Reconstruindo a Somália a partir de ruínas

Reconstruindo a Somália a partir de ruínas

Reconstruir vidas também significa reconstruir os espaços onde as pessoas vivem, e é aqui que entra o arquiteto ítalo-somali, Omar Degan.

“É verdade que a arquitetura e o design desempenham um papel fundamental na vida das pessoas, e em particular, elas são mais importantes ainda quando se trata de reconstruir um país”, diz Degan.

Panoramic view of Mogadishu. Imagem Cortesia de Design Indaba
Panoramic view of Mogadishu. Imagem Cortesia de Design Indaba

Espaços públicos tem diferentes significados em diferentes culturas. Ele é, sem dúvida, uma poderosa ferramenta na luta por inclusão social e é unanimidade na maioria dos países desenvolvidos, onde assumem a forma de parques e praças públicas dando lugar as mais distintas formas de apropriação e manifestações culturais.

Estes espaços podem e devem desempenhar um papel vital na reconstrução de nações devastadas por guerras e catástrofes, particularmente em países com um histórico de conflitos ruinosos, como muitos dos países africanos. A Somália tem sido marcada por guerras e disputas entre distintas facções, cujas consequências perduram até hoje.

"Acredito que os espaços públicos devem ser prioridade nos esforços de reconstrução de um país como a Somália, transformando-os em uma ferramenta para a promoção da paz e um meio para curar as cicatrizes de um passado turbulento", diz Degan.

New Houses Waberi District Mogadishu. Imagem Cortesia de Design Indaba
New Houses Waberi District Mogadishu. Imagem Cortesia de Design Indaba

O desejo de voltar pra casa

Nascido, criado e educado na Itália, Degan visitou a Somália pela primeira vez em outubro de 2017. Obviamente ele sentiu uma forte conexão com a sua cultura e o passado de sua família. Como um arquiteto especializado em projetos emergenciais, havia chegado a hora de por em prática todos os conhecimentos e habilidades que ele adquiriu ao longo de sua vida. 

Degan desenvolveu previamente uma série de projetos de intervenção em favelas de Buenos Aires e Hong Kong. Foi ai que ele descobriu a importância dos processos participativos de planejamento (aqueles que envolvem a comunidade em discussões e na tomada de decisões), considerações de questões ambientais assim como o uso de materiais e mão-de-obra local. Para o arquiteto ítalo-somali, estas foram experiencias profundamente inspiradoras para a sua carreira.

“Escolhi trabalhar em Mogadíscio por vários motivos, incluindo o fato de que foi provavelmente uma das cidades mais desenvolvidas da África antes da guerra civil da Somália, principalmente durante os anos 60 e 70. Mogadíscio era uma cidade incrível, com uma arquitetura única mas infelizmente, pouco restou disso”.

Durante os seus primeiros três meses trabalhando na capital da Somália, Degan esteve focado no processo de reconstrução de uma mesquita e uma escola, as quais encontram-se praticamente prontas. Ao longo destes meses de trabalho ele conduziu uma vasta pesquisa para avaliar as necessidades e limitações que deverão ser enfrentadas no processo de reconstrução da cidade.

Mosque Baidoa Main Courtyard Render. Imagem Cortesia de Design Indaba
Mosque Baidoa Main Courtyard Render. Imagem Cortesia de Design Indaba

O renascimento dos espaços públicos

Degan descobriu que, antes da guerra, Mogadíscio era uma cidade rica em espaços públicos, com uma proporção significativa de jardins, parques, bibliotecas e instalações públicas.

A Mogadíscio que ele conheceu há alguns anos era completamente diferente. “O único espaço público capaz de resistir a guerra foi a praia, que na verdade, também é um espaço privado. Além disso, há apenas um parque urbano que sobreviveu ao caos da guerra, também privatizado. É preciso pagar cerca de um dólar para entrar, mas sendo que a maioria da população vive abaixo da linha da pobreza, quase ninguém pode pagar por esse luxo”.

Embora os trabalhos de reconstrução no país estejam avançando em um bom ritmo, segundo Degan, pouco tem sido levado em conta em relação à vida das pessoas e o seu contexto. Ele verificou que o atual modelo de desenvolvimento deverá aprofundar ainda mais os altos níveis de desigualdade no país. Por exemplo, a maioria dos serviços básicos encontram-se apenas disponíveis no centro da cidade. Entretanto, aquelas áreas mais afetadas com a devastação da guerra estão na periferia; e pior ainda, os subúrbios abrigam a maioria das pessoas deslocadas e recolocas devido as consequências do conflito.

Restaurant Mogadishu Render. Imagem Cortesia de Design Indaba
Restaurant Mogadishu Render. Imagem Cortesia de Design Indaba

Para o arquiteto, esta é uma grave consequência da ausência do poder público no rigoroso processo de planejamento necessário para reconstruir qualquer lugar. “Os trabalhos de reconstrução estão avançando à toque de caixa e principalmente, sem nenhum tipo de planejamento prévio. Nenhum projeto urbano. Arquitetura zero.”

Engenharia e lucro em detrimento da arquitetura e qualidade de vida

Ele acredita que, essa distribuição desigual de investimentos pode ser atribuída à falta de planejamento urbano em favor do capital e sedenta industria da construção civil. Também não houve qualquer tipo de processo participativo ou inclusão das comunidades locais, algo que para Degan, é o principal elemento a ser considerado em um processo de reconstrução deste tipo, onde quem mais sofre, é a população menos favorecida.

O resultado disso favorece apenas a indústria da construção, não é um processo de reconstrução que considere minimamente a identidade cultural e os fatores ambientais da cidade e do povo somali.

Omar Degan nos conta que, em sua opinião, o setor privado é o principal aliado da industria da construção civil e neste contexto, os espaços públicos são um fator de baixa prioridade. "Obviamente, para aqueles que trabalham com o setor privado, visando o lucro, espaços públicos ou coisas deste tipo não são tão importantes".

Safari Apartments Mogadishu. Imagem Cortesia de Design Indaba
Safari Apartments Mogadishu. Imagem Cortesia de Design Indaba

Então eu me pergunto, onde é que a arquitetura encontra seu espaço em meio a tudo isso? E sua resposta é bem enfática: “A arquitetura enquanto disciplina e prática profissional neste contexto, praticamente inexiste. Eu diria que a Somália nos presenteou com belos exemplos de arquitetura no passado mas que infelizmente, ficaram apenas na lembrança. Agora já não há mais arquitetura sobre a qual podemos falar.”

Mais do que mera reconstrução

Não contente com essa situação, Dugan assumiu voluntariamente o papel de educador, compartilhando sua experiencia prática com as pessoas. E acredita que seu trabalho vai muito além de uma mera reconstrução de estruturas existentes. Se queremos que nosso país se regenere cultural e socialmente, precisamos reconstruí-lo considerando aquilo que é relevante para as pessoas e não apenas para a industria.

Ele procura demonstrar as maneiras pelas quais os espaços públicos podem ser utilizados como uma ferramenta para a promoção da paz entre as pessoas, integrando as diferentes classes em um espaço inclusivo e inspirador.

Memorial 14 October. Imagem Cortesia de Design Indaba
Memorial 14 October. Imagem Cortesia de Design Indaba

Com um longo histórico de conflitos internos e a atual situação política instável do país, Omar Dugan acredita que este é o melhor momento para promover uma ampla e abrangente discussão em torno das políticas de planejamento urbano, assim como é o momento para considerar as principais necessidades de uma população massacrada por um conflito longo e desgastante.

Um projeto para regatar os países devastados pela guerra

Enquanto ele trabalha duro para resgatar a prática da arquitetura na Somália contra todas as probabilidades, Degan continua esperançoso de que, se tudo der certo, a arquitetura seria a principal ferramenta através da qual os moradores podem lutar por seus direitos e por uma vida livre de conflitos.

"Há um longo caminho pela frente", diz ele, "é verdade que a arquitetura e o design desempenham um papel fundamental na vida das pessoas, e em lugares como este, elas são mais do que necessárias no exercício de promoção dos direitos humanos”, diz Degan.

“A arquitetura é a ferramenta que precisamos para reconstruir a nossa nação. Às vezes, ela é vista como um produto de luxo, mas na Somália, em particular, é uma ferramenta que pode elevar a qualidade de vida das pessoa, promovendo a igualdade social e a promoção de nossa identidade. A narrativa das últimas décadas foi tão ruim que esquecemos tudo aquilo que tínhamos de bom e que se perdeu, mais devemos lembrar que somos nós os responsáveis por reconstruir o nosso amanhã”.

Esta matéria foi publicada originalmente no Design Indaba, uma conferência internacional voltada ao empreendedorismo inovador e desafios sociais.

Sobre este autor
Cita: Latief, Jehan. "Reconstruindo a Somália a partir de ruínas" [Rebuilding Somalia’s Ruined Cities] 03 Mar 2019. ArchDaily Brasil. (Trad. Libardoni, Vinicius) Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/912185/reconstruindo-a-somalia-a-partir-de-ruinas> ISSN 0719-8906

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