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Avaliação Pós-ocupação: Como desenvolver projetos melhores avaliando edificações existentes

Avaliação Pós-ocupação: Como desenvolver projetos melhores avaliando edificações existentes
Avaliação Pós-ocupação: Como desenvolver projetos melhores avaliando edificações existentes, © Sheila Walbe Ornstein
© Sheila Walbe Ornstein

Durante o processo de concepção de uma edificação, profissionais de projeto de diversas especialidades são convidados a propor soluções que garantam o atendimento de requisitos e expectativas do seu cliente.

As decisões de projeto, que até a década de 1980, muitas vezes não eram fundamentadas em critérios objetivos, passam, gradualmente, a ser tomadas de modo embasado, com vistas a reduzir eventuais erros de projeto ou execução, desperdício de materiais e ineficiência na execução de serviços bem como devido ao reconhecimento sistêmico das boas práticas.

No entanto, no Brasil, as decisões que envolvem o desempenho de edificações frequentemente ficam limitadas à avaliação da qualidade dos sistemas envolvidos e dos processos construtivos, de modo independente e segmentado, sem levar em consideração o seu desempenho efetivo e integrado (Figura 1), nem o atendimento às expectativas dos usuários e, por conseguinte, em detrimento do resultado final.

© FRANÇA (2016), p. 256.
© FRANÇA (2016), p. 256.

Para atenuar esses problemas, uma importante contribuição, no sentido de formalizar e integrar os requisitos necessários ao desempenho de ambientes construídos no Brasil é a norma NBR 15.575:2013 (ABNT, 2013), que determina o desempenho requerido ao conjunto arquitetônico, não se restringindo à análise das características de componentes ou sistema construtivo separadamente.

A NBR 15575 estabelece requisitos e critérios sob os aspectos de habitabilidade, salubridade, sustentabilidade e segurança, a serem observados de forma obrigatória desde 2013 para edificações habitacionais. Embora a aplicação desta norma seja direcionada ao uso habitacional, sua abordagem conceitual é também pertinente a ambientes construídos em geral, podendo ser adotada em outras tipologias de uso, tais como edifícios corporativos (escritórios) e institucionais (escolas, hospitais, museus, etc.). Para tanto, há a necessidade de se estabelecer critérios de desempenho a serem atendidos em função das características de uso de cada tipo de ocupação. Para algumas delas, já existem parâmetros e critérios estabelecidos em leis, normas e guias de boas práticas nacionais ou internacionais.

A partir da adoção e aplicação destes requisitos de desempenho, as condições da edificação devem ser aferidas ao longo de sua vida útil, mediante seus critérios pré-estabelecidos. E cabe aos especialistas avaliar o ambiente construído em uso, identificar eventuais aspectos críticos, bem como avaliar as suas causas e consequências, de modo a elaborar um plano adequado para a requalificação do ambiente construído e colaborar com o desenvolvimento de um plano de gestão de riscos, sempre que necessário.

Nesse sentido, a aplicação da Avaliação Pós-Ocupação (APO), durante o uso de uma edificação, torna-se um recurso muito útil, uma vez que pressupõe a verificação do atendimento aos requisitos e critérios de desempenho; observação a normas técnicas pertinentes; identificação de aspectos críticos; e a proposição de ações para a solução destes, sempre com vistas à satisfação dos usuários.

Além disso, uma vez que as expectativas e formas de uso de edificações são aspectos dinâmicos, os edifícios precisam ser concebidos de modo a permitir a atualização constante das instalações oferecidas aos usuários, uma vez que o projeto e o uso do ambiente modificam-se de forma contínua, acompanhando as transformações tecnológicas, sociais e culturais.

Portanto, é fundamental que ocorram verificações periódicas e que sejam feitas adequações pertinentes, o que inclusive pode contribuir para prolongar a vida útil e reduzir os riscos associados ao uso do edifício, uma vez que a qualidade e a durabilidade de equipamentos, sistemas construtivos e seus componentes apresentam uma relação direta com os procedimentos adotados para sua manutenção e operação.

Muitas vezes, modificações simples podem trazer melhorias significativas em relação a um determinado aspecto. Porém, é importante que seja feita uma avaliação cuidadosa, considerando o custo-benefício de intervenções e, inclusive, eventuais efeitos indiretos das ações implantadas.

Para que esse processo de verificação, diagnóstico e tomada de decisões seja eficiente, de modo a embasar a revisão do ambiente construído continuamente, é necessário que seja formalizado um processo único, que abrange todas as etapas de seu ciclo de vida, a saber: planejamento, projeto, produção, uso e desconstrução. E isso só será viável caso as informações sejam coletadas e organizadas de modo sistemático e de modo que não ocorra perda de sua confiabilidade, durante as etapas de operação e manutenção da edificação, para que estejam acessíveis e atualizadas quando forem necessárias aos tomadores de decisão.

Dentre os métodos e técnicas que podem ser adotados para uma APO, estão: análises de plantas e memoriais técnicos, walkthrough e medições físicas e de conforto ambiental, conduzidas a partir de um check-list de requisitos a serem avaliados (Figuras 3 e 4) como, por exemplo, a: eficiência energética, eficiência no consumo de água, qualidade do ar no interior da edificação, a iluminação natural e a ergonomia no mobiliário.

© Acervo A. J. G. L. FRANÇA
© Acervo A. J. G. L. FRANÇA
© Acervo A. J. G. L. FRANÇA
© Acervo A. J. G. L. FRANÇA

Para que se tenha uma compreensão mais ampla sobre os impactos de eventuais de aspectos críticos, cabe considerar a aplicação de questionários, entrevistas e atividades de grupo focal, dentre outros instrumentos para coletar informações quanto à percepção dos usuários dos ambientes avaliados (Figuras 5 e 6). A adoção de multimétodos pode elevar os índices de confiabilidade dos resultados, assim como minimizar discrepâncias e particularidades da modalidade avaliada.

© Acervo A. J. G. L. FRANÇA
© Acervo A. J. G. L. FRANÇA
© adaptado de FRANÇA (2011)
© adaptado de FRANÇA (2011)

Uma vez que os aspectos críticos (e os assertivos) foram diagnosticados e classificados conforme prioridade, viabilidade e respectivos níveis de risco, devem ser realizadas reuniões, junto aos responsáveis pela gestão da edificação, para comunicação e esclarecimento dos resultados, bem como a elaboração de um eventual plano de ação para sua correção.

Portanto, embora muitas vezes a APO seja compreendida como um processo “hermético”, a ser conduzido pontualmente, durante a fase de uso do ambiente construído, o apresentado pelos autores mostra que, longe de ser uma simples tarefa a ser conduzida de modo isolado, na fase posterior à etapa de construção, ela consiste em um processo que permeia todas as fases do ciclo de vida de uma edificação, seja com vistas à coleta de dados, seja como fonte de informação para os processos decisórios de diferentes atores.

A partir da sistematização dos resultados obtidos, é possível incorporar mecanismos realimentadores de gestão de qualidade ao processo projetual. Deste modo, as diretrizes elaboradas a partir dos diagnósticos de APO podem ser aplicadas tanto em novas edificações (projetos futuros), como em projetos de intervenção naquelas já existentes (reformas e retrofits).

Referências Bibliográficas 

ABNT. NBR 15.575-1 Edifícios habitacionais – desempenho. Parte 1: requisitos gerais. . Rio de Janeiro, Brasil: ABNT. , 2013
Sheila Walbe Ornstein, Conceitos de qualidade no projeto de edifícios, em: FABRÍCIO, M. M.; Sheila Walbe Ornstein. Qualidade no projeto de edifícios. Porto Alegre: RIMA/ANTAC, 2010. p. 5–22.
Ana Judite Galbiatti Limongi França, Sheila Walbe Ornstein, Rosaria Ono, Mapas de diagnóstico: procedimentos de Avaliação Pós -Ocupação (APO) voltados à qualidade de projeto. 2011, Rio de Janeiro: [s.n.], 2011. p. 297–307.
Ana Judite Galbiatti Limongi França, Ambientes contemporâneos para o ensino-aprendizagem: avaliação pós-ocupação aplicada a três edifícios escolares públicos, situados na região metropolitana de São Paulo. São Paulo: FAUUSP, 2011.
Ana Judite Galbiatti Limongi França, Melhoria contínua aplicada a edificações de tipologia padronizada: a gestão do conhecimento no contexto do portfólio de ativos de uma organização. São Paulo: FAUUSP, 2016.
Rosaria Ono, Sheila Walbe Ornstein, Ana Judite Galbiatti Limongi França, Simone Barbosa Villa (Org.). Avaliação pós-ocupação: na arquitetura, no urbanismo e no design – da teoria à prática. São Paulo: Oficina de Textos, 2018.
Sheila Walbe Ornstein, et al. Post-Occupancy Evaluation in Brazil: It’s impact on professional practice, em: Enhancing Building Performance. Oxford, UK: John Wiley & Sons, 2012. p. 249–258.
Simone Barbosa Villa, Multimétodos em avaliação pós-ocupação e sua aplicabilidade para o mercado imobiliário habitacional, em Simone Barbosa Villa; Sheila Walbe Ornstein (Org.) Qualidade ambiental na habitação: avaliação pós-ocupação. São Paulo: Oficina de Textos, 2013. P. 113-148.

Sobre este autor
Cita: Ana J.G. Limongi França, Rosaria Ono, Sheila Walbe Ornstein e Simone Barbosa Villa. "Avaliação Pós-ocupação: Como desenvolver projetos melhores avaliando edificações existentes" 12 Dez 2018. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/br/907536/avaliacao-pos-ocupacao-como-desenvolver-projetos-melhores-avaliando-edificacoes-existentes> ISSN 0719-8906
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