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Espaço livre e a Tirania dos Tipos / Lebbeus Woods

Espaço livre e a Tirania dos Tipos / Lebbeus Woods
Espaço livre e a Tirania dos Tipos / Lebbeus Woods, © Lebbeus Woods
© Lebbeus Woods

1. Quando fala o Cabeça-de-Lata

  •      A guerra continua. Incendeia uma terra arruinada por ambições mesquinhas. Entre elas, um desejo brutal por governar não pode ser encontrado, somente um desejo por prosperar, por ser aceito como semelhante, e, portanto, como menos-que-semelhante. A terra está arruinada, e as sutis criaturas que rastejam por ela propagam sons terríveis pelo ar, prantos e comandos, argumentos e desculpas, súplicas por misericórdia, apelos por justiça. Mas os edifícios não se movem.
  •      O arquiteto está no quarto. Desde sua janela de cima (sempre de cima), ele olha abaixo aos frágeis modelos da cidade, a uma paisagem rastejando com insetos. Por um momento, ele pensa ser um deles, e, logo, regressa a suas máquinas de produção. As paredes que encerram seu quarto não são foram construídas por ele, mas por trabalhadores sem nome de uma época prévia, inteligentes insetos trabalhadores, habilidosos insetos, obedientes insetos. As paredes estremecem com suas energias, as quais estão de algum modo contidas nos tijolos, no reboco que se desfaz. Ele odeia essas paredes de insetos, e quer demoli-las com suas próprias mãos. Em vez disso, ele projeta novas paredes.
  •      As novas paredes são de um novo material, um material sem nome. Ele deve inventar um nome para elas, e ele o faz. Elas serão chamadas arquitetura. O material com o qual ela é feita não requer nenhum trabalhador, nenhum besouro energético, nenhuma barata habilidosa.

 

2. Vem a revolução

A arquitetura tem sempre servido ao poder e à autoridade na sociedade. Ela tem sempre servido à fortuna e aos afortunados, e é certo que continue com esse papel, servindo a monumentalizar, mitificar, e confirmar ao público os interesses dos já poderosos, convencendo, por meio disso, os não afortunados de que os interesses dos afortunados são também os seus interesses. Museus, financiados por ricos investidores, ricas corporações, e ricos governos, são especialmente efetivos nessa venda de interesses privados em nome do bem público. Eles fornecem cultura como uma comodidade disponível a qualquer um através do valor de entrada, medida não em moeda local, mas na moeda de um desejo de pertencer, de participar do jogo.

D. H. Lawrence, em seu Apocalypse, situa o caso com todo o lirismo proto-Fascista de um último Carlyle: quando negamos o herói, negamos nós mesmos. O herói moderno é algumas vezes um grande líder, porém mais frequentemente alguém que conquista fortuna e poder por trás das cenas. Por isso, a fascinação pelo padrinho. Existe ainda, inclusive na opinião pública, certa vulgaridade associada com a fama. De fato, o preço real da fama é manter-se como segunda linha, se não como segunda categoria.

Uma lição está quase sempre à espera. A única coisa mais hilariante que ver uma estrela surgir é ver a mesma estrela cair. Os únicos heróis modernos intocáveis são aqueles que aparecem no papel e se mantêm lá misteriosamente, sem ostentação ou esforço aparente: eles são as verdadeiras estrelas, os produtos de uma fria, remota, estável e superior esfera. “Estando Lá” é como Jerzy Kosinsky se expressa em sua fábula de poder carismático. As verdadeiras estrelas são (sem surpresas) a aristoi, os Imortais, os ricos investidores, as grandes corporações cujo apoio sem esforço sustenta os mundos da cultura, arte e arquitetura. Eu sei de somente um arquiteto que se encaixa nessa categoria. O resto sofre demais.

Mas eu prevejo outro tipo de arquiteto, outro tipo de arquitetura, com outro papel a desempenhar dentro desta mesma sociedade já tão efetivamente dominada pelos ricos e poderosos. É uma arquitetura operando por fora do jogo. Deixe-me ser claro nesse ponto: não é uma arquitetura da revolução, revoltar-se é confirmar o jogo –de fato, participar do jogo. A arquitetura que eu tenho em mente está simplesmente fora do jogo prevalente de fortuna, poder, autoridade. Ela é o seu próprio jogo, tem suas próprias regras, seus próprios sentidos e fins. O material com que ela é feita, no entanto, é a mesma história, o mesmo presente, o mesmo potencial como aqueles da aristoi e seu propenso público. Se essa outra arquitetura ameaça a predominante, muito melhor. Dois pássaros com uma pedra. O arquiteto que eu prevejo é o arquiteto experimental. Seu suor tem cor de sangue.

3. O Lado Errado dos Trilhos

Algumas poucas centenas de quilômetros ao sul de Viena, uma guerra está sendo travada em nome do nacionalismo, o qual é uma máscara que cobre luxúria por fortuna e avareza por território. É uma guerra que tem destruído o tecido das cidades e municípios, de economias, culturas, e vidas. Essa guerra irá continuar, de uma forma ou outra, porque ninguém com poder de pôr fim a ela está disposto a fazê-lo. Este é uma questão de valores humanos, de força de caráter, ou da falta dele. E não será a última guerra, na Europa ou em qualquer lugar. Os tumultos em Los Angeles em maio de 1992 são apenas uma parte de uma rebelião em curso nos Estados Unidos, uma rebelião contra o sistema social construído através de avareza e luxúria por fortuna.

Sendo ou não que aqueles que se rebelam violentamente, ou se defendem de agressões violentas através de uma força superior, ganham suas guerras para preservar sua identidade e dignidade –sua liberdade de ser quem são– ainda precisa ser visto. As chances estão fortemente contra eles. O peso das instituições poderosas está contra eles: no caso da Bósnia e Croácia, as forças armadas sérvias e a liderança paranoica que as conduzem; nos Estados Unidos, corporações, governos, e a “silenciosa maioria” que acredita que tem tudo a perder se a ordem predominante é derrubada, ainda que essa ordem use violência repressiva para se manter.

Arquitetos, que desenham os edifícios que simbolizam a autoridade predominante na sociedade, especialmente aqueles arquitetos que monumentalizam a autoridade ao tornar seus edifícios “arte”, são parte da repressão, parte do peso contra aqueles que estão hoje sendo esmagados em submissão pelos modos mais brutais. Sem dúvida, esses arquitetos argumentam que seu interesse é por arquitetura, não por política, não pelas condições sociais sobre aquilo que eles podem dizer também que não têm nenhum controle. O melhor desses arquitetos acredita que estão servindo os “grandes interesses” da civilização, aquelas qualidades de pensamento e ação que transcendem os problemas correntes do mundo, que são os elementos atemporais da arte e da ciência. Mas e se a própria civilização está mudando, e com ela a própria natureza dos seus grandes interesses? E se esses grandes interesses, aos que o arquiteto procura servir, não mais requerem transcender as mudanças turbulentas do presente, mas um ativo compromisso com elas? Nesse caso, os arquitetos que monumentalizam a autoridade resistindo às mudanças, uma autoridade que procura se manter com um status quo, não estão hoje servindo à civilização, mas seus inimigos: categorização, ultra-simplificação, tipologia.

4. O Estranho Caso do Espaço Ex

  •      No qual o autor procura (a) descobrir uma conexão essencial entre tipos de edifícios atualmente empregados no projeto e na construção, e o sistema predominante de ordenamento do espaço para o habitar humano; (b) estabelecer claramente que certos tipos importantes de edifícios estão se tornando obsoletos, obrigando a profundas mudanças nas condições filosóficas, sociais e políticas de vida; (c) reclamar pela introdução de novos tipos de edifícios, os quais podem ser consequentemente anti-tipos de edifícios; (d) concluir que os arquitetos são os responsáveis pela introdução desses novos anti-tipos, obrigando a posicionar-se na sociedade como profissionais de uma arte abrangente; (e) declarar que anti-tipos requerem novos sistemas de ordenamento do espaço.

 

(a) Tipos de Edifícios correspondem a categorias econômicas, precisamente como linhas de um livro de contabilidade: residências, escritórios, serviços, comércio, hospitais, fábricas. Estes correspondem, por sua vez, aos elementos da dualidade cartesiana: Deus e mente estão eternamente separados, incomungáveis. O espírito, se é que existe, não é considerado nas estruturas mentais, mas está eternamente banido das suas coordenadas: x, y, z. Essa tríade ainda se refere igualmente à Trindade e à lógica aristotélica. Deus, ou tanto quanto Dele podemos conhecer, deve ser encontrado na matemática e na música. A arquitetura dos tipos, a matemática degradada, a matemática do trabalhador manual e não do trabalhador intelectual, segue qualquer padrão cartesiano calculável e não as matrizes metafísicas de Pitágoras, o magus e músico.

(b) Mas o músico-mago é importante, porque sua metafísica propõe a complexidade não-linear de condições rapidamente cambiantes, as quais podem ser somente ligeiramente previstas e muito menos controladas. Ele propõe jogar-se à corrente, à turbulência de mudanças e de alguma maneira desenhar, a partir disso, padrões e energias evasivas. Essa “alguma maneira” é sua mágica. E não está ele se colocando no lugar de todas aquelas “algumas pessoas” que devem sofrer mudanças, à sua própria maneira e tempo? –aquelas que devem suportar e resistir, que devem, em outras palavras, viver por sua própria razão, dia a dia– os cidadãos de Zagreb, Sarajevo e Moscou, os cidadãos de Los Angeles, Nova York, Berlim, Tóquio.

Não falem com eles sobre tipos de edifícios, as categorias de uma ordem tornada ainda mais transparentes pelas mudanças. Eles trabalham em suas casas, em computadores ou máquinas de costura. Seus filhos são educados pela televisão, em salas de estar, ou porões, ou nas ruas. A fábrica onde eles trabalharam ontem é hoje um estacionamento. O que essas pessoas querem é a mesma coisa que o músico-mago quer: mobilidade, fluidez, equilíbrio, agilidade, a habilidade de desenhar forças a partir da turbulência da própria existência.

(c) Atualmente, novas formas de viver demandam novos tipos de espaço, novos tipos de edifícios que sirvam de instrumentos de turbulência, que criem e julguem simultaneamente turbulências particulares. Sua particularidade não é categórica, a usual tirania dos tipos cartesiana, mas totalmente fenomenológica, totalmente enraizada no fenômeno das mudanças. Essa condição inverte a dualidade normal da relação, na qual a arquitetura é um contêiner matemático generalizado com uma elaborada descrição. Na nova, turbulenta condição, a descrição é generalizada, enquanto a arquitetura é altamente articulada em qualidade materiais.

Isso corresponde à natureza das mudanças que acontecem nas condições modernas da existência, o salto epistemológico do determinismo casual à indeterminação. Hoje, causa e efeito parecem não formar uma corrente lógica, mas existir como condições paralelas num campo flutuante de probabilidades. Forma e função não podem ser conectadas por um verbo, tanto quanto o instrumental arquitetônico mutante ou qualquer descrição dele não podem ser conectados a qualquer coisa através de um significado predeterminado. Hoje em dia, tal arquitetura só pode ser descrita através de uma anti-descrição. O tipo do edifício torna-se o anti-tipo. O edifício, em outras palavras, torna-se atípico, tão altamente particular em termos plásticos que ele só serve de modelo para ele mesmo. Numa palavra, espaço livre.

(d) Não é o incorporador, o burocrata, o cliente institucional quem é responsável por inventar o espaço livre, mas o arquiteto. Somente a arquitetura –o ato, a ideia, a disciplina– pode de “alguma maneira” romper limites e ao mesmo tempo estabelecê-los. Somente a arquitetura pode incorporar o irredutível paradoxo de a uma vez ser e tornar-se, de ser o resultado de x, y e z e tornar-se outra coisa –inefáveis coordenadas mentais que não têm signos ou significância nenhuma, que não “livre”.

(e) Perto de um século atrás, Albert Einstein disse: “Nós sabemos agora que a ciência não pode brotar do empirismo isolado, que nas construções da ciência precisamos usar invenções livres, que somente a posteriori podem ser confirmadas na experiência da sua utilidade. Esse fato poderia iludir gerações anteriores, para quem as criações teoréticas pareciam brotar por indução do empirismo, sem a influência criativa da livre construção dos conceitos. Quanto mais primitivo é o status da ciência, mais facilmente pode viver o cientista sob a ilusão de que é um empírico puro.” De modo a incorporar uma nova concepção do “I” que o século XX, com suas aceleradas velocidades e seu acelerado passo dos tempos, demandava, Einstein teve que inventar uma nova construção livre do espaço e tempo, na qual o “I”, o solitário observador existencial, ocupava a posição crítica e crucial. Logo, de modo a estender essa construção aos limites humanos de espaço e tempo, ele teve que adotar uma nova geometria anti-euclidiana, anti-cartesiana, que inscrevesse espaço e tempo.

A principal tarefa do arquiteto experimental hoje é inscrever espaço e tempo com as dimensões paradoxais de um “I” relativístico –o solitário e abandonado cidadão de um brutal Novo Mundo, liberado sem alternativas de si mesmo, mas, paradoxalmente, pelas condições mutantes nas quais sua própria condição é a causa da sua crise.

5. Manifesto

  •      Arquitetura e guerra não são incompatíveis. Arquitetura é guerra. Guerra é arquitetura.
  •      Eu estou em guerra com meu tempo, com a história, com toda autoridade que reside em formas fixas e aterrorizadas.
  •      Eu sou um dos milhões que não se encaixam, que não tem nome, família, doutrina, lugar para chamar de seu, nenhum começo ou fim conhecido, nenhum “sítio sagrado ou primordial”.
  •      Eu declaro guerra a todos os ícones e finalidades, a todas as histórias que poderiam me acorrentar a minha própria falsidade, aos meus próprios temores mesquinhos.
  •      Eu conheço apenas momentos, e vidas que são como momentos, e formas que aparecem com força infinita, que logo “se dissolvem no ar”.
  •      Eu sou um arquiteto, um construtor de mundos, um sensualista que venera a carne, a melodia, uma silhueta contra o crepúsculo. Eu não posso saber o seu nome. Nem você pode saber o meu.
  •      Amanhã, nós começaremos juntos a construção de uma cidade.

 

Texto original em inglês: Lebbeus Woods (The End of Architecture?, Prestel, 1993) / Tradução ao português: Igor Fracalossi

Cita: Igor Fracalossi. "Espaço livre e a Tirania dos Tipos / Lebbeus Woods" 08 Mar 2012. ArchDaily Brasil. Acessado . <https://www.archdaily.com.br/36920/espaco-livre-e-a-tirania-dos-tipos-lebbeus-woods> ISSN 0719-8906