquentando" [In Antarctica, Architecture is Heating Up] 08 Mar 2020. ArchDaily Brasil. (Trad. Bisineli, Rafaella) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/934901/na-antartica-a-arquitetura-esta-esquentando> ISSN 0719-8906

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